"Temos de saber quando colocar um travão, corremos o risco de replicar ondas anteriores"

Raquel Duarte foi convidada pelo Governo para liderar a equipa que elaborou as propostas de desconfinamento que o país viveu até ao início de outubro. Médica pneumologista, com formação académica em Saúde Pública e Economia da Saúde, secretária de Estado da Saúde do XXI Governo, diz ao DN, quase dois meses depois do desconfinamento, estar preocupada com "o relaxamento das medidas de proteção individual" a que se assiste. Defendendo que o travão para a doença pode ser "o nosso comportamento". Cada um de nós, individualmente, ou cada empresa, empresários, autoridades tem de ter a perceção do risco e do que fazer para se viver em segurança. E alerta: "Não podemos chegar ao Natal com os casos a crescer a este ritmo".

A pedido do Governo liderou a equipa que elaborou as propostas de desconfinamento para o país. Desde há dois meses que Portugal tem todas as atividades económicas a funcionar e neste momento regista de novo um aumento significativo de casos. Esta subida era previsível ou os portugueses não estão a ter o comportamento que era esperado?

Há duas situações importantes. Por um lado, temos o comportamento exemplar da população que aderiu muito bem à vacinação, a taxa de cobertura é de mais de 86%. Isto fez com que tivéssemos alcançado muito bons resultados, quer na incidência da doença quer na redução das suas formas graves - com a redução de internamentos e de mortes. Mas isto também deu muita confiança à população, parecia que a pandemia tinha desaparecido, mas não. A pandemia está aí e precisamos de manter as medidas de proteção individual. Portanto, o que houve foi um certo relaxamento na adoção destas medidas. A vacinação é muito importante, confere-nos proteção da gravidade da doença, e, por isso, a dose de reforço para os mais vulneráveis também é fundamental, mas não podemos voltar a ter uma sobrecarga nos serviços de saúde. A transmissão está a acontecer, há um aumento na incidência, mas ainda não estamos a ter repercussão nos serviços, mas é preciso percebermos que não a podemos voltar a ter.

O plano do Governo é vacinar todos os maiores de 65 anos, com seis meses de vacinação completa, com a dose de reforço, até 19 dezembro. Os profissionais de saúde vão começar já na próxima semana. Acha que é só desta forma que conseguimos controlar a pandemia?

Como já disse, a vacinação é muito importante na redução do número de casos graves, o que também reduz a sobrecarga ou peso nos serviços de saúde, mas é preciso percebermos que não é só a vacinação das populações mais idosas e dos profissionais de saúde que vai evitar o aparecimento de novos casos ou travar o aumento da incidência. Nós só conseguiremos evitar que tal aconteça se a par da vacinação mantivermos as medidas de proteção que conhecemos bem e que já provaram reduzir em muito a transmissão da doença. Todos sabemos quais são: o uso de máscara, o distanciamento, o evitar estar com grandes grupos de amigos, o evitar estar com colegas de trabalho quando há sintomas respiratórios, etc.

"A auto perceção do risco é fundamental nesta fase. Cada um de nós tem de perceber o contexto que está a viver".

Por isso pergunto, e perante a fase que estamos a viver, se não é tempo de se começar equacionar algumas medidas restritivas?

As medidas restritivas devem ser ajustadas e proporcionais à situação que se vive. Foi sempre o que defendemos. Portanto, é preciso perceber quais são as pessoas que estão doentes, as que desenvolvem formas graves, quais as que precisam de ficar hospitalizadas e as que têm apenas sintomas ligeiros. Pelos resultados que temos visto diariamente, penso que não se justifica estar a implementar medidas restritivas obrigatórias de forma transversal. Temos as medidas de proteção individual que podem e devem ser aplicadas por cada um de nós. A auto perceção do risco é fundamental nesta fase. Cada um de nós tem de perceber o contexto que está a viver. Por exemplo, se estamos a trabalhar num espaço fechado, temos de colocar a máscara. Se estamos num contexto de grande concentração populacional, mesmo ao ar livre, só temos de a evitar ou protegermo-nos com o uso de máscara e o distanciamento. Estas medidas e a perceção do risco individual nunca deixaram de ser importantes. Pelo contrário, nesta fase, são fundamentais. O vírus continua a circular. Aliás, enquanto a população mundial não estiver vacinada continuaremos a estar em risco. Portanto, para nos protegermos a nós próprios e aos outros são precisos estes dois ingredientes: vacinação e proteção individual.

