"União Europeia deveria tomar medidas de reforço de controlo de fronteiras com a Índia"

O microbiologista do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, João Paulo Gomes, disse na reunião do Infarmed que Portugal já identificou seis casos da variante indiana. Estima-se que já esteja em 20 países. Se não forem tomadas medidas preventivas, será muito difícil evitar novas infeções. "Portugal está numa situação ótima e não pode perigar esta fase", diz em entrevista.

A Índia ultrapassou este sábado, 1 de maio, os 400 mil casos de covid-19. Mais um recorde mundial. A disseminação da doença está associada a uma nova variante, sobre a qual ainda se sabe muito pouco. O mundo volta a tremer com o impacto que esta poderá em termos de novas vagas da doença. No Reino Unido, já há mais de meia centena de casos. A Alemanha já identificou vários casos, Portugal tem seis e a França registou agora o primeiro. Mas, afinal, as mutações presentes na nova variante da Índia, designada como B.1.617, já estão identificadas individualmente até na variantes da África da Sul e do Brasil. A grande questão é que agora estas aparecem combinadas, mas ainda não há tempo suficiente para se dizer se é mais ou menos transmissível que as outras variantes. João Paulo Gomes, microbiologista e responsável pelo Núcleo de Bioinformática do Departamento de Doenças Infecciosas do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), explica ao DN o que sabe e como se deverá agir. Mas, acima de tudo, diz, "devemos manter-nos positivos. Há uma boa notícia, as vacinas são protetoras em relação a esta variante".

O que já se sabe sobre a variante indiana?

Muito pouco. Apareceu há relativamente pouco tempo e está associada à disseminação e aumento de casos na Índia. Pensa-se que já esteja em mais de 20 países e daí as autoridades de saúde internacionais terem lançado o alerta de podermos estar perante uma variante com maior transmissibilidade do que o SARS -CoV-2 que circula normalmente, apelando para que seja feito o mesmo controlo. Em termos genéticos, o que a comunidade científica sabe agora é que é uma variante que se caracteriza essencialmente por duas mutações preocupantes.

Houve quem referisse serem três mutações, não é assim?

São essencialmente duas. Passou quase ano e meio do início da pandemia e o vírus já tem mais de 20 mutações quando comparado com o inicial sequenciado na China e a comunidade científica não dá a mesma relevância a todas. Há algumas que, aparentemente, não têm qualquer interesse biológico, clínico, epidemiológico, etc. Portanto, no caso da variante da Índia há duas que podem resultar em alguma preocupação.

Porquê?

Porque ambas as mutações estão no domínio da ligação da proteína spike às novas células recetoras e uma delas está associada à falha de ligação aos nossos anticorpos, e isto já foi demonstrado pela comunidade científica em laboratório. A maior preocupação dos cientistas até se centra mais nesta última mutação, porque se pensa que possa ser epidemiologicamente mais transmissível que as outras mutações.

Mais do que as mutações identificadas no Reino Unido, na África do Sul e no Brasil?

Mais do que essas não. Neste momento, ninguém pode levantar uma hipótese dessas. Seria um disparate total comparar a variante da Índia com a do Reino Unido. O nível de disseminação da variante do Reino Unido é algo histórico, em qualquer país que entre é uma questão de semanas ou eventualmente um ou dois meses até atingir mais de 90%. Foi o que aconteceu em todos os países em que foi diagnosticada: Dinamarca, Luxemburgo, Irlanda, Alemanha, Portugal, Suíça, etc. Não houve exceções, foi apenas uma questão de tempo. Portanto, ainda não há variante tão transmissível quanto esta.

""Neste momento penso que devemos ser muito cautelosos em relação a quaisquer afirmações ou especulações que se possam fazer em relação a esta variante. Ainda não tem muito tempo".

Pouco se sabe da variante da Índia, mas a grande preocupação é pela densidade populacional do país?

