Adriano Moreira

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O aviso do pântano

No fim da Guerra Mundial de 1939-1945, a vontade de construir um futuro que impedisse de novo uma catástrofe teve responsáveis do nível de Marshall, cujo espírito (1947) de ajuda económica aos Estados europeus abrangesse vencedores e vencidos, e estadistas que admirei, como Robert Schuman, Konrad Adenauer e Alcide De Gasperi, inspiraram o Tratado de Roma (25 de março de 1957), pondo a unidade em vez da retaliação, ao mesmo tempo que a descolonização sagrou homens como Mahatma Gandhi e Mandela que foram apóstolos e mártires do pacifismo da evolução que, segundo o famoso Teilhard de Chardin, em L'Avenir de l'Homme (1959), estávamos perante "unificação, tecnificação, racionalização crescente da Terra Humana", que implicava uma chamada "socialização do mundo, que exigiria uma conduta associada, designadamente para a explosão demográfica, a fome, a domesticação da energia atómica, a paz, realidades indivisíveis para todos os povos.

Adriano Moreira

Prevenção do futuro

As surpreendentes consequências dos atentados, em 26 de agosto no Aeroporto de Kabul, incluindo o desastre consequente da decisão americana, que além de ser surpreendente quanto à formal anunciada decisão da Presidência, acentuaram a histórica dificuldade de evitar o pior para todos os estrangeiros que se aventuraram a ter intervenção sobre o território. Passados vinte anos em que os talibans assumiram lutar "contra o governo de Kabul apoiado pelos ocidentais", o ataque reivindicado pelo Estado Islâmico (EI), crescem as inquietações com a intervenção de radicais que façam ressurgir no país "um santuário mundial de terrorismo".

Adriano Moreira

A decisão americana

O passivo da decisão americana, decidindo retirar a intervenção militar no Afeganistão, desencadeou uma inesperada insegurança da articulação dos ocidentais, derivada das consequências impostas em relação aos interesses gerais. Tratando-se de uma considerada, num passado próximo, grande potência, parece hoje uma União dividida entre a liderança do recente vencido presidente, e a liderança do sucessor, que não viu a sua decisão respeitada pelos valores que assume, mas que as circunstâncias articularam com uma problemática inquietante para os aliados ocidentais, e para agravamento da situação mundial.

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Mandela

O que está a acontecer na África do Sul tem entre a violação de valores, que foram ensinados, como parte do património do Estado definido por Mandela, e terminou com a histórica crueldade do racismo, o regresso frequente de críticas de setores de grande importância internacional. Não será fácil para os que seguiram o sofrimento do povo, que ele partilhou em anos de perda da liberdade, e contacto possível com os factos da informação do país e do mundo, que lhe não eram consentidos, e que morreu, liberto e eleito presidente do Estado, convicto de ter conseguido que todos os naturais se considerassem cidadãos iguais. A causa próxima foi a prisão do ex-presidente Jacob Zuma, com o efeito que a imprensa descreveu com estas palavras: "Pudemos ver que o Estado, na maioria dos países, é uma concha vazia." A imprensa converge em afirmar que a vaga de pilhagens sofridas pela África do Sul, em meados de julho, fazem imaginar que o país está em anos sem retorno.

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O mundo das questões

É possível que em qualquer período da história conhecida a guerra não tenha sido a resposta à contrariedade dos interesses. A este respeito Arnold Toynbee analisou com profundidade a questão nos tempos modernos concluindo que é uma questão permanente, de regra sem resultados valiosos, em vista dos custos, designadamente humanos. A experiência ocidental, sobretudo a da II Guerra Mundial (1939-1945) pareceu marcar uma evolução de valores globais que impedissem a repetição da tragédia de sempre, sendo que neste acontecimento incluiu o poder atómico. O presidente Kennedy disse que "as nossas fronteiras hoje estão em todos os continentes", parecendo que assumia um conceito de Benjamin Franklin: "Onde está a liberdade está a minha pátria."

