Vacinados já são 70%. Porta aberta a alívio de restrições

Mais de duas semanas antes do previsto, Portugal atingiu o objetivo de vacinar 70% da população. Retrato da liderança por detrás dos números que colocam o país no topo da vacinação.

Dezoito dias antes da data prevista, Portugal atingiu esta quarta-feira a meta dos 70% da população vacinada, uma percentagem que coloca o país na linha da frente da vacinação.

Considerando quer as pessoas que já completaram o esquema vacinal, mas também os que receberam uma dose da vacina, Portugal é o quinto país do mundo com uma maior fatia da população vacinada (com pelo menos uma dose), e o segundo da União Europeia (UE), atrás de Malta.

De acordo com os dados mais recentes do Our World in Data, da Universidade de Oxford, Malta é o país do mundo com uma taxa de vacinação mais alta, tendo já ultrapassado a barreira dos 92%. Seguem-se os Emirados Árabes Unidos, a Islândia, o Qatar, e depois Portugal. Comparando os dados mais recente (que ainda colocam o país com 66% de vacinados), Portugal está 12 pontos percentuais acima da média da vacinação na União Europeia.

Um desempenho que tem como principais protagonistas o Serviço Nacional de Saúde, e os enfermeiros que têm levado a cabo a tarefa de vacinar milhões de portugueses, mas também a task force que tem comandado todo o processo, liderada desde fevereiro pelo vice-almirante Henrique Gouveia e Melo. A decisão do Governo de colocar um militar à frente desta complexa missão não agradou (e ainda não agrada) a alguns setores, mas Gouveia e Melo tem conseguido conquistar confiança, não só pelo seu estilo próprio, mas também pela forma como organizou e tem executado todo o processo de vacinação, ao que se juntou uma capacidade de comunicação simples, frequente e eficaz.

Conforme o DN pôde testemunhar numa reportagem publicada em maio passado, o segredo do sucesso é muito mais que o estilo próprio do vice-almirante, ou a disciplina dos militares. A ligação com a ministra da Saúde e com a diretora-geral de Saúde é frequente e de confiança total em ambos os sentidos. As decisões tomadas são discutidas entre todos e fundamentadas ao mínimo detalhe.

Toda a equipa de camuflados, apenas cerca de três dezenas, que trabalha na task force, está enquadrada por três pilares definidos de início por Gouveia e Melo: liderança; planeamento e logística; comunicação.

De acordo com o organograma que foi possível consultar na altura, a estrutura organiza-se da seguinte forma: à cabeça o coordenador da task force; na sua dependência direta está o "Gabinete Coordenador da Vacinação; o "Núcleo de Comunicação e Estratégia"; e o "Núcleo de Normas e Simplificação" (este, com um médico, apoia e aconselha a Direção-Geral de Saúde na elaboração das diretivas e na simplificação das mensagens que se pretende passar à população). Do "Estado-Maior do Coordenador da Task Force" estão dependentes a "Divisão de Operações Correntes" (planeamentos a 15 dias); a "Divisão de Planeamento Estratégico" (planeamentos a mais de um mês); a "Divisão de Gestão e Informação Apoio" (que recebe todas as denúncias sobre alegadas ilegalidades ou irregularidades e trata dos processos para a Inspeção-Geral das Atividades de Saúde e Polícia Judiciária); e todos os militares oficiais de ligação com as principais entidades envolvidas no processo de vacinação: a Administração Regional de Saúde, os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (informática), o Serviço de Utilização Comum Hospitalar, a Direção-Geral de Saúde e a Sala de Situação (no Ministério da Saúde).

Na "sala de operações", chamemos-lhe assim, os militares estão habituados aos chamados "bullets" (balas) do vice-almirante, uns cartões onde anota objetivos, como "munições". As "palavras de ordem" foram surgindo e registadas: "salvar vidas", dando prioridade na vacinação aos mais velhos e não a grupos profissionais, foi o princípio. Criar resiliência, resistir a pressões, definir o critério etário como padrão, salvar a economia, responsabilizar estruturas, simplificar as normas, passar de três para duas fases, foram as primeiras "bullets". Com a variante Delta, vieram outras, como o encurtamento entre as duas doses e as novas modalidades de agendamento em função da evolução do processo (auto-agendamento; agendamento centralizado, casa aberta e casa aberta ordenada).

