Santa Comba Dão faz contas aos estragos e à luz que não regressa

A escuridão tomou conta da antiga freguesia de Couto do Mosteiro. Desde domingo que não há luz.

Passam das cinco da tarde. Em Couto do Mosteiro, concelho de Santa Comba Dão, perde-se a esperança "de ver os homens da EDP". E de recuperar os alimentos que estão nos congeladores, desligados desde domingo. Na vila há casas que arderam completamente, outras cujos donos fazem contas aos estragos. Novos heróis precisam-se, na aldeia que foi sede de concelho por D. Manuel I e ostenta orgulhosa placas a recordar o seu contributo para derrubar os invasores franceses.

Não há luz em algumas casas do Largo do Pelourinho e noutros lugares da freguesia, agora em união com a de Santa Comba Dão, que as chamas varreram no domingo e na segunda-feira. "Há coisas que não têm explicação. Como é que está tudo ardido e no meio está intacto? Tenho para mim que é o vento que muda. Veja o teto da casa da minha mãe, o telhado ardeu, os quartos arderam, aquela placa de plástico por cima está intacta. Como é possível?"

Rosário Correia, 45 anos, veio do Luxemburgo, tem casa na Portela, também sem luz. Ela, duas irmãs e um neto de Maria Albertina, a mãe de dez filhos, sete vivos, a maioria emigrados. Duas das filhas trabalham nas limpezas e a mais nova é condutora de autocarros. Vêm em agosto e, às vezes, no Natal, deixam tudo desligado. O pior "era as casas arderem". Encontraram-nas intactas. É esta aparente seleção das labaredas que não conseguem compreender. "Parece milagre."

A mãe insiste em contar como tudo se passou: "Eram umas 21.00 de domingo. O meu cunhado disse que havia fogo, fomos ver, estava longe, viemo-nos deitar. Às 23.00 já estava tudo a arder. Ele foi acudir ao barracão, eu fui atrás, mas chegou a uma altura que já não dava para avançar mais. Vim para ali abaixo [aponta] e um vizinho agarrou-me para me levar para Santa Comba Dão. Fiquei lá com a família."

O telhado queimado, a casa ardida às partes, a dispensa vazia, sem água e luz. Num barracão em frente, cebolas e abóboras, batatas, farinha em cinzas, os "pitos mortos (43 bicos)", alfaias agrícolas perdidas, roupas e velharias. E um carro - papa-reformas - reduzido a duas rodas. "Ainda faltavam três anos para o pagar, tirei fotos para enviar. Não o posso pagar, como é que vou pagar uma coisa que não tenho?" Parece lógico para Teresa Cordero, 38 anos, funcionária da câmara, nora do companheiro de Albertina. Ela tem "um segurito", "a minha reforma não dá para mais."

A sua casa fica já ao cima do cabeço, à saída de Couto do Mosteiro. Desce-se e há habitações ardidas na povoação. Sérgio Calixto, 80 nos, ex-funcionário da EDP, e a mulher, Ermelinda Calixto, 76 anos, reformada da função pública, vieram de Almada. Às 08.00 de segunda-feira telefonou-lhe uma prima a dizer que a casa em frente à sua ardera. E uma hora depois avisou que a sua também. "Ainda hoje [anteontem] estava uma viga de madeira a moer, a arder lentamente", conta Sérgio. Recolhem o que podem para não estragar mais. Esperam um empreiteiro que lhes dê o orçamento dos estragos para apresentar ao seguro.

O vizinho Carlos Soares, 63 anos, reformado, com residência principal em Santa Comba Dão, não tem nada para guardar. Só se vê ferro, telhas partidas e entulho. Uma casa de pedra, com muitas outras na aldeia, janelas de madeira, recuperada aos poucos, com gosto e carinho. Os vizinhos confirmam, "um mimo". Não se consegue imaginar que o tenha sido, quem não a conheceu pensará que estaria abandonada.

Como a casa do lado, completamente queimada, cheia de mato em volta e que António Leitão, 65 anos, guarda-noturno reformado, insiste em culpar por este incêndio na aldeia. "Vi o fogo pegar ali e tantas vezes que avisámos às autoridades para cortarem as silvas, dissemos aos bombeiros, à junta, à câmara, e nada." Carlos ouve, faltam-lhe as forças para encontrar culpados. "Sei lá, há aí sítios todos limpinhos à volta e que também arderam."

Não houve carros de bombeiros que combatessem as chamas na aldeia. José Pinto, 54 anos, desempregado, foi um dos três homens que ficaram, com os meios que tinha, para dominar o fogo. Os outros foram levados para Santa Comba Dão. "Isso funcionou bem. Fomos para os bombeiros, depois para a Casa da Cultura, a linha da Beira Alta foi interrompida, os autocarros parados e tudo ali comeu. Mais de 200 refeições", conta António, um dos retirados.

A preocupação de José é a eletricidade que não volta. Por todo o lado há postes ardidos, linhas quebradas, partes da rede elétrica e telefónica danificada.

"Frangos, carne, comida, tudo para o lixo, não há hipótese", lamenta. Logo Rogério Varela, 65 anos, reformado, protesta pela luz que tarda em chegar: "Primeiro era às 10.30, depois a minha filha ligou e passou para as 15.00, o dia está a acabar e nada... Vai tudo para o lixo", lamenta.

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