Venda de flores triplica para dar resposta ao culto dos mortos

Montijo. No concelho onde nasce 70% da produção nacional de flores, a colheita da última semana disparou para mais de 1,5 milhões diária

Margaridas, crisântemos e gerberas, mas também rosas, cravos, coroas imperiais e gladíolos, transformavam ontem um simples armazém numa espécie de jardim onde se trabalhava a todo o gás para responder a uma tremenda procura de flores para o Dia dos Fiéis Defuntos que hoje se assinala.

"Na semana passada é que isto foi uma confusão, com a saída de camiões carregados de flores. Agora está de resto", desabafa ao DN, com o sentido do dever cumprido, Vítor Araújo, o gestor da Florineve, um das empresas produtoras do Montijo, onde nos últimos dias os 20 floricultores triplicaram a colheita de flores.

Neste concelho, que reclama o estatuto de capital portuguesa da flor, com mais de 200 hectares de plantações e mil postos de trabalho, a média diária indica que são colhidos meio milhão de pés em períodos normais do ano, mas esse valor dispara para mais de milhão e meio face à aproximação do dia de Finados. A tendência dos últimos anos indica que semanas antes da efeméride a venda de flores sofre uma estagnação, mas depois acelera exponencialmente.

"Já lá vai o tempo em que nesta data chegavam a Portugal camiões da Holanda carregados de flores. Nós conseguimos reduzir a importação em 20% e aumentar a exportação em 10%", revela Vítor Araújo, citando dados do Instituto Nacional de Estatística. Os mesmos que indicam "morar" no Montijo 70% da produção nacional de flores e outros 70% da produção de gerberas na Península Ibérica.

Num negócio de família rodeado de expositores de flores e de estufas, é sobre a orientação de Anabela Araújo que os derradeiros ramos saem das mãos de quatro funcionárias da empresa - que emprega cerca de cem pessoas - a uma velocidade tal, e com tanta perfeição, que até parece fácil juntar todos aqueles buquês nas imensas prateleiras. Mas só parece, porque o que circula em cima daquela mesa com mais de cinco metros também pode ser arte e engenho. Rapidamente se perde a conta aos vasos, baldes e alguidares, enquanto o som acelerado das tesouradas a uniformizar os pés das plantas se sobrepõe às vozes de quem não está habituado a estas andanças.

E quais são os exemplares mais procurados nesta altura? "A tendência tem mudado. Dantes as pessoas procuravam os crisântemos e as margaridas, que eram da época e, independentemente da altura do ano em que sejam plantadas, só dão flor nesta altura", explica Anabela, revelando que agora a clientela também escolhe cravos, gerberas, gladíolos e coroas imperiais, obrigando a uma maior "ginástica" na produção, mas a que a experiência de largos anos do casal permite responder à letra.

Daí que Vítor justifique o investimento realizado na plantação de flores logo três ou quatro meses antes do dia dos Fiéis Defuntos. Para que nada falhe à hora das encomendas. "Há já uma preparação do setor a pensar neste dia, com reforço de plantações, até porque às vezes a floração atrasa. Apesar de termos as estufas, também estamos sujeitos às condições climatéricas", diz o empresário, congratulando-se com a generosidade de São Pedro para este ano. "O tempo seco originou mais produção e flores de qualidade, garantindo que o consumidor final está a receber um produto bom", admite Vítor Araújo.

A reposição do feriado do Dia de Todos-os-Santos, que se celebra hoje, ajudou os empresários. É que o culto dos mortos assinala-se apenas amanhã, embora as famílias aproveitem o feriado para homenagearem os que já partiram, deslocando-se hoje aos cemitérios, que ficam habitualmente coloridos de flores. "Sem o feriado as pessoas antecipavam as homenagens para o fim de semana. Mas desta forma fica aumentado o leque de dias em que podem comprar flores, colando o fim de semana com segunda, terça e até quarta-feira", ressalva.

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