Transmissão da covid disparou de 0,98 para 1,19 em seis dias

O Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge confirma um aumento na transmissibilidade de 0,21 de 25 de dezembro a 31. A tendência é cada vez mais de crescimento. Casos podem duplicar em 13 dias.

O Governo decidiu aligeirar as medidas durante a época natalícia e aconteceu o que muitos especialistas tinham vindo a afirmar: a transmissão iria disparar. Isto mesmo está reportado no relatório do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA), da Universidade Nova de Lisboa, o organismo oficial que faz a monitorização da incidência e da transmissibilidade da doença, publicado na sexta-feira. "Desde meio de novembro até ao dia 25 de dezembro o valor médio do R(t) - número de reprodução efetiva - manteve-se abaixo de 1", mas em seis dias disparou para 1,19.

Um indicador que, segundo o INSA, reflete claramente "uma rápida alteração da situação epidemiológica" no país. Ou seja, "passou-se de uma fase de tendência decrescente sustentada para a atual fase de crescimento acentuado do número de novos casos, que se mantém desde o dia 26 de dezembro".

No documento técnico, o instituto explica que o valor médio que se registava desde meio do mês de novembro e que representava uma fase de decréscimo sustentada da incidência da infeção, muito pelas medidas restritivas tomadas nessa altura pelo governo, passou para uma situação inversa logo no dia a seguir ao Natal. "Observou-se um aumento acentuado do R(t) em poucos dias (seis), tendo passado de 0,98 a 25.12 para 1,19 a 30.12, ou seja, um aumento de 0,21", refere o INSA.

De acordo com a análise do instituto, a partir de 26 de dezembro todas as regiões registaram valores médios de R(t) elevados: "Foram estimados os seguintes valores de R(t) para as regiões com mais casos - 1,15 na região norte, 1,23 na região centro, 1,21 na região LVT, 1,21 na região Alentejo, 1,29 na região Algarve, 1,24 na região autónoma dos Açores e 1,21 na região autónoma da Madeira".

Valores médios só comparáveis aos atingidos no pico da segunda vaga, em novembro, e no início da pandemia, entre 21 de fevereiro e 16 de março de 2020. Aqui, o valor de R(t) atingiu os 2,2, mas porque a "população estava suscetível e as medidas de saúde pública eram residuais".

No relatório pode ler-se ainda que desde o início da epidemia que a estimativa do R(t) variou entre 0,79 e 2,15, tendo-se observado uma tendência de decréscimo desde 12 de março de 2020, quando foi anunciado o fecho das escolas, que se tornou mais acentuada após o dia 16 março quando ocorreu mesmo o fecho e a 18 de março com o anúncio do estado de emergência. O R(t) voltou a aumentar a partir de 28 de abril, ultrapassando o valor de 1 a meio de maio. A partir de 11 de julho volta a ficar abaixo de 1 e mantém-se assim até 5 de agosto. Daí e até meio de novembro esteve acima de 1 durante 107 dias.

Com data de 8 de janeiro, o documento reflete uma análise que reporta a dados obtidos até 3 de janeiro de 2021, a qual já indicava estarmos a enfrentar "uma tendência crescente de novos casos ao nível nacional, em todas as regiões do país", com a região Centro e o Alentejo a ficarem sob grande pressão.

A partir daqui, a tendência tem sido sempre no sentido do agravamento. De tal forma, que as estimativas apontam para a possibilidade de a duplicação de casos positivos poder ocorrer em apenas 13 dias. "A estimativa do tempo de duplicação da incidência de SARS-CoV-2, com base na incidência dos últimos 15 dias, foi de 13 dias, estando este valor entre 11 e 17 dias com 95% de confiança". Ou seja, que dos dez mil casos o país pode passar para os vinte mil casos diários em apenas duas semanas. Foi este valor que fez soar todos os alarmes, tal como o número de óbitos, que esta semana chegou aos 118. No entanto, as estimativas para a próxima semana, de acordo com os modelos matemáticos usados pelo INSA e pela Faculdade de Ciências, apontam para um número de casos diários que ronda os 12 mil e para os 120 óbitos.

Tais estimativas desenham o pior cenário para este mês de janeiro em termos de resposta à covid-19. "É um cenário grave e preocupante", explicaram ao DN, mas são estes dados que serão levados pelos técnicos do INSA à reunião de terça-feira com o governo no Infarmed, e já com uma salvaguarda: que o próximo relatório trará uma realidade mais grave, tendo em conta o aumento do número de casos nesta semana. Desde quarta-feira, após o anúncio de que o país tinha registado 10 027 casos em 24 horas, que são muitos os que pedem o confinamento geral. O governo ouviu os partidos políticos e a concertação social, e tudo indica que este será decretado a partir de 15 janeiro.

Esta é, aliás, a solução mais reivindicada pela Saúde, com o argumento de que as unidades hospitalares e de cuidados primários atingiram a linha vermelha da sua capacidade. Para especialistas de saúde pública e de medicina intensiva "não há Serviço Nacional de Saúde que aguente uma média de dez mil casos". Destes, cerca de 10% vão chegar às enfermarias hospitalares e 3% aos cuidados intensivos.

Philip Fortuna, médico intensivista, referiu mesmo que os números de agora são o resultado da "decisão política em aligeirar as medidas no Natal". O grande problema é que parece que ninguém pensou que a consequência principal da covid-19 é o agravamento da mortalidade nas faixas etárias mais idosas. "O que se conseguiu com o Natal foi que este fosse o último para algumas famílias", sublinhou o médico. O relatório sobre a mortalidade em 2019, do Instituto Nacional de Estatística, indica que mais de metade do número de mortes a mais em 2020 se deveu à covid-19. Janeiro vai ser um mês muito duro, não só pelo vírus, mas também pelo frio, que é um inimigo tão forte como o SARS-CoV-2.

Mas ainda falta analisar a nova variante deste SARS-CoV-2, detetada inicialmente no Reino Unido, e cuja transmissibilidade parece ser ainda maior do que a registada até agora. Em Portugal, estão confirmados 18 casos no continente e 16 na Madeira.

O INSA está a trabalhar mais 70 amostras de casos suspeitos da nova variante detetada no Reino Unido. Os resultados deverão ser conhecidos dentro de quatro a cinco dias.

(*) Título atualizado com novos valores de transmissibilidade da doença, em vez de 1,9, deve ler-se 1,19

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