Um amor perfeito. Ou uma fantasia que acabou

É de amor que se fala nesta coluna, a mais lida do The New York Times. Histórias verdadeiras, contadas pelos leitores. Leia-as no DN aos domingos

No ambiente de trabalho do meu computador tenho uma pasta dentro de outra pasta com o nome Não Abrir, numa clara mensagem para mim. Grande surpresa: recentemente abri-a.

Está cheia de encantadoras fotografias minhas com o meu ex-namorado que tinha apagado de todos os outros sítios. Houve uma que me chamou a atenção: uma foto nossa a preto e branco da viagem que fizemos à costa do Oregon há dois verões, nos anos dele, logo a seguir a termos estado no casamento da minha mãe, no seu jardim, nos subúrbios da minha cidade natal, Portland.

Fiquei com o rato a pairar sobre a imagem e, então, cliquei duas vezes para a ampliar.

Com os cotovelos na areia, sorríamos os dois enquanto a mão dele acariciava o meu braço esquerdo, os seus olhos e cabelo escuro contrastando com os meus traços claros. A minha mão direita, em grande parte escondida pela manga do meu casaco preto, escondia metade do meu sorriso tímido.

Aquela fotografia tinha estado em todo o lado: no Facebook (onde eu a tinha usado como foto de perfil), no escritório dele, na parede da nossa sala e na mesa de centro dos avós dele no Iowa. Tinha sido tirada quando a nossa relação tinha cerca de seis meses, durante a fase de lua-de-mel, e imensa gente a tinha comentado, dizendo coisas como: "É uma fotografia perfeita" e "Vocês fazem um casal bonito".

O que as pessoas não sabiam era como nos tínhamos esforçado enormemente para conseguir a fotografia perfeita. Regulámos a máquina para disparar em modo diferido para podermos carregar no botão, corrermos para as nossas posições e tentarmos parecer naturais. Tirávamos uma e, em seguida, analisávamos o resultado:

"Pareço uma louca."

"Eu pareço um velho."

"Não estás nada natural."

"Não parece que o meu olho esquerdo está a sair da minha cara?"

E continuou assim até nos doerem os músculos de tanto rir e o Sol se pôr. Mas, com a ajuda de alguma boa edição, a versão final parecia natural e pura. E por causa do temporizador podemos até ter levado algumas pessoas a acreditar que não era uma selfie pretensiosa.

Eu costumava adorar contar a história de como nos conhecemos. Mas agora já não gosto, por isso não o vou fazer. O que realmente importa é o seguinte: eu não levei a sério o facto de ele ter acabado com a sua namorada de há muito tempo, apenas um dia antes de termos começado o nosso romance.

Reprimia constantemente os pensamentos de que eu poderia ser aquela que vem a seguir, que serve para que não se sinta sozinho ou para lhe guardar um lugar no cinema até que o verdadeiro amor apareça. Fui inventando desculpas, atraída pela sua beleza, inteligência e boas maneiras. Adorava a forma como ele se exprimia com as mãos quando falava.

Apesar das coisas boas, eu sempre me senti como se tivesse de provar a toda a gente que ele e eu éramos felizes, que a nossa relação era verdadeira e, para isso, tinha a ajuda das redes sociais. No Facebook podia excluir as coisas negativas (um comentário menos simpático aqui, uma mentira acolá) e mostrar não só a forma como eu queria que os outros nos vissem mas também como eu queria ver-nos. Às vezes ele desabafava que achava que eu seria mais feliz com um tipo de homem mais descontraído, que não fosse tão convencional como ele era. Para ser justa: fui eu que o convenci a deixar crescer a barba, tentando, suponho eu, aproximá-lo da imagem do namorado que eu tinha imaginado para mim.

Quase exatamente um ano após a selfie a preto e branco que demorámos uma eternidade a tirar, conseguimos uma outra fotografia de fazer inveja. Esta era a cores e tinha como cenário uma roda gigante à beira da água em Seattle, a Grande Roda. Fizemos uma viagem de carro até lá em agosto, pelos anos dele, e ficámos em casa da minha prima.

Devemos ter posado dez vezes para a câmara da minha prima antes de chegarmos à foto perfeita: o estuário de Puget atrás de nós, de um azul-marinho esplendoroso, e as montanhas distantes ao fundo. Os nossos sorrisos eram abertos e radiosos e o braço dele passava confortavelmente por cima dos meus ombros - uma nova adição colorida à exposição pública da nossa relação.

Trabalhámos no post para o seu Facebook para o tornar descontraído mas apaixonado, sucinto mas sincero: "Passei uma grande semana de aniversário com Sage Cruser na zona de Seattle!"

"Amo-te, bichinha", sussurrou-me naquela noite quando nos deitámos.

Dois meses mais tarde, pouco depois de nos termos mudado para o nosso segundo apartamento, ele acordou a dizer que lhe doía o estômago.

"Terão sido as fajitas de ontem à noite?", perguntei bocejando, enquanto me aconchegava no edredão branco e macio que ele tinha atirado para o lado momentos antes.

Ele suspirou e sentou-se aos pés da cama, com as mãos na cabeça. Eu sorria como uma idiota com os olhos parcialmente fechados.

