Adriano Moreira

Adriano Moreira

O diálogo a cinco

O anúncio do fim da Guerra Mundial de 1939-1945, para o qual sempre recordo o inspirado anúncio de um jornal francês, com a afirmação de que se tratava de "um anúncio feliz cheio de lágrimas", sentimento que apoiou reconstruir o projeto mundial de uma paz global. Foram e continuam a ser necessárias as instituições que participam no esforço de realmente implantar, para todas as espécies humanas, a dignidade, o direito e a justiça. Numa data, a nossa, em que na própria União Europeia se discute se a Europa está a caminho de "refazer-se ou desfazer-se", encontrei lembrança na Universidade de Salamanca, na estrutura chamada Diálogo a Cinco, criada em 2013, e ali organizada na Faculdade de Direito da Complutense. A iniciativa defendeu que, mesmo nas ações regionais, devem intervir representantes de ministérios importantes (Negócios Estrangeiros, Justiça, Educação, Ministério da Cultura) com três líderes religiosos e quatro académicos. A universidade organizou a sua conferência internacional, seguindo o critério estabelecido, insistindo no tema dos direitos humanos, da liberdade religiosa e nas minorias.

Adriano Moreira

Independência e democracia

Nas duas Guerras Mundiais, a paz teve definições, de apoiar a que não viesse a repetir-se novo desastre equivalente, modo de reconhecer que a importância da então solidariedade entre os vencedores conseguiu uma larga adesão, o que na situação atual do século sem bússola em que vivemos parece menos segura. Mas na primeira daquelas guerras (1914-1918), teve decisiva intervenção o presidente Wilson com o princípio do Estado nacional, não tendo conseguido que os EUA assinassem a carta da Sociedade das Nações, mas pessoalmente convicto da importância do que foi chamado tribunal da opinião pública mundial confiante no princípio que teve aplicação.

Adriano Moreira

Os primeiros passos

O primeiro encontro entre o presidente Biden e Vladimir Putin da Rússia foi talvez o primeiro passo que procurava tornar pública a necessidade e a urgência de tornar publicamente evidente, não que tem já um projeto renovado da relação, que vai generalizar as evidências da sua atitude negativa do presidente que venceu na luta pelo cargo. Por estranho que parecesse ao mundo diplomático, não faltaram sinais expressivos do relacionamento que existia entre o poder político dos EUA e o poder da Rússia atual.

Adriano Moreira

O regresso dos EUA

A reunião dos líderes do G7, no Reino Unido, teve como primeira novidade a presença de Joe Biden, que assumiu os propósitos do regresso dos EUA à problemática que orientou os responsáveis pela vitória na Guerra Mundial de 1939-1945, e que o antecessor na titularidade desse seu cargo, supunha ter eliminado, até aqui não calando a sua avaliação de regressar ao poder. A generalidade dos ocidentais tem esperança de que nenhuma oportunidade admitirá a concretização da ameaça, esperando conseguir a fidelidade de todos ao conceito estratégico americano, e que seja vencida a crise mundial decorrente do ataque da covid-19.

Adriano Moreira

A paz efémera

De regra, é no fim das guerras, sobretudo de dimensão mundial, que se fortalece a esperança de conseguir uma paz definitiva, sobretudo para o tempo que não será já o da vida dos intervenientes na definição de normativas e resultados previstos na geração que criou a herança para a geração seguinte, hoje uma das mais destruídas da história. Tal objetivo de implantar o credo dos valores da justiça natural, com instituições bem definidas, como a ONU, com uma imperativa Declaração Universal dos Direitos do Homem, tem sofrido sérias omissões.

Adriano Moreira

O mundo em questão

Não há muito tempo, um dos mais seguros fiéis da solidariedade dos países de língua portuguesa, José Carlos Gentili, membro de prestígio da Academia de Letras de Brasília, esteve entre nós (2018) na Academia das Ciências, para participar no que chamou "notável colóquio", cujo título era a língua portuguesa. A sua permanente intervenção na concretização do sonho que foi de Kubitschek de Oliveira, é histórica. Por igual ocupa-se da evolução, com grande esperança, do Brasil, da sua história portuguesa, do seu apego à solidariedade da CPLP. Alguns dos seus livros, numerosos, como Lagoa dos Cavalos (2012), ou Vivências (2020), além da dedicação à solidariedade da língua e do provado interesse pela grandeza do Brasil e pela importância da CPLP, fizeram que o seu passado legitimasse a Presidência de Honra Perpétua da Academia de Letras de Brasília. Fez uma crítica positiva à decisão de D. João VI de criar os Reinos autónomos de Portugal-Brasil-Algarves, prevendo a independência consentida desse novo Brasil.

