Adriano Moreira

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A terra prometida

Na posse de presidente, Joe Biden não omitiu, sempre de acordo com as suas referências concretas à religião católica, de citar o Papa Francisco, nem de insistir, na qualidade no cargo, assumir a responsabilidade pela unidade do povo americano, nem de tornar evidente que vai assumir revogar a negada aceitação da cooperação global feita pelo antecessor presidente na inesquecível Assembleia Geral da ONU. Em toda a cerimónia de posse, foi visível a simpatia com que os presentes, salientando os antigos presidentes ainda vivos e também presentes, distinguiam a presença do antigo presidente Obama, que o novo eleito acompanhara como vice-presidente. Ele, não ignorando a história da sua América (a terra prometida), tinha a convicção, e prática, de que a nação existia, independentemente das violências éticas e étnicas do passado, pelo que muitas experiências demonstram que, na importante doutrina política, é o Estado que, de regra funda a nação, e não o contrário.

Adriano Moreira

A mensagem

Fez 100 anos de idade o, na guerra, jovem Benjamin Ferencz (nasceu em 1920) que, bem entrevistado por Mafalda Anjos na Visão, como que deixou enumerados imperativos éticos que indica como esperando, desde o fim da guerra de 1939-1945, obediência internacional. Lembrado no livro de memórias intitulado, na tradução, Palavras Que Tocam a Alma. A importância histórica deste homem, que me leva a repetir antigos comentários, tem que ver com o facto de ter viabilizado a posição expressa pelos grandes líderes da vitória, Roosevelt, Churchill e Estaline, por terem decidido o castigo penal dos responsáveis, vencidos na guerra, pelos cometidos crimes contra a humanidade.

Adriano Moreira

A paz global

Embora a Carta da ONU, tal como acontecera com a Sociedade das Nações, tivesse uma origem ocidental, foi impressionante o início da reunião da Assembleia Geral, na qual se multiplicavam as representações de delegados das diversas culturas, etnias, e religiões existentes no globo, finalmente encontrando-se numa instituição que visava definir interesses e valores comuns, ao serviço de um futuro em paz geral. Um objetivo que animou várias iniciativas, que entre os ocidentais recebia inspiração na experiência de Assis, que ainda hoje tem importância, e desafia, designadamente em Moçambique, onde no passado contribuiu para a paz, de novo inquietante.

Exclusivo

Adriano Moreira

A barbárie

O avanço da inteligência artificial, que abrange a própria segurança e defesa, teve por isso um avanço exigido e modernizante, no domínio da proliferação dos armamentos autónomos, a exigir a tradicional resposta normativa que condiciona as tecnologias de natureza militar. A esperança de submeter a tecnologia a regras de imperativos éticos corresponde a procurar um futuro mais equilibrado do globalismo organizado, não garante facilmente a militarização geral ética dessa inteligência de resultados agravados pela falta de participada consciência, o que torna a competição dos emergentes mais gravosa e inquietante, salvo no caso de a investigação conseguir aliar o avanço dos imperativos éticos à exigência ética do uso dessas armas. O surpreendente é que neste ambiente, onde se procura pôr em vigor uma espécie de ética, não apenas a estrutura da ordem nacional e global seja violentamente abalada e destruída pela pandemia, mas também pela barbárie, não dos "robôs" libertos do prometido normativismo, mas de agentes humanos que não são modelos de combatentes, mas assassinos.

Adriano Moreira

Fundamentalismo terrorista

Quando o presidente da França foi surpreendido pelo cruel assassinato de Samuel Paty, professor de História e Geografia, em Conflans-Sainte-Honorine (Yvelines), por um jovem muçulmano, que o decapitou por ter utilizado caricaturas de Maomé numa das suas aulas, assumiu a indignação da França, afirmando que esta manteria a liberdade de ensinar, e a prática da vítima seria mantida: infelizmente, uma série de assassinatos cresceu em diferentes lugares da França, e depois fora, obrigando, para além das medidas de segurança e justiça, a recordar o famoso estudo de Nicolas Sarkozy, sobre O Estado, as Religiões e a Esperança, concluindo que "os muçulmanos já são a segunda religião da França", e advertindo "contra o fundamentalismo laico e contra o fundamentalismo religioso", acrescentando que "a República é uma maneira de organizar o universo temporal. É a melhor maneira de viver em comum. Mas ela não é a finalidade do homem: há ao mesmo tempo uma afirmação espiritual que a República não deve negar, mas que não é também de sua competência".

