Ana Paula Laborinho

Ana Paula Laborinho

Por uma comunidade (também) económica dos países de língua portuguesa

Quando em 17 de julho de 1996, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) foi constituída, num impulso iniciado anos antes, em 1989, com a criação do Instituto Internacional de Língua Portuguesa (IILP), encontrava-me em Macau, na fase final da transferência de soberania para República Popular da China (RPC), momento em que se colocava a questão do futuro do português no território. Recordo que me perguntaram na altura se a CPLP representava algum contributo para Macau, num tempo em que ainda não era clara a estratégia expansionista da RPC. Poucos anos depois, em 2003, foi criado o Fórum de Cooperação Económica e Comercial China-Países de Língua Portuguesa (Fórum Macau) e o Governo Central considerou estratégica a aposta no português, quer em Macau, quer na China continental, onde se assistiu a um crescimento exponencial do seu ensino nos últimos quinze anos.

Opinião

A palavra dos filósofos

O tempo que vivemos parece particularmente propenso à reflexão filosófica e, de facto, os mais proeminentes pensadores contemporâneos têm lançado ensaios em que a pandemia está presente. De Giorgio Agamben e Peter Sloterdijk, ambos chamando a atenção para a onda autoritária que se instalou com a pandemia, a Yuval Noah Harari que alerta para os perigos da monitorização biométrica que acatamos com normalidade, passando pelo comunista complexo (assim se define) Slavoj Žižek, que, no mais recente livro, A Pandemia que Abalou o Mundo (2020), anuncia a ruína do capitalismo, incluindo Daniel Innerarity, que publicou recentemente Pandemocracia. Una filosofía de la crisis del coronavírus, que escreveu na primavera de 2020. Nesta obra escrita num tempo que já parece longínquo, o filósofo basco que nos habituou às reflexões sobre o valor da política, não deixa de abordar o seu tema predileto, mas numa perspetiva dos valores e qualidades que são postos à prova perante as dificuldades que enfrentamos. Aliás, esse debate tem atravessado o espaço público a propósito da comunicação de crise, com fortes críticas às dificuldades que os decisores políticos, nacionais e internacionais, têm experimentado para transmitir informação e fixar prioridades sociais. Nem tudo se resume à volatilidade da situação que vivemos, mas a incerteza constante é de facto um enorme teste também ao modelo de comunicação política que se estabelece como assertivo e coerente.

Ana Paula Laborinho

O regresso do Diário de Notícias

A edição diária em papel do Diário de Notícias foi uma das boas notícias do final de 2020, assinalando os seus provectos 156 anos. Não é impunemente que se comemora mais de século e meio, um tempo longo que se cruza com a história do país. O Diário de Notícias surge num período conturbado em que a monarquia constitucional tenta responder aos anseios de uma regeneração que colocasse Portugal ao nível dos restantes países da Europa. O primeiro governo que se segue à insurreição militar de 1851 é chefiado pelo duque de Saldanha e destacam-se no movimento figuras como Fontes Pereira de Melo, Joaquim António de Aguiar ou Rodrigo da Fonseca. Nomes que quase apenas conhecemos das grandes avenidas que rasgaram Lisboa e são elas próprias representação do desejo de progresso, a que se associaram, anos mais tarde, Eça de Queiroz, Antero de Quental, Oliveira Martins, a famosa Geração de 70, mais desencantada e sarcástica do que a anterior, como bem a representou Bordalo Pinheiro.

