Transplantes da medula. Histórias de quem venceu e vive feliz

Há 30 anos realizou-se o primeiro transplante da medula óssea em Portugal. O DN conta três casos de sucesso após a doença

Joel tinha pouco mais de 3 anos quando foi levado de urgência de Ovar para um hospital no Porto. "Contam-me que já não se esperava que chegasse com vida." Seguiu para o Instituto Português de Oncologia Francisco Gentil de Lisboa, onde a equipa do médico Manuel Abecasis o submeteu a um transplante da medula óssea. Venceu, e mais do que sobreviver, abriu espaço a uma vida nova. "Disseram-me que dificilmente teria filhos, que era infértil. Mas há seis anos, sem tratamentos nem nada planeado, fui pai, para espanto dos médicos." Hoje Joel Matos, 33 anos, tem uma vida normal e é um dos exemplos da transformação iniciada pela equipa do médico Manuel Abecasis na Unidade de Transplantação da Medula do IPO. É o sobrevivente mais antigo, tendo sido a quarta pessoa a ser transplantada.

Faz hoje exatamente 30 anos que ocorreu o primeiro transplante da medula óssea em Portugal. "Tratava-se de uma criança com leucemia mieloblástica aguda. O transplante correu bem mas, infelizmente, o doente recaiu e faleceu um ano mais tarde. Nos meses seguintes fizeram-se mais transplantes. Estava quebrado o mito de que o transplante de medula óssea não seria possível tão cedo em Portugal!", escreve Manuel Abecasis no livro que o IPO se prepara para lançar com histórias de doentes ao longo destes 30 anos.

Foram realizados 1858 transplantes (1061 autólogos, com células do próprio, e 797 alogénicos, recurso a dador), o que corresponde a um total de 1665 doentes tratados, dado que há casos em submetidos a mais de um transplante.

Joel Matos foi o quarto português a ter um transplante da medula óssea e o primeiro a ter sucesso duradouro. A irmã, mais velha oito anos, foi a dadora de tecido da medula. Hoje tem uma vida normal, com uma ou outra sequela. "São coisas da quimioterapia da época, mas vivo bem com isso. Resume-se a alguma secura nos olhos e dores nas articulações", conta, recordando que teve uma infância normal, com frequência escolar na idade habitual.

Diz ter uma enorme gratidão à equipa do IPO onde ainda vai uma vez por ano para o check-up. "Faço questão de cumprimentar o Dr. Abecassis e recordo-me bem das enfermeiras." Após a experiência da aplasia medular óssea o ter deixado infértil, ou quase, veio a surpresa. "Os médicos avisaram que ter filhos seria uma grande improbabilidade. Mas a ciência também diz "nem sempre nem nunca". E aconteceu, sem nada planeado, Hoje sou pai de um menino de 6 anos. Foi uma surpresa. Dizem-me que tive sorte neste tipo de problemas."

Leonor descobriu a natureza

Tudo começou com uma virose. Leonor, de 8 meses, foi levada pela mãe Celeste ao Hospital Amadora-Sintra e os exames revelaram algo mais grave. A menina passou um mês nos cuidados intensivos em risco de vida e ainda esteve cinco meses em isolamento. "Chegaram à conclusão de que o melhor era fazer o transplante. A família não era compatível e recorreu-se ao banco de dadores", conta Celeste Dantas, residente no Cacém.

A operação foi em 26 de setembro de 2009. "No primeiro ano esteve bem, depois enfraqueceu." Em março de 2012, realizou novo transplante, que foi decisivo para a sua estabilidade. O dador, estrangeiro, foi o mesmo. "Não sei quem é mas deu uma segunda vida à minha filha." Agora, com 8 anos, Leonor "está bem, não toma medicação e frequenta a escola normalmente. Está no 3.º ano e com boas notas", diz a mãe. Mas nem sempre foi assim. "Passou muito tempo nos hospitais. Com 6 anos foi pela primeira vez à praia. Nem imagina a alegria dela. E minha. É um momento que fica gravado na memória. Ela, agora, gosta muito de natureza", descreve Celeste, para quem a "família do IPO" nunca será esquecida. "São a nossa segunda casa. Desde médicos, enfermeiros e auxiliares a famílias de outros doentes que ali conhecemos. Ficámos amigos."

Acreditar na ciência e ter fé

"Foi tudo muito depressa."Jorge Marques tinha 18 anos e recorda-se bem . "Estava no 12.º ano e comecei a sentir um cansaço anormal. Fui ao médico e as análises revelaram problemas", explicou ao DN. A leucemia mieloide aguda obrigou a procedimentos médicos imediatos, desde transfusões de sangue a quimioterapia. A transplantação era necessária. "Entreguei-me nos braços da ciência e dos médicos, nos quais sempre acreditei." A família e os amigos foram importantes, "sempre ao lado, sempre, como um cordão humano", mas mesmo assim foi difícil.

Após o primeiro ciclo de quimioterapia, os pais levaram-no a Londres a um especialista. "Foi aí que tomei consciência da gravidade. Disse-me que a doença estava na medula e não tinha desaparecido. E aconselhou-me a prosseguir em Lisboa. Que em Londres não fariam nada diferente e que em Lisboa junto à família e amigos seria mais fácil. Lembro-me perfeitamente disso, apesar de nunca mais ter falado com ele."

Mais dois ciclos de quimioterapia e a transplantação, com o irmão gémeo a ser o dador. "Foram depois 21 dias internado, fechado. Os três meses seguintes foram complicados, a medula demorou a adaptar-se. Mas comecei a normalizar e passado um ano estava a estudar Engenharia Civil no Instituto Superior Técnico."

Do IPO nunca se esquecerá. "A equipa é muito dedicada. Sabe exatamente o que está a fazer, há cuidado e carinho. A unidade de transplantação é excelente e fico feliz por existir em Portugal. Não se esquecem de nós, quando lá vou ao check-up anual, é com alegria e obrigação. Devo muito à equipa."

Jorge Marques, 40 anos, vive hoje uma vida normal, tem família e até corre meias-maratonas. "Sou saudável." Para tal, o fundamental, diz, centra-se em três pilares: "O apoio familiar e de amigos; a entrega aos médicos e à ciência; e ter fé, acreditar que a cura é possível, pensar positivo, sempre."

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