A auto perceção do risco é fundamental, mas isso significa que agora tudo depende da responsabilidade individual e da comunidade?

A vacinação é uma responsabilidade coletiva, mas as autoridades têm de garantir que há vacinas para todas as pessoas e que tudo está organizado de modo a que a sua acessibilidade ao processo seja fácil. Por outro lado, cabe a cada de um de nós aderir à vacinação, embora isso tenha acontecido nas fases anteriores, mas é importante que tal também se mantenha para a dose de reforço e para a vacina da gripe. Por exemplo, quando olhamos para a curva da doença percebemos que há uma faixa etária, a dos 20 aos 29 anos, que sobressai claramente. É preciso que todos os grupos etários, mesmo os que têm menor risco de desenvolver formas graves da doença, assumam medidas de proteção individuais, porque ninguém está livre de perigo. Estamos perante uma doença que é transversal a todos os grupos etários e estratos sócio económicos, e enquanto houver vírus todos temos de tomar cuidados para conseguirmos proteger os mais vulneráveis. Senão não conseguimos.

Mas a própria sociedade no seu conjunto não tem de ter cuidados?

A auto perceção do risco e a adoção de estratégias individuais são fundamentais, mas há também o outro lado da sociedade, os locais de trabalho, as empresas, as escolas, as atividades económicas - nas nossas propostas de desconfinamento sempre defendemos que deveria haver um investimento na qualidade do ar e na climatização destes espaços. É preciso que as empresas e as escolas, por exemplo, garantam que os seus funcionários trabalham em locais seguros e confortáveis.

Está definido que o pico para a adoção de medidas medidas restritivas é a partir dos 240 casos por 100 mil habitantes numa avaliação a 14 dias. Nesta fase, esta situação não é transversal no país, mas a incidência está a 134 por 100 mil habitantes e o R (t) a 1.15. Deveremos aguardar o pico definido ou com o que já sabemos já se deveria estar a tomar medidas?

É preciso ter em conta o funcionamento dos serviços de saúde. É preciso garantir que o SNS dá resposta à doença covid e à doença não covid. Esta resposta tem de ser mantida. Nesta altura, ainda temos condições para o fazer. É esta a análise que tem de ser feita para se tomar outras medidas.

A colocar-se um travão tend e ser antes do Natal, que é um época de grande mobilidade e de forte cocnentração de pessoas, famílias e amigos.

Já se do Natal e da necessidade de estarmos protegidos, mas se continuarmos a crescer ao ritmo de agora, a pandemia pode voltar-nos a surpreender-nos nesta época?

Não podemos chegar ao Natal com os casos a crescer a este ritmo. Porquê? Porque o Natal é inevitavelmente uma época em que temos um aumento grande de mobilidade e uma elevada concentração de pessoas, famílias e amigos, o que só por si pode gerar uma explosão de casos. Portanto, não podemos continuar a crescer assim até ao Natal. E a colocar-se um travão tem de ser antes do Natal.

Mas como é que esse travão pode ser colocado?

Através de medidas gerais. A vacinação, mais uma vez, é fundamental para se proteger as formas graves da doença, mas per si não coloca um travão à doença. O travão vai ter de ser colocado no nosso comportamento. Através da redução da lotação de pessoas nos espaços, no desfasamento de horários nos locais de trabalho ou, sempre que possível, na opção pelo teletrabalho, no uso de máscara em ambientes fechados, no evitar áreas de grande concentração, etc. Estas são as medidas que já sabemos que nos permitem ter uma vida normal e que conseguem cortar e reduzir substancialmente as cadeias de transmissão.