Opinião

Pensar em tempo de pandemia

No mês de março, quando chegou um inesperado confinamento e tivemos de reinventar a nossa forma de viver, começara a ser exibida em Portugal uma série televisiva de fim de tarde que segui quase com devoção, pelo menos com muito divertimento, através de 40 episódios. Merlí, título desta série catalã, era também o nome do professor de filosofia (evocando talvez o mago do rei Artur) que usa métodos pouco ortodoxos para incentivar os alunos a pensar livremente, o que vai dividir as opiniões de alunos, professores e famílias. Cada episódio tem como ponto de partida um filósofo ou uma escola de pensamento que serve como fio condutor à narrativa, mas sobretudo permite tornar a filosofia mais próxima e convertê-la em instrumento para pensar e agir no quotidiano. A série tem alguns anos e percorreu vários continentes, mas chegou a Portugal num momento em que se iniciava um trajeto desconhecido, em que tempo e espaço se transformaram. Que nos aconteceu neste tempo de pandemia? Como está a ser interpretado e perspetivado? Que ideia temos do espaço virtual em que nos encontramos para trabalhar, para celebrar, para aprender, para dialogar? O filósofo chileno Martín Hopenhayan acaba de publicar um conjunto de ensaios, crónicas e aforismos, Multitudes Personales, em que reflete sobre a forte aceleração que antes nos era imposta e a súbita paragem provocada pela pandemia. Se a constante aceleração nos dava a ilusão de um contínuo imparável (o que servia a lógica capitalista: aumentar a produtividade ou ficar para trás e desaparecer), a pandemia veio travar esse movimento de forma tão abrupta que provocou uma precipitação e um colapso generalizado com que não sabemos lidar. Hopenhayan, que foi investigador de temas sociais na Comissão Económica para a América Latina e Caribe (CEPAL), havia publicado em 1995 Nem Apocalípticos, nem Integrados, contraponto ao famoso livro de Umberto Eco, refletindo já nessa altura sobre os efeitos da modernidade na América Latina, essa miragem da aceleração que agora parece ter colapsado. Em entrevista recente, considera que a pandemia serviu para compreender como afinal é frágil a ideia pretensiosa de que tudo se pode controlar e o conhecimento se tornou uma força inexpugnável. Habituámo-nos a conviver mal com a incerteza e o inesperado e, de repente, fomos colocados perante um desconhecido que põe em causa os patamares civilizacionais que julgávamos ter atingido. Eis-nos de regresso aos tempos da peste: "um pequeno bicho, o mais pequeno que pode existir, põe-nos em xeque e mostra a nossa ignorância, o que é um golpe no ego de toda a espécie", diz Hopenhayan. Também o filósofo basco Daniel Innerarity, no recente livro Pandemocracia, aborda os efeitos destas mudanças repentinas, descontínuas, não antecipáveis, que exigem "uma nova maneira de pensar a realidade". Segundo ele, uma das lições a reter é que "conhecer é cada vez menos saber uma lista de acontecimentos gloriosos do passado e cada vez mais aprendizagem, ou seja, o conhecimento do futuro", quer dizer, em sociedades dinâmicas e voláteis como aquela em que agora vivemos, a sabedoria por meio da experiência vai sendo progressivamente substituída por operações que podem caracterizar-se como aprender do futuro: previsão, prevenção, antecipação, precaução. Conclui Innerarity que a atual crise não é o fim do mundo, mas o fim de um certo mundo: o "das certezas, de seres invulneráveis e o da autossuficiência", um mundo "calculável, previsível e obediente às nossas ordens", substituído pela entrada num "espaço desconhecido, comum e frágil", em que "temos de aceitar a nossa irredutível ignorância". A visão de Slavoi Žižek é talvez uma das mais sombrias. Em A Pandemia que abalou o mundo, considera que este vírus é apenas um ensaio geral para as próximas crises e destaca as consequências das alterações climáticas em que, tal como agora, seremos obrigados a mudar as condições de vida e viver na incerteza. A diferença é que o vírus mata sem querer, enquanto as alterações climáticas são o resultado de uma ação humana e, nesse caso, o vírus somos nós. Das teorias ecologistas às teses sobre o fim do capitalismo ou ao regresso a um Estado totalitário e controlador, nestes meses apareceram numerosos prognósticos sobre o futuro. O que parece comum é a certeza de que nada será como dantes e o novo normal pode ser uma utopia, tal como o retorno ao velho normal. Há muito que se anunciava a proximidade de uma radical mudança: a 4ª revolução industrial, o fim de muitas profissões, uma sociedade digital em que a inteligência artificial poderia superar a capacidade humana. Há muito que convivíamos com vírus de vária natureza, incluindo os informáticos, metáfora da indistinção entre real e irreal, da informação e das falsas notícias, e poderíamos prosseguir com outras projeções dessa ténue linha entre real e artificial. É verdade que a pandemia, pela própria necessidade de confinamento, criou um tempo de suspensão que permitiu pensar, refletir sobre caminhos e até reforçar o que estava em perda, como o valor da res publica e, por extensão, o valor do esforço comum de estados e comunidades na resolução de problemas. Também é verdade que, nestes tempos, assistimos a ações inesperadas de solidariedade, como as dos gangues das favelas do Rio de Janeiro, geralmente envolvidos em lutas brutais e que, durante a pandemia, colaboraram na ajuda aos mais frágeis e idosos nas suas zonas de influência. É ainda verdade que se assistiu a uma melhoria da qualidade do ar durante os confinamentos, por exemplo, na China ou mesmo em Lisboa, mostrando que as alterações climáticas não são uma inevitabilidade. Também assistimos a movimentos de partilha e entreajuda que pareciam esquecidos. Ainda assim, o colapso económico é uma ameaça que pode ser maior que o vírus. Reconhecemos os sinais que anunciam mais desigualdade, mais pobreza, mais segregação. E ste é um tempo de valorizar o pensamento crítico que sempre ajudou a dilucidar acontecimentos, oferecendo novos entendimentos e reflexões em contraposição ao imediatismo do que vivemos. Este é um tempo em que os filósofos regressam e, com eles, a dimensão mais humana do ser. Este, afinal, é um tempo de escolhas que não devemos desperdiçar.

