Um filme e a sua tragédia

Sombra é um filme obviamente marcado por referências trágicas a que todos somos sensíveis. Resta saber se isso basta para que aconteça algum cinema.

Na perceção social do cinema (português e não só), muito por ação de algum imaginário televisivo (sobretudo de telenovela), instalou-se uma noção "redentora" do que seja um filme: o seu valor e a sua importância seriam uma consequência direta da seriedade do seu "tema". O que, inevitavelmente, instala uma clivagem insolúvel entre os que veem um filme como uma "mensagem" purificadora para a "sociedade" e os que encaram um filme como... um objeto de cinema.

Este preâmbulo é importante para situar o filme Sombra, de Bruno Gascon, em função dos factos que o inspiram. A saber: o desaparecimento nunca esclarecido de um menino de 11 anos, em Lousada, no ano de 1998. Podemos, por certo, encontrar um espaço comum em que reconhecemos as marcas de uma tragédia a que ninguém é indiferente. Resta saber se, para falar de cinema, faz sentido omitir a sua vulgaridade dramática e narrativa.

Estamos, de facto, perante uma antologia de clichés que, curiosamente, envolve um "estilo" que a atual saturação de produções nas plataformas de streaming tornou mais visível. Há, assim, um novo academismo que se apoia em três componentes fundamentais: primeiro, a dilatação arbitrária da duração das sequências, como se mais "longo" fosse necessariamente mais "intenso"; depois, o triunfo de um estilo visual enraizado nos recursos das novas tecnologias, gerando imagens cujo polimento técnico não decorre de qualquer pertinência dramática; enfim, a utilização da música como um "fundo" que, independentemente das suas qualidades específicas, apenas serve para tentar compensar o permanente esquematismo da montagem.

Tudo isto se agrava através de uma direção de atores que parece procurar tão só ritmos, olhares e esgares típicos de telenovela, para mais sujeitando-os a diálogos de insuperável banalidade. Observe-se o exemplo da cena em que um inspetor da polícia (João Cabral) interroga uma prostituta (Ana Cristina de Oliveira) que viu a criança pouco antes do seu desaparecimento - por mais talentosos que sejam os intérpretes envolvidos, não é possível superar o simplismo dos diálogos que têm de defender. Isto sem esquecer o facto de, no papel central da mãe, o empenho de Ana Moreira não poder salvar o estereótipo de sofrimento da personagem (decorrente de uma retórica emocional que, todos os dias, as telenovelas ilustram e consagram).

Num plano ideológico - de ideologia comunicacional, entenda-se -, há qualquer coisa de profundamente perturbante no facto de Sombra terminar com uma lista de nomes de crianças desaparecidas, referindo a data do seu desaparecimento e a idade que tinham nessa data. Perturbante porque tal opção confirma que já não se trata tanto de contar histórias, mas sim de fornecer inventários "temáticos" suscetíveis de garantir ao filme uma determinada legitimação pública. Nesse aspeto, Sombra é apenas um detalhe no interior da cultura mediática em que vivemos.

dnot@dn.pt

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