Todas essas são medidas já não são obrigatórias. Têm de ser as pessoas, por exemplo da restauração a assumir, as empresas ou o Governo deveria começar a recomendar a adoção destas?

As medidas para se travar a pandemia são bem conhecidas. Agora, a força que tem de se colocar no travão, mais lenta ou a fundo, tem de ser proporcional à situação que se vive. Nesta altura, há uma série de medidas que podem ser implementadas pela população e que podem permitir a redução e a estabilização da situação, mas têm que começar a ser já implementadas. Se não forem, então a força com que se irá aplicar o travão vai ter de ser aumentada. Portanto, tanto a população, como empresas, autoridades têm de fazer esta análise, porque com a incidência a crescer desta forma, mesmo com a população protegida pela vacinação, vamos ter um aumento da procura dos serviços de saúde, mais internamentos e letalidade.

Há algumas regiões que já estão no limite dos 240 casos por 100 mil habitantes, outras que já ultrapassaram. As autoridades locais já deveriam estar a tomar medidas de restrição?

Em cada um desses locais há autoridades de Saúde Pública que já estão a monitorizar essas situações e a fazer a avaliação de risco. Isto sempre foi assim em Saúde Pública, mesmo antes da pandemia, e continua a ser feito. Portanto, nesta altura já devem ter feito o diagnóstico da situação, a identificação de cadeias de transmissão e a toma das medidas necessárias para cortar a transmissão. Isto tem de ser localmente.

"Não vivemos numa bolha. É bom que estejamos preparados para responder a situações semelhantes que estão a ser vivida sem outros países".

Há países da Europa que atravessam uma situação grave a nível da pandemia, por exemplo a Alemanha. Mas a Noruega, a Dinamarca e a Holanda também e já anunciaram que vão regressar às medidas restritivas. Os eventos desportivos não vão ter público, os restaurantes e bares vão fechar mais cedo e regressa o teletrabalho. Portugal não corre o risco de passar por uma situação assim?

Não vivemos numa bolha. Estamos em permanente contacto com o resto do mundo e, inevitavelmente, o que se passa do lado de lá da fronteira também nos irá afetar. E é bom que estejamos preparados para enfrentar situações semelhantes às que atingem o outro lado das fronteiras. O facto de termos aderido muito à vacinação, de termos a mais alta taxa de cobertura na população, confere-nos uma redução na transmissão e proteção nas formas graves da doença, mas é preciso percebermos que inevitavelmente vamos sentir os efeitos do que se passa do lado de lá da fronteira. É preciso garantir que, por um lado, se mantém as medidas de prevenção, que cada um de nós, individualmente, tem uma boa perceção do risco, mas que os organismos também têm essa perceção. Não sou só eu que tenho de tomar as medidas de proteção, a minha entidade patronal também tem. Isto é fundamental. Só assim conseguiremos, de certa maneira, tirar usufruto de todas as medidas e trabalho anteriores. A pandemia é dinâmica e, mais uma vez, as respostas à pandemia também têm de ser dinâmicas e proporcionais. Temos de ter noção de quando o travão deve ser colocado. Não podemos chegar ao Natal com números elevados, porque corremos o risco de estar a replicar ondas anteriores.

O que mais receia mais neste momento?

Não receio, não tenho medo, mas preocupa-me que a nível nacional esteja a haver um relaxamento de algumas medidas de proteção, que se esteja a desvalorizar a situação que vemos estar a acontecer. A nível mundial preocupa-me muito a iniquidade da vacinação, porque enquanto a população mundial não estiver toda vacinada corremos riscos permanentemente.

anamafaldainacio@dn.pt

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