Num "núcleo duro" do planeamento estão juntos DGS e Infarmed, o contacto e a articulação com os centros de saúde, ordens dos médicos, enfermeiros e farmacêuticos é permanente.

No culminar de uma semana em que enfrentou negacionistas à porta do Centro de Vacinação de Odivelas e em que não se coibiu de vir a público afirmar, explicando a detalhe (com um esquema num quadro, como é seu hábito) porque tinha perdido a confiança numa empresa privada, a Unilabs - responsável pela logística da vacinação no Queimódromo no Porto - Gouveia e Melo celebrou os 70% de pessoas vacinadas com uma deslocação ao Centro de Vacinação do Samouco (Alcochete), respondendo pessoalmente a um apelo que tinha sido feito por um jovem de 16 anos daquela localidade.

João Marques tinha publicado um vídeo a apelar a todos os jovens que se vacinassem e a apoiar o vice-almirante no incidente dos negacionistas, tendo desafiado Gouveia e Melo a ir à sua localidade para conversarem um pouco. "Ele disse-me: Só tens 16 anos e já estás um grande homem", referiu ao JN João Marques, depois do encontro. O jovem disse ter "grande respeito e admiração" pelo vice-almirante e pelo seu trabalho. "Abordámos a situação de Odivelas, eu expliquei que aquilo não podia acontecer num país democrático e o vice-almirante concordou". "Ainda há jovens que têm boa mentalidade e que não está poluída, disse-me", contou o jovem.

Fazer "pontes sobre precipícios"

Numa publicação no Facebook, o ex-ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, sintetiza assim as razões que, no seu entender, levaram ao bom resultado da liderança de Gouveia e Melo neste processo: "Em primeiro lugar, o alinhamento escrupuloso com a missão e o sentido do interesse público. Assumiu a sua condição profissional, de militar, exibindo o seu uniforme de trabalho ignorando as malévolas críticas que lhe foram dirigidas. Procurou, sempre, demonstrar que o rigor e a disciplina são deveres inerentes à responsabilidade assumida. Teve o cuidado de ser pedagógico e esclarecedor usando sempre a palavra com prudência e sobriedade. Mesmo quando se referia a temas que não domina, de índole técnica ou científica, foi cauteloso e sério. Evitou que o instrumentalizassem em entrevistas de "cariz pessoal" recusando a idolatria daqueles que o projetavam para algo que, seguramente, não procura. Não enjeitou responsabilidades para terceiros nem escondeu falhas ou dificuldades. Nunca se escondeu atrás de terceiros, acima ou abaixo, na cadeia de responsabilidades. Correu o risco de ser um outsider numa administração burocratizada, pouco eficiente e, por vezes, muito pouco colaborante. Assumiu, com orgulho e motivação, o serviço ao país e às pessoas em concreto. Sem agendas ocultas, sem tirar vantagem da mediatização para procurar contrapartidas ou gerir ambições de outro tipo. Explicou que o serviço público comporta, de facto, o dever de respeito pelos conflitos de interesse sem nenhum tipo de ambiguidade".

Num artigo publicado na revista Gestão Hospitalar, no passado dia 6 de agosto, disponível no Facebook e Instagram, o vice-almirante descreveu todo este processo, prioridades, objetivos, resultados, e concluía o seguinte: "Temos (...) já a perceção de que aprendemos todos muito sobre o muito que nos rodeia e em que nunca tínhamos reparado, soubemos estabelecer pontes sobre precipícios até à data vistos como inultrapassáveis, ser solidários sem olhar a quem e mostrar resiliência para além do que imaginávamos ser capazes. Este é um processo que tem apelado ao nosso espírito de comunidade sem fronteiras, internas e externas, e, por essa razão no futuro seremos certamente uma comunidade mais capaz, mais unida, mais exigente, mas também mais generosa e com menos preconceitos se soubermos carregar esta experiência connosco e dela tirar e transmitir aprendizagens únicas às próximas gerações".