Exclusivo

Adriano Moreira

O inseguro futuro

A guerra de 1939-1945, tendo entre a memória das suas consequências a globalização do desastre, conduziu ao projeto, com memória múltipla secular e sempre impossível de efetivar, de estabelecer uma estrutura da ordem pacífica mundial, que teve como centro a organização da ONU. Não sendo justo esquecer os serviços prestados à humanidade pelas suas organizações, é impossível a tranquilidade ao ouvir as intervenções, dirigidas ao globo, na 75.ª reunião da Assembleia Geral da ONU, pelas duas grandes potências que são os EUA e a China. Temos proximidade entre esta Assembleia Geral e a celebração dos 70 anos da NATO, cujo conceito estratégico, aprovado em 2010, visava a defesa coletiva, gestão de crises e segurança coletiva. A complexidade da conjuntura, que torna imprevisível o futuro deste século, recorda a visão de John Rawls, (Theorie of Justice, 1971), quando acentuou que as "construções jurídicas estendem seu "veil of ignorance" sobre a realidade anunciada pela guerra, mas não lidas pelas teorias da "nacional choice". O facto desafiante é que a realidade desenvolveu uma interdependência global de todas as antigas supremacias, mas a Carta da ONU não disciplinou esse desenvolvimento. Talvez o conflito do discurso de Trump, nos seus sete minutos de imputação à China da responsabilidade pela propagação da pandemia de covid-19, tornasse esclarecedora a resposta de Xi Jinping de que nenhum país pode ser o "chefe do mundo". Na Assembleia talvez algum delegado presente tenha recordado que o general Ben Hodges, ex-combatente das forças americanas, deixou em 2018 o aviso público de que "EUA e China estarão em guerra dentro de quinze anos". Poderá ser mais um desastre global, filiado, entre razões abrangentes, pelo facto de a Carta da ONU ser mais um capítulo da ocidentalização do mundo, sem participação da pluralidade de etnias e culturas que não aderiram globalmente nem ao passado nem ao futuro proposto. Os analistas não se defrontam com um "mundo único" no sentido da Carta da ONU, mas com a exigência do pluralismo da realidade de propor, nem sempre coletivamente com paz, traçar linhas vermelhas sobre o globo político, que dão explícita e diferente identidade aos EUA, Europa, Rússia, China, Médio Oriente, África, Ásia, América Latina, um assumido "mundo em competições". E, porque é de origem ocidental a ONU, é necessário avaliar a real consistência, sem cortes, da solidariedade que definiu indispensável. Como foi dito, "não se trata de lecionar sobre navegação, enquanto o barco se afunda", mas de assegurar que se respeita, com alterações participadas, o original projeto de ocidentalizar o mundo, procurando manter a básica definição cultural e científica de que se ocupou Jacques Barzun com o seu notável Da Alvorada à Decadência. Parece que o princípio dominante do "conceito estratégico americano" é o de assumir a posição de mundial dirigente. Talvez esqueça que o presidente Kennedy tenha sido, na sua curta vida, o que mais claramente afirmou a orientação da superioridade ética perante o mundo, ao qual deveriam provar que era uma tarefa nobre assegurar a vida dos homens, apoiar a vida justa dos homens e a organização das sociedades sobre a liberdade humana. Demonstrar que a democracia americana resolve os seus problemas com o consentimento de todos, dentro da justiça e da igualdade: "A nossa democracia deve provar que tão capaz ela é de lutar pacientemente mas com clarividência e paixão em favor da liberdade humana na Ásia, no Próximo Oriente, na África e na América do Sul como de fazer frente à superioridade atualmente detida pelos soviéticos no domínio dos satélites artificiais." O atual discurso americano presidencial, na Assembleia Geral da ONU, dificilmente teve qualquer lembrança desta parte da crónica da função que exerce. E também, ao contrário da União Europeia, onde está a raiz do ocidentalismo, continua a ignorar que cada Estado tem o dever de respeitar a cooperação global. A contribuição deste discurso começa por enfraquecer mais profundamente a esperançosa utopia da fundação da ONU, e limita a pregação da esperança que apoiaram no sucessivo convite aos sucessivos papas, Paulo VI, João Paulo II por duas vezes, o papa emérito, e, por último, o papa Francisco, que os cardeais foram buscar ao fim do mundo. Este, numa das suas famosas entrevistas, contou que, bispo em Buenos Aires, uma mãe, com uma criança ao colo, lhe pediu ajuda porque o filho estava a morrer de fome. Ele respondeu-lhe que era sábado e que segunda-feira a socorreria. A mulher respondeu-lhe "mas o meu filho está a morrer de fome neste sábado, não é na segunda-feira". Ele socorreu-a imediatamente e passou a pregar que "em nenhum sábado se pode ficar à espera de segunda-feira". São excessivamente numerosos os responsáveis dirigentes que não entenderam o conceito.

