Ana Paula Laborinho

Opinião

Vencer a resignação

A espuma dos dias, dominada pelos números da pandemia e pelos resultados (muito provisórios) do processo mais mediático da justiça portuguesa, trouxe duas notícias que nos deveriam abalar. Foi divulgado o estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos que apresenta um retrato sobre a pobreza em Portugal, revelando que 17,2% da população portuguesa, quer dizer 1,7 milhões de pessoas, vivem em risco de pobreza. Importa destacar que este estudo se baseia em dados de 2018, não sendo difícil prever que estes números já foram superados na atual situação e continuarão a subir. Soubemos também que a taxa de natalidade em 2020 recuou aos valores de 2014, ano de um ciclo de más memórias em que troika foi a palavra mais usada e abusada desses dias.

Ana Paula Laborinho

Divulgar ciência na era da desinformação

Acaba de sair um número especial da Revista Ibero-americana de Ciência, Tecnologia e Sociedade, da OEI, dedicada ao jornalismo e à divulgação científica na era da desinformação. O tema havia sido escolhido em 2019, muito antes de se tornar essencial neste tempo de pandemia, e, por isso, não é de estranhar que os artigos sejam modulados pela atual situação, sem prejuízo de uma visão muito mais ampla. O volume é coordenado por Carlos Elías, responsável da cátedra Jean Monnet UE, Desinformação e Fake News, da Universidade Carlos III de Madrid, que há muito se dedica à relação entre jornalismo e ciência, que têm em comum a busca da verdade e a sua divulgação.

Ana Paula Laborinho

Cultura e desenvolvimento sustentável

Quando a Agenda das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável foi aprovada, em setembro de 2015, confirmou-se que não existia um objetivo para a cultura entre as 17 metas globais, ao contrário de outros domínios como a Educação, a Igualdade de Género, a Saúde ou a Ação Climática. Essa expectativa havia sido alimentada em alguns setores durante o período de construção desta agenda construída com grande participação da sociedade civil.

Opinião

"Vacina para Todos": uma luta pelo futuro

Um dos filmes que mais me impressionou do nosso centenário realizador Manoel de Oliveira (1908-2015) foi O Meu Caso, que se estreou em 1986. Na altura, não entendi o filme e saí da sala irritada por aquela montagem em palco de uma peça que parecia estar sempre a voltar atrás e não saía da repetição obsessiva "o meu caso" por personagens que queriam demonstrar que o seu caso era mais importante do que o do outro. Só depois fui ler a peça de José Régio com o mesmo título, que serve de guião desconstruído ao filme. José Régio (1901-1969) é mais um dos escritores que fomos deixando de ler e, no entanto, nada mais atual nestes tempos que vivemos. O Meu Caso (1957) é uma peça cómica que se vai adensando em reflexão sobre a condição humana, o que também acontece no filme de Oliveira, com citações ao Livro de Job que servem para traçar um quadro crepuscular da civilização moderna. Termina com a recriação de Piero della Francesca, o pintor do quattrocento italiano, que para mim significa essa transição eufórica do final da Idade Média para uma Idade Moderna humanista, atenta ao homem e à natureza. Neste tempo de pandemia, é a nossa condição humana que vai sendo posta à prova, entre a tendência para cada um se fechar no "seu caso" e a imensa solidariedade a que temos assistido. A pandemia põe à prova, de uma forma global, o nosso modo de vida, antes de mais a liberdade de circulação e de reunião, a proximidade humana, criando uma desconfiança que tentamos civilizadamente disfarçar, reprimir ou ignorar, mas sempre surge nem que seja através das recomendações necessárias para mantermos uma vida comum.

Opinião

Por uma cidadania plena

Assinalou-se ontem, 8 de setembro, o Dia Internacional da Alfabetização, instituído pela UNESCO há mais de cinco décadas, precisamente em 1965. Portugal tem vindo a adotar o termo inglês, literacy, em vez de"alfabetização" que aparece em quase todas as outras línguas. É interessante como a palavra usada condiciona (ou determina) a ação que lhe está associada. Enquanto a maioria dos países aproveita este dia para recordar os números persistentes de analfabetismo, o termo literacia torna mais evidente a inclusão de outras competências essenciais (a literacia digital, a literacia financeira, a literacia dos media) que aumentam a capacidade de resposta dos cidadãos aos desafios colocados pelas sociedades contemporâneas.