Opinião

A escola do futuro está a chegar

Não, a pandemia não é uma oportunidade. Muitos viram as suas vidas colapsar por múltiplas perdas, dos familiares aos empregos e atividades regulares, e estamos longe de ultrapassar este tempo de incerteza que desalojou as nossas vidas. O comentário otimista mais frequente é o da aceleração de processos que sabíamos iriam chegar em breve, com a digitalização em pano de fundo, e que agora se tornaram mais urgentes. O contraponto é que, também, as desigualdades se tornaram mais nítidas e aumentou o fosso entre os que têm e não têm acesso ao digital, entre os que potenciam o seu uso e aqueles que não estão preparados para o alcançar.

Opinião

Um novo contrato social para uma nova era

Ainda antes da pandemia, que virou o nosso mundo do avesso, já eclodiam vagas de protestos em vários continentes, de França ao Chile, de Hong Kong aos Estados Unidos, mostrando que, apesar de termos alcançado assinaláveis progressos, algo na sociedade globalizada não está a funcionar. O Relatório de Desenvolvimento Humano de 2019 do PNUD, apresentado em final do ano passado, é esclarecedor na identificação deste descontentamento crescente, tão crescente como as desigualdades. O seu título "Além do Rendimento, Além das Médias e Além do Presente" é já de si um apelo a políticas públicas que possam combater as novas desigualdades e respondam às expectativas das pessoas em relação ao futuro.

Ana Paula Laborinho

A medida do tempo

Parece uma eternidade, mas foi a 16 de março, há precisamente 4 meses, que as escolas encerraram em Portugal, quando ainda não havia consenso sobre essa medida. Os primeiros casos de Covid-19 datam do início do mês e, só pelo que assistíamos nos países próximos, se tornou imperativo avançar, sem que nessa altura houvesse alternativas à escola presencial. Como sempre acontece, foram vários os alvitres, com alguns a propor a solução fácil de terminar de imediato o ano letivo e prescindir do último período. Num movimento que gerou admiração internacional, a comunidade educativa construiu respostas que foram do ensino virtual, ao apoio ao estudo em casa através da televisão, através do telemóvel e do telefone ou mesmo da entrega em mão de materiais didáticos aos alunos. É bom lembrar que tudo isto só foi possível porque se juntaram professores, encarregados de educação, diretores escolares, tecnólogos, especialistas de currículo, didática e pedagogia, autarquias, forças de segurança, associações e todos os que concorreram para que se tentasse diminuir as diferenças de acesso à educação.