Será o tabaco sem fumo o futuro? Governos estão cautelosos

Indústria e especialistas de várias áreas defenderam em Nova Iorque que os produtos de potencial risco reduzido devem ser avaliados como uma possibilidade a oferecer aos fumadores, mas que devem fazer-se mais estudos

Numa altura em que os governos de vários países apertam o cerco ao consumo de tabaco, responsável por milhares de mortes no mundo, a indústria tabaqueira investe em investigação e nova tecnologia que afirma ser a oportunidade de mudança para reduzir os riscos entre os fumadores, ao eliminar a combustão. Ou seja, o fumo, que é o causador da emissão de inúmeras substâncias tóxicas associadas ao desenvolvimento de cancro, doenças respiratórias e cardiovasculares e a mortes precoces.

Cigarros eletrónicos e tabaco aquecido são duas das opções, mas mais produtos estão em estudo. Num encontro que se realizou nos Estados Unidos promovido pela indústria tabaqueira, que juntou especialistas de várias áreas e contou com a presença de um representante da Food and Drug Administration (FDA, sigla original para identificar o organismo que nos Estados Unidos avalia produtos relacionados com a saúde), ficou a pergunta: são estes os produtos do futuro, ou será uma oportunidade perdida?

Oferecer aos fumadores estes novos produtos sem fumo como alternativa de risco reduzido está longe de ser pacífico. No Reino Unido, o sistema de saúde prepara uma campanha para promover os cigarros eletrónicos como alternativa aos fumadores que querem deixar de fumar. Em Portugal, a lei equipara todos estes produtos aos cigarros tradicionais, proibindo o seu consumo em espaços fechados e com impostos iguais. Mas deixa a porta aberta para que no futuro os novos produtos possam ser oferecidos como alternativas menos nocivas aos fumadores que não conseguem deixar de fumar. Tudo depende da Direção-Geral da Saúde, que aguarda estudos realizados por entidades independentes, como a Organização Mundial de Saúde, e a longo termo para tomar uma decisão.

A presença de Mitch Zeller, diretor do centro de produtos de tabaco da FDA, no Fórum Global Tabaco e Nicotina, foi entendida por todos como um sinal de abertura para a discussão dos resultados divulgados pela indústria. A preparar uma revisão da regulação até 2021, referiu que é preciso reduzir as mortes e prevenir doenças prematuras e que é preciso reduzir os risco. "São as outras substâncias e não a nicotina que causam cancro, e com isto não estou a dizer que a nicotina está isenta de riscos [causa dependência]. Mas é preciso corrigir esta informação junto do público, porque senão pensarão que os produtos são todos iguais. Se há uma oportunidade para mudar, queremos apoiar as melhores soluções para os jovens e para os que já são consumidores", disse, referindo-se a produtos com potencial de risco reduzido. "Estamos aberto à investigação da indústria", lembrando que ainda há perguntas sem resposta.

Um dos últimos produtos a ser colocado no mercado é o cigarro aquecido, da Philip Morris International (PMI), da qual a Tabaqueira é subsidiária. "A primeira coisa que fizemos na pesquisa científica foi confirmar que não existe nenhuma componente tóxica no produto que não exista já no cigarro. Todos os dados, até agora, indicam que o IQOS é suscetível de apresentar um risco menor do que fumar cigarros. Antes de chegar a conclusões mais precisas, queremos terminar todos os estudos clínicos que estão a decorrer. É importante para nós sermos claros: o IQOS é melhor opção do que os cigarros, mas não é isento de riscos", disse Tommaso di Giovanni, diretor da comunicação dos produtos sem fumo da PMI, defendendo que "é importante que governos, peritos e indústria em conjunto caminhem no sentido da mudança".

Konstantino Fersalinos, cardiologista apenas dedicado à investigação, é um forte crítico da renitência dos governos e dos organismos de saúde pública em divulgar que há produtos de tabaco com menos riscos. "Todos os estudos sobre exposição ao fumo passivo dos cigarros eletrónicos mostram que o nível de emissões tóxicas são praticamente zero e não há nenhum caso reportado de dano ou doença causada pela exposição ao fumo. No caso do IQOS ainda não existem estudos suficientes para avaliar a exposição ao fumo passivo. Há três meses publiquei o meu primeiro estudo - que é totalmente independente - sobre este produto e encontrei os mesmos resultados que a empresa reportou em relação ao risco. Não existem dúvidas de que os produtos sem combustão tornam o produto substancialmente menos lesivo do que cigarros. Não podemos negar a ciência só porque vem da indústria, mas é claro que temos de continuar a investigar", defendeu, dando o exemplo do Reino Unido, que está a aconselhar o cigarro eletrónico a quem queira deixar de fumar.

David Sweanor, advogado ligado a movimentos de fumadores que processaram a indústria, afirmou que "não é justo que os grupos antitabaco mintam aos fumadores sobre os riscos para os desinformar" e defendeu que "a legislação deve ser proporcional ao risco". "Quanto mais lesivo, mais legislação deve existir. Tratar produtos com risco diferente como se fossem iguais é um problema, porque acabamos por estar a proteger o produto mais lesivo em vez de dar acesso a melhores alternativas. É o que se está a fazer com os cigarros. Quanta mais informação temos de ter para afirmar que os consumidores têm o direito de saber as diferenças de risco? As organizações de saúde têm obrigação de dar informação em vez de desinformar. Penso que, inevitavelmente, haverá responsabilização sobre esta situação."

A jornalista viajou a convite da Tabaqueira

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