Afonso Camões

Opinião

Trio que não admira

Juventude é aquela idade vertiginosa que só apreciamos verdadeiramente no momento em que lhe sentimos as saudades e ela nos foge. Juventude, desemprego e precariedade é um trio de palavras que nos habituámos a ver juntas, o nó que é urgente desatar, agora mais apertado pelo efeito da pandemia no desemprego, quatro vezes superior entre os mais novos. Em apenas um ano, mais de 100 mil jovens perderam o emprego e o número de inativos até aos 34 anos subiu agora para 261 mil, agravando condições de vida e adiando sonhos de emancipação. Quatro em cada cinco jovens portugueses até aos 30 anos não tem rendimentos que lhes permitam sair de casa dos pais, e quase metade daqueles que encontram trabalho remunerado submetem-se a contratos temporários.

Afonso Camões

A vacina que não há

Moramos há mais de um ano por dentro de uma palavra maldita que até então nunca tínhamos proferido nem sequer soletrado. Pandemia, da família do grego antigo, significa literalmente que o vírus anda à solta e que o perigo toca a todos. De uma forma ou de outra, todos conhecemos alguém, próximo ou mesmo de família, que foi infetado ou que pereceu, vítima de covid-19. Em Portugal, a mórbida contagem regista já perto de 860 mil casos de infeção e mais de 17 mil mortos, entre os quase 4 milhões em todo o mundo.

Afonso Camões

Dos canhotos na política

Faz hoje 93 anos, na madrugada de 1 de junho de 1928, Portugal adotava finalmente a regra de trânsito que impõe a circulação pela direita nas faixas de rodagem. Dias antes de tal regra ganhar força de lei, este DN centenário lançara uma campanha de sensibilização pioneira, na área do marketing editorial: por todo o país, centenas de faixas e cartazes apelavam, com letras gordas, a que doravante toda a circulação de veículos se fizesse "Pela direita!", regularizando o sentido da marcha para evitar acidentes.

Afonso Camões

A nova Arca de Noé

Cansados da pandemia e tolhidos pelo confinamento, atiramos a cabeça às nuvens e sonhamos com a próxima viagem. É nesse espírito que a União Europeia acelera a criação de um "passaporte sanitário" para salvar a campanha de verão. Eufemismos à parte, o "certificado digital verde", como prefere chamar-lhe António Costa, visa facilitar a livre circulação no contexto da covid-19 e atestar se o seu portador foi vacinado, se tem anticorpos ou deu negativo em teste recente.

Afonso Camões

Marcelo e a espada de Eanes

Ainda bem. E que o Senhor o acrescente!, diria a minha sogra da reeleição de Marcelo. Eu acrescento que, por mais que festejemos um e justifiquemos os outros, o problema é o outro - ou pior, são outros. Um é aquele que multiplicou por sete o número de votos arrebanhados à esquerda e à direita, resultado da incapacidade do sistema para responder às chagas dos nossos dias: desemprego, medo, miséria, fome, doença - o calvário de gente, muita gente, gente nossa, com rosto, o da desigualdade persistente, que gera populismos, violência e ódio. Em jogo, diante de nós, encontram-se duas lógicas: a dos partidos tradicionais e a da sociedade. As eleições de domingo demonstraram que elas deixaram de coincidir.