Adriano Moreira

O envelhecimento

Esta situação global de, em todos os povos sem diferença de etnia, cultura ou crença, enfrentarem o ataque da pandemia, levou à necessidade de os poderes políticos, desafiados a reverem a sua relação com o conceito identificador da inesperada circunstância, a redefinir a sua relação com a velhice. Como a conclusão valorativa depende de terem chegado os inesperados cisnes negros, que doutrinou Ortega, a ONU, em perda do período de esperança, a qual abrangia preencher os vazios causados pela mortandade dos combates militares, fez circular a expressão "envelhecimento ativo". Uma expressão que dispensava a limitação pela idade como critério imperativo de ter chegado o fim, mas não dispensável para reconhecer os ainda garantes do tempo, sobretudo, como agora, pela terrível invasão, próxima do indomável, dos cisnes negros.

Adriano Moreira

Cátedra UNESCO

No passado 5 de fevereiro deste 2021, procedeu-se, em formato digital, ao lançamento da cátedra UNESCO - Educação e Ciência para o Desenvolvimento e Bem-Estar Humano - EDUWELL, com a presidência da professora doutora Ana Costa Freitas, reitora da Universidade de Évora, e do professor doutor Carlos Salema, presidente atual da Academia. Na data em que o globo é objeto de uma desordem da relação entre os objetivos definidos depois da guerra, e capacidades desordenadas sobretudo pela pandemia, parece de receber com louvor e esperança uma iniciativa que encontra raiz em já antiga resolução da ONU.

Adriano Moreira

O aviso contra a desordem

O ilustre escritor que é José Carlos Gentili, presidente honorário da Academia de Letras de Brasília, escreveu, entre os seus numerosos textos, um livro intitulado Lagoa dos Cavalos (2012), um romance histórico do Brasil, que Adirson Vasconcelos sintetizou escrevendo: "Levanta e discute temas de ontem e de hoje que nos levam a pensar na igualdade de direitos, na liberdade de pensamento e na solidariedade humana." Este "contar a história do povo nordestino" implicou citar, na própria capa, um grito humano do padre Cícero Romão: "É preciso dar um basta à anarquia."

Adriano Moreira

A terra prometida

Na posse de presidente, Joe Biden não omitiu, sempre de acordo com as suas referências concretas à religião católica, de citar o Papa Francisco, nem de insistir, na qualidade no cargo, assumir a responsabilidade pela unidade do povo americano, nem de tornar evidente que vai assumir revogar a negada aceitação da cooperação global feita pelo antecessor presidente na inesquecível Assembleia Geral da ONU. Em toda a cerimónia de posse, foi visível a simpatia com que os presentes, salientando os antigos presidentes ainda vivos e também presentes, distinguiam a presença do antigo presidente Obama, que o novo eleito acompanhara como vice-presidente. Ele, não ignorando a história da sua América (a terra prometida), tinha a convicção, e prática, de que a nação existia, independentemente das violências éticas e étnicas do passado, pelo que muitas experiências demonstram que, na importante doutrina política, é o Estado que, de regra funda a nação, e não o contrário.

Adriano Moreira

A grave crise americana

Independentemente do valor da soberania e da independência dos Estados, que se alargou com a intervenção do princípio do fim do colonialismo sobretudo ocidental, a regra da cooperação global orientou o encontro de todas as diferenças culturais, éticas, étnicas e religiosas, na ONU. Tratando-se de ter a paz como um valor assim reforçado, não seria realista deixar de prever, e antecipar, regras e condutas que viessem a repetir violações do direito internacional, que teriam como primeira resposta, impedindo o agravamento do contencioso, a criação de tribunais internacionais, com reconhecida autoridade judicial. Seria menos raro, na lógica dos apelos mais documentados pelas exigências, em que se destacam as duas Guerras Mundiais do século passado. Infelizmente não foi possível evitar guerras que exigiram lideranças personalizadas, para intervirem a favor ou contra as perceções políticas em confronto, sendo talvez Churchill o mais saliente estadista dos que ficaram na história (1939-1945), quando, enfrentando o nazismo alemão, gritou: "We shall fight on the beaches, we shall fight on the landing grounds, we shall fight in the fields and in the streets, we shall fight in the hill: we will never surrender." Lembrado nesta data inquietante em que a gravidade da pandemia parece cobrir de um nevoeiro espesso a desregulação da ordem internacional, e que vai como que sendo silenciada a integridade imaginada pelos fundadores da ONU.

Adriano Moreira

O Natal diferente

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, avisou os europeus de que o Natal deste ano vai ser diferente, aviso corolário da mensagem do serviço de Prevenção e Controlo das Doenças aos povos e aos governos. A importância do Dia de Natal não é exclusiva para cristãos, numa época em que progrediram os avisos de Ernest Renan (1848) sobre "organizar cientificamente a humanidade", período em que "tudo o que o Estado doava antes ao exercício religioso pertencerá de direito à ciência".