Geneticamente pouco se sabe e clinicamente nada se sabe. Mas é preciso ter em atenção que, de facto, estamos a falar de um país que tem 20% da população mundial, 1,3 mil milhões de pessoas, e por isso não podemos descartar a hipótese de a densidade populacional ser de longe o maior fator de propagação de qualquer variante que ali apareça. Muito mais do que as características inerentes à variante genética em si. Portanto, neste momento penso que devemos ser muito cautelosos em relação a quaisquer afirmações ou especulações que se possam fazer em relação a esta variante. Ainda não tem muito tempo.

Sabe-se que apareceu no segundo semestre de 2020, pouco depois da variante do Reino Unido...

Não passou tempo suficiente para a realização de ensaios em laboratório para demonstrar que esta variante é mais contagiosa do que as outras já identificadas (Reino Unido, África do Sul e Brasil), nem tão-pouco que, do ponto de vista clínico, esteja associada a doença mais grave do que as outras também. Ou seja, não passou tempo suficiente nem há casuística suficiente para se avaliar o seu impacto. Esta variante já foi detetada no Reino Unido, mas em apenas dezenas de casos. E, não havendo casos suficientes para analisar, não há estatística que possa suportar quaisquer conclusões. Mais uma vez é muito cedo. Não há registos para que epidemiologicamente se possa dizer que é mais transmissível.

Também foi isso que aconteceu em relação às outras variantes, por exemplo com a variante do Reino Unido?

Posso dizer-lhe que os primeiros relatórios que vieram a associar a variante do Reino Unido a uma maior letalidade demoraram três a quatro meses a serem conhecidos.

Mas já houve estudos que foram noticiados sobre esta variante e as vacinas...

É o único estudo que existe em relação a esta variante, mas que ainda não foi visto por outros pares da comunidade científica. E o que se sabe é que parece comprovar que esta variante não compromete a eficácia das vacinas. Lá está, é um estudo feito na Índia que ainda não pode ser analisado pela comunidade científica.

Diariamente há centenas de milhares de casos numa só cidade na Índia, Nova Deli, mas não se sabe ainda como é que a doença está a afetar os doentes e como é que estes estão a ser tratados?

Exatamente, porque essa será, eventualmente, a última conclusão a retirar. A conclusão sobre se é ou não mais transmissível do que outras, com os dados epidemiológicos podemos logo ter uma ideia se tal acontece ou não. Veja, com o controlo e sequenciação que se faz hoje nos vários países em relação à doença podemos ir percebendo se a variante num determinado mês tem 0,1% de representatividade, em termos de prevalência, se no mês a seguir tem 1%, se no outro já tem 3% ou 4 %. Ou seja, se fosse assim, perceberíamos que a variante estava a ganhar terreno quando comparada com os outros vírus em circulação. E isto é uma demonstração inequívoca de que ela estava a ser mais transmissível, senão isto não acontecia. Na parte clínica, ainda necessitamos de dados mais robustos. Um número elevado de pessoas infetadas com esta variante e dados clínicos escritos, quer em termos de doença ligeira, de internamentos em enfermarias, em cuidados intensivos, em mortes, versus o que se passa com os outros doentes infetados com as outras variantes. Para chegarmos a alguma conclusão teria de ser feito um comparativo estatisticamente robusto.

Como se explica que, se a variante da Índia foi detetada no segundo semestre de 2020, só agora se tenha começado a manifestar?

Lá está, é por isso que devemos ter muito cuidado aos manifestarmo-nos sobre uma variante de um país do qual não sabemos como é feito o controlo da doença. Ou melhor, do pouco que sabemos, sabemos que é feito de uma forma muito precária. Além do mais, falamos de um país com uma densidade populacional que não tem comparação com qualquer outro país do mundo. Ali não é possível evitar ajuntamentos. Por outro lado, também estamos a falar de um país em que os cuidados sanitários não chegam a toda a população. Portanto, é perfeitamente possível que uma variante apareça em determinada altura e que só mais tarde dispare. Imagine, basta que a variante apareça num meio rural, onde a densidade populacional é baixa. Aqui, aparece mas não se dissemina. Mas se meses mais tarde é introduzida num meio com maior densidade populacional, um centro urbano, como Nova Deli, é o que basta para explodir em poucas semanas. Esta seria uma razão que poderia explicar perfeitamente o facto de ela já ter sido identificada há muitos meses e de só agora estar a ter o impacto epidemiológico que tem.

