Afonso Camões

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Vencer a maldição

Há pouco mais de um século, quando o primeiro lorde do almirantado inglês decidiu substituir o combustível do poderio naval britânico (petróleo em vez de carvão na sua frota), estava a configurar o mundo em que vivemos. E ainda não se tinham disparado os primeiros morteiros da também primeira Guerra Mundial. De lá para cá, tudo evoluiu e se modernizou. Mas o desenho é impostor. O rasto de conflitos e atentados ao longo de décadas tresanda a disputas pelo petróleo. É a maldição desse tesouro cobiçado. Porque, descontada a Noruega e poucas mais, a desigualdade é a marca maior das nações bafejadas por esse líquido negro que faz sumariamente alguns ricos e miseráveis milhões de outros.

Afonso Camões

Agarra que é turista!

Já entrámos no verão e apenas um quarto dos portugueses que podem gozá-las marcaram férias, sendo que metade dos que planeiam viajar tencionam fazê-lo cá dentro. A covid-19 insiste em manter-nos, a nós e aos outros, nesta espécie de reclusão domiciliária, mas foi preciso um ano de pandemia para demonstrar que o turismo, que chegou a representar quase 20% da riqueza que produzimos, é a indústria mais importante do século, como fator de criação de emprego e sustento de inúmeras outras atividades económicas.

Afonso Camões

Umas réstias de sol

Ponhamos umas réstias de sol nestes meses de chumbo. A recuperação titubeia, mas já começou. A saúde pública e a economia oferecem os primeiros sinais incontestáveis da nova etapa. O pior já terá passado. Portugal está a vacinar a bom ritmo, e o fim da grave paralisia da atividade produtiva detonada pela pandemia também começa a despontar. Há motivos para um otimismo precavido. Mas nenhum para relaxar ou subestimar a magnitude dos desafios que temos pela frente, para uma recuperação robusta e inclusiva.

Afonso Camões

Dar corda aos sapatos

As oportunidades são como o nascer do Sol: um atraso e perdemo-las. Vacina, emprego e gestão da ajuda europeia são os enormes desafios para a economia portuguesa nos meses vindoiros, e o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) é a grande oportunidade para a modernizar. Por mais anémica que a nossa economia se arraste, vamos ter a possibilidade de investir, por ano, o dobro do que investimos na média dos melhores anos desde que aderimos à União Europeia. E se a esperança é um bem coletivo, cabe ao governo a gestão dos recursos, dos meios e do tempo. Não percamos a oportunidade.

Afonso Camões

Sol na eira, inverno laboral

Regressou o sol, mas a vida vai áspera. Quatro em cada dez portugueses em idade ativa estão sem trabalho. A taxa que mede a relação entre empregados e a população total em idade ativa recuou para os 60,2%. Vai áspera a vida, e a OIT previne que a invernia precipitada pelo vírus prenuncia "uma crise sem precedentes no mercado laboral" cuja recuperação será "lenta, desigual e incerta".

Afonso Camões

Se a vacina fosse de roer!

A máscara dos nossos dias disfarça-nos o sorriso e ajuda a encobrir um país sem dentes para algumas nozes. Literalmente! Por mais que as televisões os escondam - e que até uma produtora tenha pago a dentadura do cidadão Fernando Jorge da Silva dos Santos, a quem chamamos de "Emplastro" -, faltam dentes a mais de metade da nossa população. Discreto, por entre a mórbida contagem dos números da pandemia, o último Barómetro Nacional de Saúde Oral revela que 70% dos portugueses vivem com falta de dentes naturais, e que a onze em cada cem compatriotas faltam mais de seis dentes. Ora, explicando os avós que é pela boca que a saúde começa, aí temos o estado da arte em matéria de saúde pública.