Suicídios de mulheres estão a aumentar no país

No início do ano três pessoas puseram termo à vida. Os últimos dados a que o DN teve acesso, de 2014, mostram que subiram 24% os suicídios no sexo feminino

Entre quarta e quinta-feira, registaram-se três mortes por suicídio em Portugal, no que foram os casos mediatizados porque pode ter havido mais. Dois deles foram homens com mais de 60 anos e houve uma mulher com 53, a mãe madeirense que matou o filho de 11 com veneno e a seguir se suicidou.

Os últimos dados estatísticos de mortes por suicídio em Portugal, do Sistema de Informação dos Certificados de Óbito (SICO), referem que 1218 pessoas morreram por esta causa em 2014, um aumento de 16% face ao ano anterior. Foram 920 homens e 298 mulheres. Mas a subida de casos no sexo feminino é de assinalar: 24% de aumento face a 2013, segundo os dados preliminares do SICO, a que o DN teve acesso. Por comparação com os registos de "causas de morte" do Instituto Nacional de Estatística (INE), de 2013, em que 241 mulheres morreram por suicídio, houve então em 2014 uma subida para 298 casos. Nos homens, o aumento foi menos notório: de 812 casos em 2013 para 920 em 2014.

O psiquiatra Álvaro de Carvalho, coordenador do Programa Nacional para a Saúde Mental, comentou os números do SICO, sublinhando o "aumento significativo nos suicídios das mulheres, que recorreram também a métodos mais violentos do que lhes era habitual, nomeadamente, a arma de fogo ou o enforcamento". O psiquiatra coordena também o Plano Nacional de Prevenção do Suicídio (2013-2017).

Para Álvaro de Carvalho, a subida de casos entre as mulheres "sugere uma maior situação de desespero e de crise" nas famílias e no país. "Quando as questões passionais se associam ao desemprego e aspetos económicos, isso pode levar a um maior desespero". O psiquiatra lembra que "a perda da casa e o desemprego são as duas principais causas para a motivação para o suicídio". Elogia, por isso, a medida tomada pelo atual Governo" de travar as penhoras das casas nas situações de dívidas fiscais". Na prevenção, recorda que "estão em campo dois ou três projetos de capacitação dos clínicos gerais para o diagnóstico e tratamento da depressão, para se chegar à redução dos suicídios". São projetos que terminam em abril deste ano. "Internacionalmente, os suicídios estão sempre ligados a depressões", sublinha o coordenador do Programa de Saúde Mental.

Portugal "não é a Grécia nem a Irlanda"

José Carlos Santos, do Conselho Científico da Sociedade Portuguesa de Suicidologia (SPS), salienta que, apesar dos fatores económicos, "em Portugal não se pode dizer que tenha havido um aumento exponencial do número de suicídios devido à crise económica, ao contrário do que aconteceu na Grécia ou na Irlanda". E a notação estatística de casos no SICO "é mais fiável por isso era expectável um aumento de casos", sublinha, por sua vez, o psiquiatra Álvaro de Carvalho.

José Carlos Santos destaca que, de acordo com um projeto que a SPS tem nas escolas, "as raparigas são mais vulneráveis e apresentam maior sintomatologia depressiva", tendência que se mantém na idade adulta. Em contrapartida, "as mulheres são mais rápidas a procurar apoio do que os homens e mantêm-se mais tempo em acompanhamento do que eles".

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