Viajaram quase três mil quilómetros pela sua vocação. Alguns não voltaram

Em 20 anos, mais de dois mil médicos portugueses fizeram o curso na República Checa. Foram à procura de um país que os deixasse seguir o sonho e agora são doutores por cá

Quando perceberam que não conseguiam ter média para entrar em Medicina ainda tentaram lutar contra a vocação. Escolheram outros cursos, mas como o sonho teimava em manter-se, acabaram por ver na República Checa a oportunidade de o concretizar. Os números apontam para cerca de 400 portugueses a estudar em simultâneo na República Checa - dois mil em duas décadas. Este é o segundo país estrangeiro escolhido por quem quer tirar Medicina e não tem vaga em Portugal, atrás de Espanha. Medicina Dentária, Agronomia e Radiologia ou Gestão foram algumas das opções antes do destino final.

Mas a chegada não é fácil: "O pior foi chegar lá e tudo parecer sujo, frio, a língua ser muito diferente e só pensava o que é que estou aqui a fazer. Mas nunca pensei desistir." Depois do choque do primeiro impacto, João Gago começou a aproveitar o tempo em Pilsen. Ao ponto de agora "sentir saudades do nosso dia-a-dia lá". Foram seis anos - entre 2006 e 2012 - de um curso falado integralmente em inglês e estavam todos focados no objetivo: acabar a formação e voltar a Portugal para a especialidade.

"Soube dessa possibilidade através de amigos que já lá estavam", recorda Francisco Pavão. O jovem do Porto ainda frequentou Dentária, mas nunca pôs em causa estudar Medicina. "Ponderei com a minha família a possibilidade de ir para fora e o investimento que era estudar na República Checa." É que cada ano custa em média 10 mil euros.

Namoradas e a barreira da língua

O mais difícil na República Checa é a língua. O único especialista no grupo - os antigos colegas reuniram-se há uma semana na Embaixada da República Checa por ocasião da visita da vice-ministra da Saúde a Portugal - é Ricardo Silva. O jovem até chegou a ponderar fazer lá a especialidade, mas acabou por regressar porque as condições económicas eram menos atrativas do que em Portugal.

Aliás, esta é uma queixa comum a todos os estudantes. "Entre as razões por que poucos estudantes estrangeiros ficam lá não é só pela língua mas porque financeiramente não é muito atrativo", refere Francisco Pavão.

Até porque a língua não foi problema para Ricardo. "Gosto de aprender línguas e como tive lá uma namorada aprendi naturalmente." Agora que acabou o curso, Ricardo está a tirar a especialidade em Medicina Geral e Familiar, no Centro de Saúde de Mértola.

Já João Fortunato acabou por escolher o amor e a República Checa. A namorada Míša (lê-se Misha) até o tentou convencer a virem os dois para Portugal. "Na sua primeira visita ficou encantada com o clima, as praias, o mar e o nosso povo de sangue quente", conta o internista do quarto ano. A tirar a especialidade em cuidados intensivos metabólicos, o jovem de 28 anos, natural de "perto de Pinhal Novo", garante que não ficou só pela namorada - já que teria de esperar um ano para que ela terminasse o curso - mas também pelas condições de trabalho.

"O horário aqui é das 07.00 às 15.30 e, em média, sou responsável por 3-4 doentes intensivos por dia. Faço cerca de 5 bancos de 24 horas por mês onde sou responsável por cerca de 20 doentes intensivos. As urgências funcionam de maneira diferente. A maior parte das pessoas com patologias menos graves recorre ao médico de família, reservando o hospital para último recurso", explica.

A readaptação ao português

Mas se agora a vida corre bem em Hradec Králové, no Nordeste do país, João Fortunato não esquece os difíceis "seis primeiros meses". "Quando cheguei tinha apenas 17 anos", depois do secundário feito "numa pequena vila na margem sul, vivia numa aldeia com cerca de 500 habitantes. De um dia para o outro estava em Pilsen, uma cidade muito maior, num país onde a maior parte das pessoas ainda não fala inglês. Mas o mais difícil foi mesmo a distância da família e do seu conforto."

À procura desse conforto que deixaram por cá, os antigos estudantes acabaram por fazer amizade com "algumas famílias e uma vizinha que era como uma avó para nós: a senhora Tomanova. Vai ficar para sempre na nossa memória", recorda Francisco Pavão, que agora está no terceiro ano da especialidade de Saúde Pública.

No regresso para fazer o ano comum e a especialidade todos enfrentaram dois obstáculos. O primeiro e logo ultrapassado foi o olhar desconfiado dos colegas. "À primeira vista as pessoas ficavam surpresas, mas depois iam percebendo a nossa capacidade de trabalho e o nosso conhecimento e depressa passou aquela rivalidade do início", aponta Pedro Botelho. Aos 31 anos está a fazer a especialidade de Medicina desportiva, mas vai mudar para cirurgia geral.

Mais demorada foi a adaptação aos termos médicos. "Em inglês uma dor no ombro é isso, em Portugal é mialgia. Nos primeiros meses tivemos de nos adaptar a isso." Pedro Botelho sublinha, no entanto, que ultrapassados esses pequenos entraves deixa de haver diferenças entre quem faz o curso em Portugal ou lá fora. Da República Checa fica o elogio geográfico, "muito facilmente podemos viajar para outros países", aponta Ricardo Silva.

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