"Se esperam de nós que os salvemos, não podemos quebrar"

A capitã Ana Lopes comandou uma força da GNR em missão da Frontex, na Grécia. Aprendeu a olhar os migrantes com admiração

Capitã ou capitão Ana Lopes? A conversa começou assim, a descontrair do tema pesado que se seguiria. A oficial, pouco mais de um metro e sessenta, olhos expressivos que não deixam mentir as emoções, comandou uma força de 30 militares da GNR que estiveram na Grécia, numa operação da Frontex. Missão: patrulhar o mar e resgatar migrantes.

Quanto ao sujeito, esclarece Ana Lopes, "o regulamento militar não tem feminino nos postos, pois foi criado antes de as mulheres ingressarem nas forças armadas. Por isso é capitão Ana Lopes. Só não me tratem por meu capitão, como às vezes me acontece. Minha capitão é o correto". Mantemos a "capitã", pois o DN segue as regras da língua portuguesa, e viajamos para a Grécia, para o centro de comando e controlo, no Pireu, onde a oficial esteve três meses. O sorriso de Ana esconde-se e raramente volta a aceder-lhe os olhos durante o resto conversa.

Tem a narrativa bem preparada, fala de como foi importante o "aprontamento" das sessões de psicologia com os cenários dramáticos a serem sistematicamente revistos, da "melhor equipa do mundo" com que trabalhou, das conversas, das opiniões que ouviu, do achar que podia não aguentar a pressão. Tudo conta, mas nada é como estar lá, no meio do mar, a tirar corpos da água. "Nada nos prepara para aquelas imagens", afirma. "Quando, logo no início da missão, houve um naufrágio no qual morreram muitos migrantes, senti o primeiro grande embate. Era mesmo a sério e eu estava ali. Perguntava-me mas quem são estas pessoas que estão a lutar por uma vida melhor, arriscam tudo e acabam assim? Nada nos prepara para aquilo."

Não sente pena nem revolta. "Tristeza, sinto tristeza sem dúvida por estas coisas acontecerem", confessa, reconhecendo que sabia "à partida, que esta missão ia ser muito exigente do ponto de vista emocional." E como se consegue não quebrar, como a Ana, casada, mãe de uma filha, criada em Caldas das Taipas (Guimarães), que deixou um pai de lágrimas nos olhos na estação do comboio quando veio para Lisboa concorrer à Academia Militar, não quebrou?

O sorriso volta de novo. "Porque independentemente de tudo, sabemos que estamos ali com uma missão muito concreta, que é resgatar, salvar aqueles migrantes. É isso que eles esperam de nós. Que os salvemos. E não podemos quebrar", assinala. Muitas vezes não é fácil, "mas contava com um grupo com um enorme profissionalismo, que estava pronto a qualquer hora para o que fosse preciso. Davam todos o seu máximo esforço para conseguir salvar o maior número de pessoas. Sabíamos perfeitamente que um minuto podia ser fatal para salvar a vida de mais um refugiado".

Há situações em que os migrantes dificultam o resgate e é preciso saber lidar com isso. "Sentíamos que a sua atitude era muito influenciada pelas questões políticas que iam acontecendo no mundo, por decisões, por exemplo, contra eles. Ficam desconfiados em relação a nós. Alguns nem queriam parar a embarcação. Para nós é muito importante que confiem em nós. Trabalhámos muito isto no aprontamento. Que os nossos militares não fossem reativos, que tivessem paciência. Comportamento gera comportamento. Se os militares têm uma postura mais agressiva, eles reagem também dessa forma e atiram-se à agua, criam confusão para uma busca e salvamento", revela.

As imagens dos dramas humanos ainda estão na sua cabeça, quase seis meses depois de ter regressado e continuam a espreitar nas suas memórias enquanto estuda para o curso de promoção a oficial superior, que começou a frequentar. Tem pensado em toda a experiência e construiu algumas certezas. "Ouço as pessoas a falar, a dar opiniões, mas eu estive lá, vi. E é muito diferente. O que vi foram pessoas a tentar uma vida melhor, a arriscar a sua vida por isso. Foi o que vi. Sem estar aqui a pôr em causa todos os aspetos policiais envolvidos. Pergunta-me se não me preocupava com a possibilidade de estarem a vir terroristas. Eu digo: algum terrorista merece morrer? Alguma pessoa merece morrer? Essa não é a minha função ali. Se a pessoa está numa situação crítica, naufragada, não sou eu que decido quem vai ou não ser salvo. Esse não é o nosso trabalho. A nossa missão é salvar todos. Depois serão avaliados." Determinada, Ana, a capitã, sabe do que fala.

Na GNR tem-se destacado nas unidades por onde passa. É conhecida por ser firme e ao mesmo tempo meiga e preocupada com os militares que comanda. Está na Guarda porque quis, passou à frente de mais de um milhar de candidatos que concorriam às 37 vagas da Academia Militar. Tem estado sempre ligada à Unidade de Controlo Costeiro, desde 2005, onde comandou o destacamento de vigilância móvel. Participou também diversos projetos e operações da Frontex. Além da licenciatura em Ciências Militares, é também licenciada em Psicologia Clínica.

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