Adriano Moreira

O Brasil e a Europa

Há anos, escrevi no Diário de Notícias um artigo que intitulei "O Brasil e a Europa", de que o ilustre José Carlos Gentili se ocupara nas academias de História e das Ciências de Lisboa, publicando depois um livro intitulado O Futuro da Europa Passa também pelo Brasil? Presidente de honra perpétuo da Academia de Letras de Brasília, o seu interesse pelo tema de que se ocupou em 2017 deve atualmente exigir uma atenção indispensável aos que se ocupam da situação atual, não apenas no próprio Atlântico, mas na conjuntura da América Latina - América de Jefferson. Lembra que este amigo do padre Correia da Serra "temia" que o seu futuro (da América Latina) fosse constituído de uma sucessão de despotismos militares, durante longo tempo. Para eles, a América Latina não tinha a tradição anglo-saxónica de liberdades, nem mesmo a concorrência de denominações religiosas que impediram o estabelecimento por parte do Estado de alguma Igreja, e que portanto trabalhou em prol da liberdade religiosa e, consequentemente, em nome da democracia. Infelizmente, o nosso tempo confirmou a opinião de Jefferson, e a anarquia que ali se verificou confirma que estava certo na opinião, sendo hoje plural a convicção da ingovernabilidade injusta das populações submetidas a poderes que não seguem a justiça natural.

Adriano Moreira

O exercício internacional do racismo

A independência dos EUA foi decisão de homens que, como diria claramente Thomas Jefferson, assumam o direito à revolta sem assumirem serem eles próprios a longa mão europeia lançada sobre os vencidos, e extintos, aborígenes. De facto, a limpeza do território foi um exercício da diferença de raças, depois assente na importação de negros escravos, cujo estatuto mudaria pela guerra entre norte e sul, sublinhado pelo assassínio do vencedor Lincoln. Referindo-se por então à Europa na terceira pessoa, era como que pressionado pelo separatismo o Ocidente, até que as duas guerras mundiais exigiram as alianças. Daqui em diante, até ao anticolonialismo do século XX, o modelo colonial foi intitulado por Rudyard Kipling como sendo o "fardo do homem branco".

Adriano Moreira

Nossa Senhora das Perguntas

Num ano em que o mar é um espaço subitamente contestado, estando significativamente agravada a relação entre os EUA e a China, havendo uma declaração militar daquele Estado prevendo que dentro de 15 anos será a guerra que surgirá entre as duas potências, temos esperança de que o eleitorado americano faça alterar o panorama, conseguindo tornar a recuperar ponderação em quem governa, tendo presente que o desastre é global, se a batalha contra o ataque pelo covid-19 não for vencedora. Mas sendo evidente que o mar exibe uma mutação de ambições, e também de criminalidade inquietante, o interesse português é cuidar de conseguir ter à disposição decisores e meios de que possa dispor, sem esquecer a vontade marítima de sempre. Numa data em que o problema da relação europeia com as religiões desta vez tem como causa frequente a falta de recursos financeiros para manter os templos, uma situação, por exemplo, visível em França, acontece que entre nós se afirma um movimento no sentido de fortalecer o culto da Nossa Senhora da Nazaré, uma das mais antigas tradições marianas. Trata-se de a Nossa Senhora ter salvo o guerreiro D. Fuas Roupinho, no seu promontório da Nazaré, impedindo que o cavalo que montava se precipitasse no mar. A sua fé, a aparição de Nossa Senhora da Nazaré, e o milagre inspiram não esquecer o martírio que foi, numa data em que não era pacífico o trabalho ao longo da costa, tendo por causa os ataques frequentes, sendo basilar que não há futuro definível sem consciência do passado.

Adriano Moreira

O passado cultural

Depois de a peste negra (1347-1352), vinda de países do Oriente, se ter propagado pela Europa, sem que a opinião dos povos conseguisse concluir se estava a ser castigado por "influências astrais ou resultado das nossas iniquidades" (Boccace, 1348), este continente que foi chamado "pequeno, aberto, bem situado", não obstante as divergências, por vezes armadas, internas, ultrapassou essas dificuldades e assumiu a ocidentalização do globo com a aventura das grandes descobertas iniciadas pelo talento do príncipe Henrique, o Navegador, que viveu entre 1394-1460.