Assunção Cristas

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Prioridade para a saúde mental  

Há muito que sabíamos que a saúde mental era o grande tema da área da saúde no futuro dos países mais desenvolvidos. Resolvidos problemas básicos, intimamente ligados à higiene e condições de vida das pessoas, controladas doenças que deram lugar a grandes mortalidades no século XX, transformadas progressivamente doenças terríveis como o HIV ou o cancro em doenças crónicas, aparece o grande domínio da saúde mental. Domínio ligado também ao envelhecimento progressivo da população (de que o imperdível filme O Pai é um testemunho extraordinário).

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Mãe em Portugal do século XXI

Aproveitando as primeiras noites desconfinadas, dei por mim numa sala de cinema a ver um filme "levezinho", porém sobre um tema que continua atual nos seus pontos mais profundos. Manual de uma boa esposa, de Martin Provost, com interpretação de Juliette Binoche, leva-nos à Alsácia francesa de 1967, nas vésperas do movimento estudantil do maio de 68. Ainda as letras da abertura correm e Juliette Binoche, no papel de diretora de uma escola de gestão doméstica, já nos está a explicar os sete pilares de uma boa esposa, risíveis aos dias de hoje. A formação das jovens adolescentes dura dois anos, findos os quais sairão preparadas para desempenhar as tarefas domésticas, cuidar dos filhos e serem companheiras do marido. O treino vai da culinária ao tratamento da roupa, passando pela higiene pessoal de todos os membros da família e pela contabilidade caseira.

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FP25: a verdade exige reparação

No livro recentemente publicado, Presos por Um Fio - Portugal e as FP-25 de Abril, o autor, Nuno Poças, parte de uma perplexidade: o desconhecimento enraizado na sociedade portuguesa do que foi a ação das FP25, que perpassa todas as gerações. Uns esqueceram, outros nunca chegaram a saber. Pertenço a estes últimos. Nascida em 1974 tinha 6 anos quando as FP25 começaram a aterrorizar o país e já tinha 12 quando o julgamento decorreu. Mas se tenho memórias políticas muito fortes desse tempo, das FP25 só uma vaga referência. Até conhecer o Manuel Castelo-Branco, filho de Gaspar Castelo-Branco, diretor-geral dos Serviços Prisionais cobardemente assassinado à porta de casa em 1986. Mas poucos se cruzarão com o Manuel ou as irmãs ou com outros familiares e amigos das vítimas das FP25 e poderão perceber, na primeira pessoa, como este é um episódio da nossa história que precisa de ser revisitado.

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O que é a Páscoa dos cristãos

Começou ontem a semana maior para os cristãos: a Semana Santa, que culmina com a celebração da ressurreição de Jesus, no Domingo de Páscoa. Se a encarnação, festejada no Natal, já é um mistério, a ressurreição é o seu culminar. Na morte e na ressurreição de Jesus celebramos a entrega total de Deus a todos os homens, a remissão de todos os pecados, a salvação pelo amor incondicional. Os quarenta dias da Quaresma são a preparação necessária para esta semana em que a partir do Domingo de Ramos os cristãos são convidados a reviver intensamente a paixão, a morte e a ressurreição de Jesus.

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Plano de Recuperação e Resiliência: os grandes ausentes

O Plano de Recuperação e Resiliência, com quase 14 mil milhões de euros associados, foi submetido a um breve período de discussão pública. Assenta toda a sua narrativa nos objetivos das transições climática e digital e da construção de uma economia e sociedade mais resilientes. Não creio que alguém discorde destes vetores: estão consensualizados em torno das exigências do clima e da evolução digital, que de resto conheceu um salto forçado em virtude da pandemia.

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Cultura entre parêntesis

Em tempos de pandemia ajustámos as nossas vidas, reconduzimos as necessidades ao essencial, fechámo-nos no núcleo restrito das nossas casas. E em grande parte deixámos de poder alimentar o espírito através da fruição cultural, alimento tão importante quanto o do corpo. Essa abstinência forçada, prolongada, priva-nos da experiência indeclinável do belo. Do belo que não pode ser experienciado no isolamento das nossas casas, mas que precisa do espaço, do momento, de pessoas que constituem o público para quem faz sentido, naquele momento, aquela criação irrepetível.

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"As nossas direitas são diferentes"

Peço emprestado o título a Marcelo Rebelo de Sousa que explicou ao país com clareza e brilhantismo o que significa pertencer a uma direita da inclusão e do respeito pela centralidade da pessoa humana. Referiu-se aos princípios de uma direita social e deu exemplos muito práticos, que todos podemos entender, como a condenação da pena de morte e a rejeição da prisão perpétua. Neste último caso, de forma desassombrada e incomum, na qual, enquanto católica, me revejo particularmente: na crença inabalável de que qualquer ser humano pode, em qualquer momento da sua vida, arrepender-se, reconciliar-se e começar uma vida nova. De resto, a vida dos santos é abundante em exemplos, a começar por São Paulo.

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Presidência da União Europeia: agir, mesmo

O ano de 2021 arranca sob o signo da presidência portuguesa da União Europeia (UE). O lema está escolhido e o sol feito símbolo. Pena que a preferência não tenha recaído no azul do mar, correspondente a uma impressão digital portuguesa, por exemplo, na importância da "recuperação azul", no reforço do pilar atlântico numa UE sem Reino Unido, ou na reabertura do diálogo para um acordo de comércio com os EUA, renovada a administração americana.