"Enquanto existirem outros países onde a situação não está controlada, dificilmente conseguiremos evitar introduções de novas infeções se o controlo reforçado não for tomado como uma medida óbvia em todos os países".

Perante a situação que se vive agora na Índia, quais os riscos para o resto do mundo?

Existe sempre a possibilidade de esta variante passar para outras partes do mundo devido à mobilidade das populações. Aliás, tem sido sempre explicado: o processo de desconfinamento que leva à abertura de fronteiras do nosso país e dos outros acontece porque a situação epidemiológica está a ficar controlada, mas tal não pode ser encarado como um alívio ou como se o problema estivesse resolvido. Porquê? Porque enquanto existirem outros países onde a situação não está controlada, dificilmente conseguiremos evitar introduções de novas infeções se o controlo reforçado não for tomado como uma medida óbvia em todos os países. Isto serve tanto para a variante da Índia como para as outras. Ou seja, enquanto houver países com uma disseminação descontrolada, todos os outros países, nos quais o controlo da situação já é inequívoco, devem ter muito cuidado no controlo de fronteiras, devendo precaverem-se quanto às introduções vindas dessas origens. O Reino Unido cancelou de imediato os voos para a Índia. A Alemanha e a Áustria já fizeram o mesmo.

Quer dizer que Portugal ou a União Europeia, em bloco, também deveriam adotar medidas de controlo desse estilo?

Acho que sim. Não é uma discriminação negativa, é uma medida preventiva e adequada. Portugal e a maior parte dos países da União Europeia estão a recuperar, a taxa de infeção está finalmente a atingir níveis adequados. Portanto, não deveríamos perigar esta nova fase. E se há países descontrolados, deviam ser tomadas medidas que, de facto, acautelassem novas introduções de infeção. Claro que devemos apoiar estes países no que necessitarem, mas o fenómeno de imigração ou a proibição de viagens de lá para cá e o contrário devem ser acautelados. Nós definimos medidas preventivas para o Reino Unido, para a África do Sul e para o Brasil.

Há outras medidas ou cuidados adicionais que se possam adotar?

Não existem cuidados adicionais. As duas mutações que estão a gerar preocupação nem sequer são mutações novas. São mutações que já estão descritas noutras variantes. A questão é que agora, na variante da Índia, aparecem combinadas. Uma das mutações que está presente nesta variante, a tal que está associada à falha de ligação dos anticorpos, está também na variante da África do Sul e na de Manaus e na outra variante brasileira, que está muito prevalente nas grandes cidades deste país. É uma mutação muito frequente e que gera maior preocupação à comunidade científica, porque está a aparecer em múltiplas linhagens por todo o mundo. A outra mutação foi a que caracterizou a mutação identificada na Califórnia e que se espalhou de forma muito massiva em toda a Costa Leste dos EUA. Portanto, individualmente, estas duas mutações encontradas na variante da Índia já estavam perfeitamente identificadas. A questão é que agora aparecem combinadas e ainda não sabemos o que pode acontecer, embora, e como lhe disse, não há até agora qualquer razão para se pensar que é mais contagiosa do que as outras, mais do que a do Reino Unido. Neste momento Portugal está numa ótima situação. Temos de ser positivos e a boa notícia é que as pessoas vacinadas estão protegidas mesmo contra esta variante. Até agora não há indícios que contrariem isto. Vamos ver se com a variante indiana não muda.

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