O cumprimento da meta dos 70%, inicialmente previsto para 5 de setembro, foi ontem anunciado pela ministra da Saúde. Em entrevista à SIC, Marta Temido destacou que o objetivo foi atingido "algumas semanas antes do previsto, como já se indiciava pelo relatório de vacinação semanal da Direção-Geral da Saúde" que, em dados reportados ao último domingo, já apontava para uma percentagem de 66% da população com o esquema vacinal completo. Afirmando que estes resultados são "fruto do esforço dos portugueses", a titular da Saúde referiu que estão a ser vacinadas nesta altura perto de 100 mil pessoas por dia.

A barreira dos 70% foi apresentada pelo primeiro-ministro António Costa, em julho, como o limiar para o arranque da segunda fase do desconfinamento, que estava então previsto para 5 de setembro. O cumprimento da meta poderá levar agora à antecipação das medidas previstas para esta segunda fase, uma decisão que será tomada num Conselho de Ministros extraordinário, marcado ontem para esta sexta-feira.

Em julho, António Costa já tinha admitido a antecipação, afirmando então que "se tivermos a felicidade de as datas indicadas para completar cada uma das fases da vacinação ser concluída mais cedo, as restrições também poderão ser levantadas mais cedo".

De acordo com o plano apresentado em julho pelo líder do Executivo, nesta segunda fase os serviços públicos passarão a funcionar sem marcação prévia, até agora obrigatória, e os transportes públicos deixam de ter limites de lotação. Os restaurantes, cafés e pastelarias terão um limite máximo de oito pessoas por grupo no interior e 15 pessoas por grupo em esplanadas. Espetáculos culturais, bem como casamentos e batizados, poderão realizar-se com 75% da lotação (neste momento, os espetáculos culturais estão limitados a 66% da lotação, e os casamentos e batizados a 50%). As discotecas continuam encerradas e mantém-se a proibição de festas e romarias populares.

Outra medida que está prevista para a segunda das "três fases de libertação", como as qualificou António Costa, é o fim da obrigação do uso de máscara ao ar livre. Mas esta alteração não vai avançar já, até porque o Conselho de Ministros não tem poderes para revogá-la, dado que se trata de uma medida aprovada pela Assembleia da República. A obrigatoriedade do uso de máscara na rua (quando não seja possível o distanciamento de dois metros) está em vigor até 12 de setembro e não é provável que venha a ser alterada antes, dado que o Parlamento só retoma os plenários a 15 de setembro.

A antecipação da segunda fase do desconfinamento deixa antever que o mesmo possa vir a acontecer com a terceira e última fase, que pressupõe a vacinação completa de 85% da população portuguesa, o nível a que, presumivelmente, será atingida a imunidade de grupo. Ainda que com um discurso de cautela, Marta Temido admitiu ontem esse cenário: "Tínhamos fixado a meta de 85% da vacinação para o final de setembro. Estamos a verificar que está a ser possível atingir metas mais cedo do que era previsto. Se assim for, e a situação evoluir favoravelmente, olharemos para a realidade. As restrições foram sempre proporcionais às restrições que enfrentamos, portanto, se pudermos avançar para um alívio, fá-lo-emos".

Uma última etapa que corresponderá a uma quase normalidade: os restaurantes, cafés e pastelarias deixarão de ter limite máximo de pessoas por grupo, quer no interior quer em esplanadas; os espetáculos culturais e eventos como casamentos e batizados deixarão de ter limite de lotação; e as discotecas poderão reabrir, um ano e meio depois de terem fechado portas devido à pandemia (isto embora a entrada fique condicionada à apresentação de um teste negativo ou certificado digital de vacinação).

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valentina.marcelino@dn.pt

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