"Não."

Levantei a cabeça. "O que se passa, amor?"

"Eu - eu não consigo imaginar o nosso futuro."

Atirei o edredão para trás. "Espera aí. Estamos a ter a conversa que eu acho que estamos a ter?"

Ele virou-se para mim com uns olhos tristes e os lábios apertados. Eu quase que me senti mal por ele até me lembrar que era eu que estava a ser dispensada. Ele foi vago nas razões para acabar comigo, dizendo que já andava a pensar nisso há seis meses.

"Alguma vez me amaste?", perguntei.

Fez uma pausa e, em seguida, começou a gaguejar uma explicação. Mas a pausa disse tudo.

Chorei convulsivamente na nossa cama, vestida com uma T-shirt vários números acima do meu, com o rosto vermelho e engasgando-me com a minha própria saliva. E, assim, tudo estava acabado.

Ambos mudámos as nossas fotografias de perfil menos de duas horas depois da separação. Ele pôs uma em que estava sozinho e de fato para substituir a de nós os dois, amorosos, num café de Portland.

Eu troquei a fotografia a preto e branco na praia por outra em que estou sozinha no cimo de uma montanha na Irlanda, com um olhar duro, e uma expressão que eu esperava que dissesse: "Eu estou no topo do mundo e sinto-me fantástica."

Com cada "gosto", sentia o meu ego a reerguer-se, mas a euforia esmoreceu enquanto arrumava as minhas coisas e me mudava para a cave de casa da minha mãe, que não estava no topo de coisa nenhuma.

A família e os amigos estavam chocados. Eu tinha dores agudas no estômago sempre que pensava nele. Ficava horas a olhar para o teto. Estava perdida numa confusão de sentimentos de traição e ódio. Mesmo assim, eu fantasiava sobre a reconciliação e sobre tudo voltar ao que era antes.

Na semana seguinte, chegou-me aos ouvidos que ele tinha aberto uma conta de encontros online, no dia a seguir a ter acabado comigo. A sua imagem de perfil fez-me ficar com um nó na garganta: ele tinha-me cortado da fotografia da Grande Roda, deixando os seus dentes brancos e os seus olhos verdes a sorrir para potenciais futuras amantes e a água cintilante a contrastar com o seu cabelo escuro. A poucos centímetros da cabeça dele, exibindo o meu grande sorriso cheio de dentes, eu tinha sido cortada da minha própria fantasia.

Duas semanas mais tarde, após a divisão de bens, depois de muito chorar e suspirar e ouvir a música Hello da Adele em repetição, recebi uma carta dele, escrita à mão. Ele incluiu-a num pacote com um soutien meu de desporto que tinha descoberto no cesto da roupa, usando a sua devolução como uma "oportunidade para desabafar algumas coisas que lhe oprimiam o peito".

A carta dava a mesma explicação vaga que ele tinha dado antes, confessando que ainda não conseguia pensar em "qualquer razão específica". Era "apenas um sentimento" e ele ainda sentia "muito" a minha falta.

Fiquei a pensar o que é que poderia responder àquilo, mas nunca o cheguei a fazer. Em vez disso, corrigi a ortografia e a gramática dele com uma caneta vermelha, encontrando nisso alguma satisfação.

Eu queria que o meu amor perfeito se parecesse com aquilo que eu me tinha convencido que ele era: as fotografias, os posts no Facebook, a barba, a narrativa da nossa relação que eu tinha fabricado na minha cabeça. Eu tinha-me apaixonado pelo homem que eu queria que ele fosse e a mulher que eu queria ser. Tinha-me apaixonado pelo que imaginei que nós poderíamos ser juntos, não pela realidade do que nós realmente éramos. Isso era uma verdade difícil de engolir.

Pouco tempo depois de ter aberto aquela pasta de fotografias, encontrei-me com uma velha amiga que não via há mais de um ano e meio. Fizemos uma viagem de fim de semana de campismo até Cannon Beach, o mesmo lugar onde eu tinha tirado aquela fotografia a preto e branco quase dois anos antes.

Depois de termos posto a conversa em dia e de termos acendido uma fogueira, ela confessou que tinha passado por uma separação do seu atual namorado que parecia semelhante à minha situação. Ele tinha terminado abruptamente quando ela pensava que estava excelente, e eles ficaram um mês sem qualquer contacto antes de se reconciliarem quando ele disse que a queria de volta.

Ela achava estranho que as duas tivéssemos vivido situações semelhantes, mas que acabaram de maneiras opostas. Ela exaltava com a recém-descoberta felicidade deles, dizendo que se casaria com ele se ele a pedisse em casamento.

Ficámos sentadas em silêncio na areia fria ao lado da fogueira crepitante, enquanto eu olhava para um papagaio amarelo e admirava a sua longa cauda a dançar no céu contra as nuvens diáfanas do entardecer.

Ela quebrou o nosso silêncio com uma pergunta: "Digamos que vocês os dois, um dia, ainda podem vir a ficar juntos novamente. Tu querias isso?"

Olhei para ela e, em seguida, olhei de novo para o papagaio e respondi: "Não."

(Sage Cruser é escritora e vive em Seattle.)

Exclusivo DN/The New York Times

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