Bernardo Pires de Lima

Opinião

Globalização em trânsito

Vivemos na era dos ajustes acelerados. As nossas vidas transformaram-se mais em 10 anos do que nos 30 ou 40 anteriores, obrigando-nos a adaptações no consumo, socialização e mercado de trabalho. A pandemia tem sido um tremendo patamar disruptivo nesse caminho, mas a verdade é que muito já havia sido trilhado. Na política internacional estamos na mesma métrica. Regimes híbridos são hoje mais atrativos e convivem no sistema com autocracias e democracias. Estas placas tectónicas estão abertamente em tensão e a pertinência das suas políticas públicas, como superação de epicentros pandémicos, constituem um teste vital à valorização dessas tipologias de regime. Os processos de produção, compra, exportação e administração de vacinas não são, por isto, meros mecanismos sanitários, mas o espelho da confiança nas atuais cadeias industriais de bens essenciais, redes logísticas, cooperação interestadual, rapidez na chegada ao utente. Tudo isto já era válido para produtos alimentares, vestuário, aparelhos tecnológicos, e passou agora a ser evidente na saúde pública, passaporte para a progressiva normalidade socioeconómica.

Bernardo Pires de Lima

Coragem, Svetlana Tikhanovskaya

Não sei se vos tem acontecido o mesmo, mas tenho acompanhado a visita a Portugal de Svetlana Tikhanovskaya, líder da oposição bielorrussa, com uma tremenda admiração. O país vive um endurecimento pós-eleitoral que levou à cadeia mais de trinta mil pessoas, há centenas de presos políticos, tortura prisional, violação de direitos humanos, um aparelho de segurança interna implacável e que condiciona a luta pacífica dos milhares que marcham há meses nas ruas das principais cidades, sob nevões se for preciso.

Bernardo Pires de Lima

A geopolítica da vacina

O processo de vacinação em curso é o passaporte para o início da recuperação das economias, progressivamente aliviadas de confinamentos e socialmente normalizadas. Dizem os especialistas que ultrapassada a emergência pandémica e o período de vigilância sanitária, cuja mistura ainda nos angustia, passaremos a conviver com o vírus de forma endémica, habituada e sazonal. A duração disto é uma incógnita, o que não desmerece os entretantos. E, nestes, há muito em jogo: a vacina transformou-se num instrumento de poder, influência, prestígio e posicionamento estratégico. Se quiserem, deu origem a autênticas superpotências da saúde pública, dando à diplomacia da vacina um cunho que pode ir da salvação gloriosa de terceiros à chantagem por vantagens políticas. Será assim a natureza humana: é na desgraça que se revela.

Bernardo Pires de Lima

Minilateralismos certeiros

Talvez por ser um tema fundamental, passou ao lado da nossa imprensa. E é pena, porque o assunto interessa-lhe diretamente. Nos últimos dias, deram-se significativos avanços internacionais no cerco às grandes empresas tecnológicas, sobretudo no domínio fiscal, no qual operam continuamente à margem, numa zona de privilégios acumulados sem ponta de vergonha, privando os Estados e as sociedades onde deveriam ser tributadas de recursos financeiros e de um exercício de justiça fiscal indispensável à saúde do capitalismo e das democracias. Alguns desses Estados ajudam à festa como autênticos paraísos fiscais, deturpando dessa forma o equilíbrio indispensável em regiões económicas integradas com regras progressivamente uniformizadas.

Bernardo Pires de Lima

A insustentável impunidade dos facilitadores

Depois de quatro anos de incitação ao ódio, discurso inqualificável sobre adversários políticos, ataques diários à imprensa "inimiga do povo", marchas intimidatórias de milícias supremacistas a proliferarem pelos quatro cantos da América, e invasões armadas em Congressos estaduais, só se surpreende com o que aconteceu no Capitólio quem andou a brincar com o fogo, desvalorizando sistematicamente a palavra e a ação do presidente Trump.