Temos um milhão de diabéticos, mas 30 a 40% não estão diagnosticados

Diagnosticar mais cedo para evitar a evolução da doença, criar equipas pluridisciplinares e apostar no tratamento individualizado são as batalhas de João Jácome de Castro, presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo.

Um dos grandes problemas em Portugal é que existem muitas pessoas que são diabéticas e não sabem, por isso é preciso investir no diagnóstico precoce de forma a travar a evolução da doença. O alerta é feito por João Jácome de Castro, presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM), a propósito do Dia de Diabetes, que se assinala este domingo. "Estimamos que existam cerca de um milhão de pessoas com diabetes em Portugal. E a primeira coisa que vale a pena dizer em relação a isto, e esta é uma das grandes batalhas a que estamos ligados, é que há muitas pessoas que têm diabetes e não sabem que são diabéticas. De acordo com os últimos dados disponíveis, e agora houve um certo atraso com a recolha e análise de dados com a pandemia, estimamos que cerca de 30 a 40% das pessoas possam ter diabetes e não estarem diagnosticadas. Depois, das pessoas que têm diabetes estima-se que 30 a 40% possam não estar a ser tratadas de acordo com os objetivos".

O número de mortes por diabetes é alto, mas, segundo Jácome de Castro, é quase impossível de quantificar, devido ao número de doenças graves associadas à diabetes e que acabam por ser fatais, nomeadamente as chamadas complicações tardias da diabetes. "A doença cardíaca, o acidente vascular cerebral, portanto, as primeiras causas de morte em Portugal, a doença renal, a diabetes é a primeira causa de infeção renal terminal, a grande fatia da hemodiálise também deve-se à diabetes, e a cegueira".

Evitar que os doentes cheguem a casos extremos destes é, para o endocrinologista, outra grande prioridade e que pode ser feita com a definição de "objetivos terapêuticos individualizados". "Este é um aspeto muito importante porque tratar a Maria do Carmo não é a mesma coisa que tratar a Maria da Conceição ou tratar o senhor Magalhães não é o mesmo que tratar o senhor Esteves. Porquê? Porque o senhor Esteves tem 30 anos e o senhor Magalhães tem 70, a Maria do Carmo tem obesidade e a Maria da Conceição não e por aí fora, uma tem doença renal, a outra tem doença cardíaca, uma tem hipertensão, a outra não. Portanto, temos de definir objetivos individualizados e depois temos que ser enérgicos na prossecução do objetivo que traçamos".

O presidente da SPDEM reconhece que para isto acontecer é preciso que existam mais consultas, é preciso haver mais tempo de consulta, que o médico fale com o doente, pois estão a tratar pessoas e não doenças. "Depois é preciso equipas pluridisciplinares, é preciso termos enfermeiros que trabalhem connosco, é preciso termos nutricionistas que trabalhem connosco. É preciso termos relações privilegiadas com a oftalmologia, com a cardiologia, com a nefrologia, com a neurologia, e esse é o grande desafio. Diagnosticar mais doentes, tratar mais doentes, tratá-los melhor e tratá-los mais cedo", diz ao DN Jácome de Castro, para quem a grande força de combate à diabetes são, acima de tudo, os médicos de Medicina Geral e Familiar, e que estas equipas pluridisciplinares devem existir não só nos hospitais, mas também nos centros de saúde.

Mais de 10% dos custos em saúde

No que diz respeito a tratamentos, o endocrinologista garante que existem remédios mais eficazes e mais seguros, mas também equipamentos de diagnóstico verdadeiramente inovadores. "Há um sistema de monitorização da glicemia pelos líquidos intersticiais, em que nós aplicamos uma peçazinha no braço e durante 15 dias não precisamos de picar o dedo, aproximamos uma maquineta, como se estivéssemos no supermercado a ver os preços, que nos dá alarmes sonoros quando o açúcar passa para cima ou para baixo de determinados limites, que nos dá uma seta de tendência que dá para perceber se o açúcar está a descer ou a subir, e isso é extremamente importante para ajudar no tratamento", explica o líder da SPEDM, acrescentando que as pessoas têm facilmente acesso a este equipamento, apesar de atualmente ainda existirem algumas restrições na comparticipação, que estão a ser discutidas.

Além das implicações em termos de saúde que a diabetes traz, existem também as implicações económicas, com dados a apontar que esta doença seja responsável em Portugal por mais de 1500 milhões de euros por ano em custos diretos, segundo foi afirmado recentemente no Parlamento. "A diabetes traz em si um grande investimento, uma percentagem muito significativa dos custos em saúde, acima de 10% pensa-se que sejam atribuídos à diabetes, uma percentagem significativa do próprio PIB do país está relacionada com a diabetes", explica o presidente da SPEDM.

Estes custos podem ser divididos em dois grupos. Os custos com a diabetes no sentido imediato - como os remédios e os equipamentos para avaliação da glicemia capilar - e os custos das complicações da doença, "que são custos enormíssimos, pois a pessoa por ser diabética tem enfarte do miocárdio, a pessoa por ser diabética é amputada, a pessoa por ser diabética tem cegueira, a pessoa por ser diabética tem insuficiência renal, a pessoa por ser diabética tem insuficiência cardíaca", refere Jácome de Castro. "Nós, às vezes, quando falamos nos custos da diabetes dizemos que os medicamentos custam uma fortuna, é claro que os medicamentos são claros, mas vale a pena investir, porque se investirmos mais no princípio, se conseguirmos controlar os doentes mais cedo, os doentes vão evoluir muito menos e muito mais tarde para as complicações e essas é que são o grande custo. O que custa são os doentes internados com as intercorrências cardíacas, renais e por aí fora. O grande desafio aqui é saber que a diabetes custa muito dinheiro, mas vamos investir cedo, para poupar mais tarde", sublinha o também diretor de Saúde Militar do Hospital das Forças Armadas.

ana.meireles@dn.pt

Mais Notícias

Outras Notícias GMG