Adolfo Mesquita Nunes

Adolfo Mesquita Nunes

SyRI

Nos Países Baixos, o Estado recorre a um algoritmo para detetar os cidadãos mais propensos a cometer fraudes. O algoritmo chama-se SyRI (System Risk Indication) e, através dele, o Estado analisa dados sobre rendimentos, pensões, seguros, impostos, multas, dívidas ou subsídios de desemprego dos contribuintes e identifica os que têm mais probabilidades de cometer fraudes perante a Administração. Soube disto agora, que li que um tribunal decidiu proibir a utilização do SyRI (não confundir com a Siri).

Adolfo Mesquita Nunes

Como é que os vamos encontrar, se estiverem calados?

Não é fácil lidar com as declarações de André Ventura. Não se trata de falta de adjetivos para as descrever ou qualificar, nem sequer de ausência de repúdio ou desconforto ou descontentamento. Trata-se antes de algo mais complexo, de algo que convoca uma análise política, estratégica e maquiavélica, e que acaba por se resumir a esta questão: qual é a melhor forma de estas declarações, de estas posições, que considero inadmissíveis, serem trucidadas pela História, acabarem irrelevantes, inconsequentes?

Adolfo Mesquita Nunes

Cláudia Simões

Uma mulher foi agredida por um polícia. Sabemos isto, porque é inquestionável. Não sabemos ainda tudo, mas sabemos que uma mulher foi agredida por um polícia. Isto deveria ser o bastante para nos fazer parar para pensar: o que pode levar um polícia a agredir desta forma uma mulher, o que é que pode justificar que tenha sido necessária esta agressão, que especialíssima circunstância podemos imaginar para de alguma forma legitimar algo assim? Mesmo dando benefícios da dúvida, mesmo querendo saber mais, não é possível ignorar a agressão, aquela fotografia de Cláudia Simões, aquela cara desfigurada. Devia ser esse o ponto de partida para a nossa indignação, para a busca de respostas: aquela fotografia de uma mulher agredida. Para muitos, no entanto, esse ponto de partida não existiu, porque um ser humano, uma mulher, não é mais uma pessoa mas uma espécie de objeto num debate, numa polarização, num campeonato político. É como se Cláudia não existisse, não fosse relevante, e só fosse relevante o debate da existência ou não de racismo em Portugal e, por isso, o seu caso, a sua agressão, só pudesse ser vista a essa luz, como se reconhecer a agressão, que foi evidente, de alguma forma correspondesse a reconhecer que somos um país racista ou que a PSP é racista e que portanto há que duvidar, há que de alguma forma desculpar, para que essa tese não vingue. Aquela mulher, Cláudia, merece que se perceba o que se passou pelo que ela é: uma pessoa. Num Estado de direito, nenhuma pessoa pode ser sujeita a agressões injustificadas, sem qualquer legitimação. Nenhuma. Tenha que etnia tiver, tenha o passado que tiver. Está expresso na Constituição, logo no seu primeiro artigo, o princípio da dignidade da pessoa, que é princípio estruturante da matriz judaico-cristã. Querer olhar para esta agressão com propósitos políticos, sobretudo na tentativa de esvaziar debates sobre racismo, ou para não dar razão a não sei quem, é um triste sinal dos tempos e um valente chega para lá nesse estruturante princípio, porque é tornar a pessoa irrelevante. É dizer-lhe: não nos interessa o teu caso porque ele pode dar azo a conclusões com que não concordamos, não nos interessa o teu drama porque não podemos concordar com a ideia de que todo o país é racista e toda a polícia é racista. Eu sei que há quem veja racismo em tudo, ou que tenha uma absurda aversão às forças de segurança, que é outra forma de dizer a uma pessoa que ela só nos interessa se o seu caso puder reforçar uma tese. Mas a minha consciência está-se nas tintas para essas pessoas quando vejo uma mulher agredida sem que eu perceba como. Recusar-me a olhar para ela, querer saber dela, porque há uma narrativa a formar-se, ou porque discorde da ideia de que somos um país racista, ou porque acredito profundamente no papel e função e louvor da PSP, seria, lamento, virar as costas ao mais elementar dos princípios: esse mesmo, repito, o da dignidade da pessoa.Advogado

Exclusivo

Adolfo Mesquita Nunes

Entre identidade e liberdade, escolho a liberdade

Pode a frase sobre o Chega ser lateral, um apontamento à margem, uma resposta a uma pergunta repetida mil vezes, que a frase é puxada para título. Não sei de onde vem essa ânsia dos media em fazer do tema um centro de gravidade - e logo a seguir aparece quem se sente vítima, como se o autor da frase dormisse e acordasse a pensar no assunto. Não aconteceu comigo, mas é o que vejo em entrevistas, nas perguntas insistentes para garantir que o assunto vem à baila. E se calha a pessoa, alerta, esquivar-se, logo o gesto tem leitura imediata, dando azo a nova indignação - o tal centro de gravidade.

Adolfo Mesquita Nunes

Mil e uma noites

A mera possibilidade de alguém se sentir ofendido por um discurso, um gesto, um argumento, e de, a partir desse sentimento, que é tão pessoal, lançar uma acusação ou campanha de desqualificação contra quem o proferiu ou ensaiou, constitui hoje um dos mais fortes limites e condicionantes do debate público. Não se trata de desconfiar de novas fronteiras para a linguagem, porque esse movimento sempre existiu e é indissociável da natureza humana. Nem se trata de ignorar o poder da palavra, a força que dela emana e que pode carregar ódio e amor que se transformam em gestos e lanças. E muito menos se trata de só ver a liberdade de expressão de quem primeiro opina, como se essa não valesse tanto quanto a liberdade de quem responde.

Adolfo Mesquita Nunes

E sai um programa

A apresentação de propostas políticas, nomeadamente de propostas programáticas, como no caso de um programa eleitoral, é cada vez mais um momento sem interesse noticioso. Ou bem que há uma proposta revolucionária, polémica, capaz de abanar todo o sistema, e então alimenta noticiários e discussões, de tal forma que consome todo o espaço do programa e se confunde com ele; ou então o programa está condenado a ser descartado dos destaques noticiosos, mesmo que de alguma forma ele apresente visões distintas de país e de modelos de crescimento.