Adriano Moreira

Entre a utopia e o desastre

São numerosos os exemplos de as guerras chegarem a uma paz cobertas por uma utopia de novo futuro, o que se verificou no fim de cada uma das Guerras Mundiais que feriram o mundialismo ocidental. Por vezes consentindo que o pessimismo lúcido afaste as esperanças das propostas. Quando da paz da guerra de 1914-1918, circulou o comentário atribuído a um general alemão segundo o qual o que se assinava era uma suspensão provisória dos combates. A paz da guerra mundial de 1939-1945 determinou uma esperança de futuro que possibilitou a criação da ONU, a confiança nas Declarações dos Direitos Humanos e o programa notável da UNESCO, embora a adesão ao anticolonialismo tenha frequentemente provocado combates militares que causaram custos humanos severos.

Adriano Moreira

A espada de Jerusalém

Quando o Hamas decidiu, tal como a imprensa sublinha, "ser com dureza e ser o primeiro a desencadear o conflito, foi decidido provavelmente a conseguir pelas armas o que, longos anos passados, não conseguiu pela legitimidade das urnas. No que respeita à capacidade e legitimidade da ONU, o que imediatamente retoma atualidade são as palavras, justas, oportunas, responsáveis, do Secretário-Geral António Guterres, consciente da crise que a ordem internacional revela, perdendo a capacidade de impor a regular intervenção do Conselho de Segurança, e sofrendo a crescente anulação dos princípios do "mundo único", e da terra "casa comum dos homens".

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Conferência europeia

Foi anunciado oportunamente que haveria uma conferência sobre o futuro da Europa, talvez uma "nova esperança democrática", a realizar em 2021/2022, segundo anunciou e analisou o Rameses de 2021. Iniciou-se no Porto, com a intervenção, na Cimeira Social do Conselho Europeu, do presidente nosso primeiro-ministro. Os temas anunciados foram ligados ao de "governar com o povo", ser "um conselho e não uma refundação", imposta pela crise em que todos se encontram, causada pela covid-19.

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Repor o direito internacional

Para compreender a situação atual da ONU, cujas dificuldades no domínio do seu estatuto, principalmente cumprir a definição jurídica para a manutenção da paz, tudo indispensável para o desenvolvimento, parece de utilidade ter presente que se trata de um texto dos vencedores da guerra de 1939-1945, tal como aconteceu com o Estatuto da Sociedade das Nações, o equivalente da Guerra de 1914-1918, e também obra de vencedores, ou, para simplificar, de ocidentais e respetivas culturas. Uma novidade habitual, portanto, para o chamado "resto do mundo" plural de formas jurídicas impostas, quer tivessem a designação formal de colónia, que nos factos não ganhava superioridade suficiente para a liberdade política, quer recebendo a designação de protetorado, mandato, fideicomisso. A origem do texto não impediu que a resposta, aos colonizadores ocidentais, seria a de os considerar "os maiores agressores dos tempos modernos".

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O desafio da circunstância

O processo da União Europeia, conseguido depois da última guerra mundial, diz respeito a uma parcela do globo, com nome cuja origem não corresponde a uma história demonstrada, e também o objetivo de organizar para ele um modelo jurídico das interdependências e unidade, tinha a origem mais determinante na cultura. Lembra sempre a expressão de Camões "Portugal, cabeça da Europa toda". As guerras interiores foram numerosas, pelo que outros povos mais vezes se reconhecem como ocidentais, e outros se dividem por identificadas parcelas: a diversidade dos americanos do Norte e do Sul, com raízes europeias visíveis, e europeus do Leste e do Ocidente, dos nórdicos e dos mediterrânicos, dos ingleses e dos continentais.

Adriano Moreira

O sermão

A viagem do Papa Francisco à "Terra de Abraão", rezando a Missa ao pequeno grupo de cristãos que sobrevivem à brutalidade do Daesh, não se limitou a mais uma vez surpreender o mundo com a visita que incluiu o agradecimento do Iraque, mas também gravar nas memórias do mundo em crise pela pandemia que não distingue nem etnias, nem culturas, nem poderes políticos, a sua não esquecível lembrança: "vós sois todos irmãos", como é o sentido do "Padre Nosso", isto é, Pai de "todos", e não apenas "Meu Pai".