Ver os mergulhos dos cachalotes entre o Pico e o Faial com dois biólogos a servir de guias

Gisela Dionísio e José Nuno Pereira são ambos doutorados e continuam a fazer investigação no mar dos Açores. A sua Naturalist é uma startup que destina ao trabalho científico 10% das receitas obtidas com os turistas que se deixaram fascinar pela observação das baleias.

"Está à nossa esquerda, olhem. É um cachalote. Uma fêmea com cerca de 9 a 10 metros, são elas e em sistema matriarcal em maioria nas expedições nos mares dos Açores. Os machos geralmente mais a Norte, vêm reproduzir-se aqui com estes grupos de fêmeas. Atenção, atenção, vai mergulhar. Olhem, a barbatana caudal." Gisela Dionísio parece tão entusiasmada como os turistas a bordo do barco semirrígido da Naturalist Science & Tourism.

Em português e em inglês, passando de uma língua para a outra de forma natural, a bióloga vai explicando o que estamos a ver. Sem automatismos. Umas vezes explica mais em português, outras dá um pormenor extra em inglês. "Deverá estar lá em baixo uns 30 a 45 minutos. Mas os machos podem fazer mergulhos até uma hora e meia", esclarece, agora que alcançámos a costa sul da ilha do Pico e estamos um pouco mais protegidos do vento. Mesmo assim, as ondas fazem-se sentir, apesar de o céu estar semilimpo. Nuvens formam uma tiara branca na montanha do Pico, com mais de 2300 metros e o ponto mais alto de Portugal.

Golfinhos-de-risso, golfinhos-comuns, golfinhos-pintados e, claro, cachalotes. As duas horas no mar foram animadas em termos de observação de mamíferos marinhos. "O vigia em terra alertou-nos também para uma baleia-de-barbas, mas estava muito longe. Seria provavelmente uma sardinheira. A baleia-azul passa por aqui, mas não nesta altura. Passa entre março e início de junho", diz Gisela Dionísio. Acrescenta que os vigias que trabalham com as empresas de observação "começaram por ser antigos baleeiros, como o senhor Antero, mas foram passando o saber e hoje há gente mais jovem a fazer esse trabalho".

Ao leme está José Nuno Pereira, também biólogo. O barco semirrígido, com 8,5 metros, conta com um potente motor de 300 cavalos. É importante para vencer estas águas açorianas, que mesmo no verão não dão tréguas aos navegadores. Vinda da Horta, no Faial, a embarcação da Naturalist apanhou alguns passageiros na Madalena, no Pico, o meu caso, e quando iniciou o caminho para a observação teve de enfrentar a ondulação forte do canal que separa as ilhas.

O Atlântico é ali obrigado a apertar-se em pouco mais de oito quilómetros. O açoriano Vitorino Nemésio foi ali buscar a inspiração para o célebre romance Mau Tempo no Canal, e sentimos esse tempo tempestuoso quando contornamos os ilhéus Deitado e de Pé em frente à Madalena.

Várias vezes José Nuno Pereira complementa as explicações da colega bióloga. Também é evidente nele o entusiasmo por aquilo que faz. E percebo que está em contacto permanente via rádio com o "senhor Antero". Vimos mais dois cachalotes, "juvenis", esclarece Gisela Dionísio. E explica que "os cachalotes são residentes sazonais nos Açores. As fêmeas estão aqui, mas os machos deslocam-se até latitudes mais a norte, como Islândia e Noruega, e regressam para o acasalamento. Entre março e agosto é altura da reprodução. As crias nascem 15 meses depois. Por isso vimos alguns juvenis".

Os jovens cachalotes fazem mergulhos curtos. As mães estão a ensinar-lhes a capturar os polvos e lulas de profundidade. "São animais que dependem dos cefalópodes de profundidade", nota a bióloga. E podem ter de fazer muitos mergulhos para se alimentarem. "Aqui mergulham entre 600 e mil metros. E nem sempre têm sucesso quando descem. Têm de fazer muitas tentativas para ter êxito na captura. O ambiente lá em baixo é inóspito. Um macho se estiver a alimentar-se pode estar à superfície apenas uns minutos e logo voltar a mergulhar. A duração dos mergulhos varia muito. Um macho, que terá entre 15 e 18 metros, pode permanecer hora e meia lá em baixo. Uma fêmea, com 8 a 12 metros, ficará 30 a 45 minutos."

Toda esta informação tem vindo a ser acumulada ao longo dos anos por biólogos como Gisela Dionísio e José Nuno Pereira. Hoje sabe-se muito mais sobre os cachalotes do que há dois séculos, quando Herman Melville escreveu Moby Dick. A caça à baleia acabou em 1984 nos Açores, quando o óleo retirado da cabeça dos cachalotes já tinha perdido o valor comercial, mas a tradição baleeira nos Açores era tão antiga que o escritor americano, na sua saga do capitão Ahab a perseguir a baleia-branca (na realidade, um cachalote albino), pôs o arpoador a ser da ilha do Corvo, a mais pequena das nove deste arquipélago descoberto por navegadores portugueses no século XV.

"Os açorianos são um povo muito resiliente. Estamos no meio do Atlântico. Quando se deixou de caçar baleias, os açorianos já sabiam que a baleia não valia nada morta, só valia viva. Não foi fácil, mas fez-se a transição. Os vigias em terra com quem trabalhamos, os mais velhos, são um exemplo, com os binóculos poderosos, desta transição da caça à baleia para a observação", conta Gisela Dionísio, lisboeta que há seis anos escolheu os Açores para viver, entre trabalho e estudo. Estudo, sim, porque os biólogos, doutorados, estão a fazer pós-doc, o que significa investigar e redigir artigos científicos.

"A Naturalist é uma startup. Depois de terminarmos o doutoramento, e conhecendo bem o sistema científico em Portugal e as dificuldades de acesso a fundos para investigação, a melhor ideia que tivemos para continuar a responder às muitas perguntas que temos foi vir para os Açores, onde surgiu a hipótese de acesso a uma licença, que adquirimos. Assim, a Naturalist é uma startup e 10% das receitas vai para a ONG Associação dos Naturalistas do Atlântico, pelo que são os turistas a financiar a nossa investigação", explica Gisela Dionísio, investigadora do MARE da Universidade de Lisboa, cuja rede a Naturalist integra. José Nuno Pereira está ligado à Universidade dos Açores e há 15 anos que se fixou nas ilhas.

Antes de acelerar de volta à Madalena, e depois rumo à Horta, o semirrígido desacelera um pouco junto ao local onde o último cachalote mergulhou. Para recolher a pegada biológica do mamífero. "Tentamos recolher ADN do animal de duas formas: através de uma técnica nova, que é através de uma amostra de água, que pode ter ou não ADN; ou aguardar que venham à superfície pedaços de pele e depois fazer a sequenciação", explica Gisela Dionísio. Desde o início, deu para perceber que esta não era uma observação de baleias habitual.

leonidio.ferreira@dn.pt

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