Ser pai e mãe é tudo uma questão de organização e feitio

Homem ou mulher têm as mesmas dificuldades quando se é só a cuidar dos filhos, dizem eles e confirmam estudos

Refeições, roupas, idas e vindas da escola e das atividades, fins de semana ocupados na lida doméstica, olhares que indiretamente perguntam: Onde está a mãe? Vida social que praticamente não existe. É assim com os homens que, por qualquer motivo, são os únicos a cuidarem dos filhos. Eles imaginam que será a mesma coisa com as mulheres. Rui Borges vê alguma diferença quando percebe que as mães dos colegas do filho dão boleia aos filhos umas das outras. Luís Gonçalves não sabe tudo da intimidade feminina mas pergunta e não tem temas tabus. É pai de três raparigas; uma na adolescência, as outras duas já a ultrapassaram.

Rui Borges, 53 anos, e Luís Gonçalves, 43, ambos professores. O primeiro de Educação Visual; o segundo do 1.º ciclo do Ensino Básico, atividades que há três anos conciliam com a educação dos filhos sem que as mães estejam por perto. O que obrigou a uma reorganização de toda a vida familiar, a encontrar estratégias de sobrevivência, para não darem literalmente em malucos. Ainda por cima com divórcios litigiosos pelo meio.

"Comecei a ter problemas de saúde, a correr de um lado para o outro, dormia mal, com as aulas durante o dia e as tarefas domésticas durante a noite para que nada faltasse às minhas filhas. Acordar às três da manhã para passar a ferro, para fazer sopa..., entrei em stress. Arranjei uma doença que é a apneia do sono." Relato dos primeiros meses da vida de Luís Gonçalves, quando a mulher saiu de casa e esteve quase seis meses sem aparecer. "Foi uma altura muito complicada para mim."

É "pai do coração", o que significa que as raparigas foram adotadas, três irmãs que entraram na vida do casal há 12 anos. Nove anos depois separaram-se, tinham elas 11, 14 e 16 anos, agora a mais velha é maior e já vive por conta própria. Moravam em Telheiras, em Lisboa , "uma casa enorme para mim, quando elas não estavam eu dormia na sala e fazia a minha vida entre esta divisão e a cozinha", conta. Tinham empregada doméstica e as meninas não estavam habituadas às lidas domésticas. "Eu e a minha ex-mulher sempre fomos muito protetores, fazíamos tudo por elas, levávamo-las a todo o lado."
Com a separação tudo caiu nos ombros do pai e teve de haver mudanças. As raparigas ganharam autonomia; começaram a limpar o pó e a aspirar o quarto, a ajudar na cozinha, até porque a família teve de prescindir da empregada. Também deixaram Telheiras para ir morar para o Barreiro, na habitação que era dos avós paternos. Diminuíram as despesas mas aumentou o tempo de deslocações, já que Luís dá aulas no Colégio São João de Brito e as filhas continuam a estudar em Lisboa.

Gestão ao minuto

"Levanto-me às 05.30, elas às 06.00. Temos de estar na Ponte 25 de Abril entre as 06.35/06.40 no máximo, se for mais tarde significa que estou a atravessar o rio às 07.45 e elas entram às 08.15. Eu entro às 08.30." A viagem de regresso é mais simples e , menos uma vez por semana, começa às 16.30 quando acabam as aulas no colégio. Estão no Barreiro duas horas depois, descongela-se a sopa e faz-se na hora o segundo prato. "As refeições não foram um problema. Sou o rei dos congelados, por exemplo, abro as natas ou o molho béchamel e ponho o resto nas couverts dos cubos de gelo, depois tiro para sacos. Os meus pais são de Proença-a-Nova, trago de lá legumes, limões, corto tudo e meto no congelador. Espremo os limões e meto o sumo nos sacos do gelo. Faço sopa ao domingo e à quinta, divido e congelo", explica. Já fazia as compras para a casa ao sábado, também cozinhava, agora têm uma alimentação mais diversificada e cuidada. As roupas é que são sempre muitas, "muitas cuecas, muitas meias". Para concluir: "O que me custou mais foi mesmo na organização."

