Vigilante diz que ouviu gritos de Ihor na sala de isolamento

A testemunha disse que o barulho, com várias vozes à mistura, durou cerca de 10 minutos.

Uma vigilante das instalações do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) no aeroporto de Lisboa testemunhou esta quinta-feira que ouviu gritos do cidadão ucraniano Ihor Homeniuk quando este esteve fechado com inspetores do SEF numa sala daquele serviço.

"Ouvi vozes e gritos", declarou a testemunha Ana Sofia Lobo durante a terceira sessão de julgamento em que três inspetores do SEF estão acusados do homicídio qualificado do ucraniano Ihor Homeniuk, que morreu a 12 de março passado, após se ter recusado na véspera a regressar ao seu país de origem, tendo permanecido à guarda do serviço de segurança.

Segundo a vigilante, que esteve no turno da noite e saiu já de manhã, relatou que se apercebeu que Ihor Homeniuk estava "agitado" e que, de início, mostrou alguma relutância em entregar na receção alguns dos seus pertences pessoais, como o telemóvel que trazia consigo.

Ana Sofia Lobo que chegou a levar um copo de água para ser entregue a Ihor quando este foi isolado numa sala sem mobílias e com apenas um colchão, admitiu que, durante a madrugada, chegou a levar uma tesoura e a abrir um armário com lençóis descartáveis, material que, em dada altura, terá servido para amarrar as mãos do passageiro ucraniano que, segundo disse, estava "agitado e a dar murros" na parede, bem como a atirar-se contra as paredes da sala.

A testemunha alegou inicialmente não ter conhecimento que mais tarde Ihor Homeniuk foi atado com fita adesiva, mas perante a insistência do juiz presidente, Rui Coelho, e confrontada com imagens de videovigilância, reconheceu ter visto um seu colega sair da sala com fita adesiva e tesoura nas mãos. Admitiu também que chegou a ser preciso levar fita adesiva suplementar para a sala onde se encontrava o ucraniano.

Quanto aos gritos que ouviu já de manhã na sala onde Ihor Homeniuk estava isolado, presumivelmente atado de pés e mãos e na presença de inspetores do SEF, a testemunha disse que o barulho, com várias vozes à mistura, durou cerca de 10 minutos, tendo ficado com a ideia de que estavam a tentar acalmar o cidadão ucraniano, que antes, e durante a madrugada, teve que ser medicado devido à sua agitação e confusão, situação que terá sido agravada pelo facto de não falar outras línguas, como o inglês.

A testemunha recordou ainda que a aconselharam a não entrar na sala onde estava Ihor Homeniuk porque este estava agitado e isso podia causar problemas à sua integridade física.

Ana Sofia Lobo não soube explicar por que razão, em determinada altura, lhe pediram que levasse uma revista que estava na receção até à sala onde Ihor Homeniuk estava em isolamento sob vigilância, situação que causou estranheza e motivou insistência do juiz presidente.

A testemunha também teve dificuldades em explicar por que razão de manhã só saiu uma hora depois de terminar o seu turno normal, tendo tentado justificar com a chegada de mais passageiros.

Entre outras declarações, a testemunha confirmou ainda que entre as 04:00 e as 08:00 um seu colega vigilante ficou sempre à porta da sala onde Ihor estava isolado no interior, onde existia apenas um colchão no meio daquele espaço, depois de outros móveis terem sido retirados do local.

Na véspera, também em julgamento, a testemunha Filipe Cardoso, inspetor do SEF, revelou ter encontrado o cidadão ucraniano Ihor Homemniuk "manietado de pés e mãos com fita adesiva" naquela sala de instalação temporária no aeroporto de Lisboa.

Segundo a testemunha, Ihor Homeniuk tinha as mãos manietadas com fita adesiva à frente do corpo e estava deitado num colchão que tinha sido colocado no meio de uma sala, tendo confrontado o vigilante com o que se tinha passado, tanto mais que nunca vira um passageiro naquela situação: atado de pés e mãos com fita adesiva.

O vigilante - adiantou a testemunha - explicou que Ihor Homeniuk tinha passado a noite "inquieto e algo agressivo", sem precisar quem o tinha atado, tendo Filipe Cardoso libertado o ucraniano das fitas adesivas, mas, perante as advertências sobre o comportamento do passageiro, optou por lhe prender as mãos apenas com lençóis, de "forma não apertada" e de modo a que este não reagisse de maneira violenta.

Apesar de Filipe Cardoso desta descrição, outra testemunha que entrou de manhã ao serviço disse na quarta-feira, em julgamento, ter visto novamente Ihor Homeniuk atado com fitas adesivas.

Uma outra testemunha declarou ter reparado, a dada altura, que Ihor Homeniuk tinha um pequeno ferimento na face com sangue.

Na terça-feira, em julgamento, os três inspetores do SEF implicados no alegado homicídio negaram a acusação e disseram que se limitaram a manietar um passageiro "agitado, violento e autodestrutivo", que ficou mais calmo quando saíram da sala.

Os acusados da morte de Ihor Homeniuk estão em prisão domiciliária desde a sua detenção em 30 de março de 2020, razão pela qual este é considerado um processo urgente que prossegue mesmo em tempos de pandemia de covid-19.

A viúva de Ihor Homeniuk, Oksana Homeniuk, constituiu-se assistente (colaboradora da acusação) no processo em julgamento.

Os arguidos estão acusados de terem morto à pancada o cidadão ucraniano, numa situação que configura homicídio qualificado, crime punível com pena de prisão até 25 anos de prisão.

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