Há coisas nas mulheres que não domina, mas ele gosta de ir com as filhas ao cabeleireiro, comprar cosméticos. "Tenho paciência para essas coisas." A última discussão doméstica foi por faltarem os pensos higiénicos, era de madrugada e ele teve de os ir comprar a uma bomba de gasolina. Ralhou-lhes: "Não uso. Não sei quando faltam."

Luís conhece mulheres que vivem sós com os filhos e sente que as dificuldades são as mesmas e que as diferenças estão mais no trabalho ou na situação económica. E têm sido todos muito compreensivos com a sua situação, nomeadamente a entidade patronal e os colegas. "Sempre me facilitaram a vida, nunca me descontaram uma hora, às vezes tinha de sair para as ir buscar, ir ao médico, etc., houve sempre forma de compensar as aulas ou trocar com um colega."

E vida social? "Deixa de existir, faço programas com elas, levava-as sempre, mesmo que fosse para beber um copo com os amigos. Se vou ao cinema arranjo um filme que se adapte a todos." Vive com duas filhas, agora com 14 e 17 anos, que já ficam em casa dos amigos. Também visitam os avós com regularidade. A vida entrou nos eixos. "Quando me separei refugiei-me na música, no trabalho, nos alunos, engordei 15 quilos. Já perdi 12."

Tempos livres sempre a dois

A vida de Rui Borges também está a entrar nos eixos. Embora sempre com a angústia de chegar à escola e não encontrar o filho, como aconteceu após a separação, quando a criança tinha 2 anos. Recuperou o rapaz, agora com 9 anos, e vai fazer quatro anos em janeiro que vivem os dois em exclusividade. A ex-mulher acusou-o de violência doméstica, o que não se provou em tribunal. Ele ficou com a guarda parental.

"Tenho as mesmas dificuldades de uma mãe que viva só com o filho, quando a outra parte não cumpre o estabelecido, quando não dá pensão de alimentos. Tive de me organizar, sempre gostei de cozinhar, também fazia as limpezas . O meu filho é que está muito ligado a mim, mais agora que morreu uma pessoa próxima. Não me deixa ir para lado nenhum, em casa é difícil concentrar-se. Só depois de ele se deitar, e eu sou rigoroso com as horas, vai para a cama às 22.00, mas às vezes estou tão cansado que sou o primeiro a dormir, no sofá." É lá que dorme porque a casa tem só um quarto e esse foi para o filho.
As tardes de sábado em que o menino está nos escuteiros são para limpar a casa, mas entre a ida e a vinda parece que o relógio dispara. A mãe de Rui tem ajudado mas tem 83 anos e começa a ser mais ela a precisar de apoio. "Se for uma urgência posso pedir à minha irmã para ficar com o menino, mas ela também está sobrecarregada. Tem de tomar conta dos três netos". Ou seja, os tempos livres de pai e filho são passados um com o outro.

Rui Borges efetivou-se numa escola de Sintra, muito perto de onde reside. A escola do filho é mais longe, dez minutos de carro.

São 18.30 e Rui vai buscar o filho aos tempos livres, um rapaz bem-disposto, desenvolto a falar e com um bom vocabulário. E que acha "giro" as atividades que tem com o pai, como fazer a árvore de Natal e o presépio. "Considero que é uma criança feliz, muito comunicativa", comenta o pai. Mas pensa que talvez se fosse uma mulher lhe pudesse dar mais mimo. Ou será feitio. "É verdade que, na minha idade, também não éramos habituados a muitos carinhos."

Rui Borges não se sente prejudicado por ser homem, antes pelo contrário: "Há sempre aquela preocupação, pensam que preciso mais de ajuda. Acho que uma mulher podia fazer igual, mas não fazia melhor do que eu." Repetimos: Não há mesmo diferenças? "As mulheres comunicam mais entre si, têm uma maior entreajuda, quando há alguma atividade na escola, vejo logo elas a combinarem quem leva o filho de quem."

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