S. Teotónio e Longueira revoltados por não saberem quantos casos têm

Presidentes das juntas de freguesia que estiveram com cerca sanitária devido às infeções não sabem a atual situação. São Teotónio apresentou providência para desconfinar.

O DN quis saber o número de infetados com covid-19 em São Teotónio e em Longueira-Almograve para fazer o balanço pós a cerca sanitária, que vigorou 14 dias. Contactámos a Direção-Geral de Saúde (DGS); a Autoridade de Saúde do Alentejo e a Unidade Local de Saúde do Litoral do Alentejo (ULSLA), também os ministérios da Presidência e da Saúde. Sem êxito. O que não esperávamos era ouvir dos presidentes das juntas de freguesia envolvidas que também tentaram saber e que "nunca obtiveram uma resposta".

"Continuo sem saber o número de casos que tivemos em Longueira-Almograve. Logo no início, aquando do anúncio da cerca sanitária, enviei emails para a ULSLA a perguntar qual era a situação real, nunca soubemos o número da casos, nunca fomos informados de nada. Só fui uma vez contactada, porque era preciso levar comida a um imigrante. Nunca falaram com a junta, que é quem melhor conhece a população", protesta Maria Glória Pacheco, presidente da Junta de Freguesia de Longueira-Almograve.

O presidente da Junta de Freguesia de São Teotónio ironiza. "Não faço a mínima ideia, tem de perguntar ao Governo." Depois, lamenta: "Como é que vou explicar à população que tivemos uma cerca e continuamos confinados se não sei quantas são as pessoas infetadas? Até hoje, o presidente da freguesia não sabe quantos casos tivemos e ainda temos. Porque é que estamos confinados?"
Ao DN, a DGS justificou que nunca divulgaram a informação por freguesia, apenas por concelho. Esta é a prática que também se deve à privacidade para com os infetados. "Grande privacidade. Tivemos a cerca sanitária há duas semanas, todo aquele filme, com as pessoas a serem levadas de um lado para o outro, um circo mediático, e a população sem conhecer a realidade", critica Dário Guerreiro.

Maria da Glória Pacheco também tem muitas perguntas: "Ainda hoje não sei porque é que foi a cerca sanitária. Por uma questão de saúde pública, mas nem sabemos quantos casos tivemos? Por causa da habitação dos imigrantes, quando era uma situação conhecida? Para acabar com as redes que exploram as pessoas? Se for isso, pode ter valido a pena".

Providência cautelar

O autarca de São Teotónio tem dúvidas sobre a imposição da cerca sanitária e, ainda mais, sobre continuarem com medidas restritivas, ao contrário do que acontece com a generalidade do país. Esta segunda-feira, foi apresentada uma providência cautelar junto do Tribunal Administrativo Sul, em Lisboa, para aliviar o desconfinamento. Significa, por exemplo, que os restaurantes podem estar abertos até à 22.30 e sem a obrigação de venda ao postigo. "Queremos ser tratados como as restantes freguesias de Odemira e do resto do país, não queremos ser discriminados. A própria ministra da presidência [Mariana Vieira da Silva] disse que os casos estão identificados e isolados, que seja feita justiça".

A expectativa é que o tribunal lhes dê razão e que, já esta terça-feira, possam desconfinar . "A cerca não devia ter sido aplicada e foi decidida sem nos informarem. Tivemos 19/20/40 casos? Não sabemos. O Governo não ouve os autarcas que são eleitos democraticamente pelo povo. Como é que podemos explicar a situação?", afirma Dário Guerreiro.

Casos reduziram para 39

Quando foi decidida a cerca sanitária, no Conselho de Ministros de 29 de abril, Odemira tinha uma incidência acumulada a 14 dias de 590 casos por 100 mil habitantes, situando-se no segundo patamar mais grave da pandemia. É de sublinhar que as estimativas da população no concelho, com base nos censos de 2011, indicam 24 669 habitantes. Com os imigrantes e, nesta altura do ano que é a época alta da apanha de frutos e legumes, ascende aos 40 mil residentes.

O dia 19 de abril registou o maior número de infetados com SARSCoV-2, no total de 229 pessoas. Quando a cerca foi aplicada, a 30 de abril, tinha descido para 80 casos, tendo vindo a reduzir. Quando foi levantada, a 12 de maio, o concelho registava 41 infetados. Esta sexta-feira eram 39, além de 90 pessoas em vigilância.

São Teotónio e Longueira-Almograve são as freguesias do concelho com mais casos, segundo a justificação para a cerca sanitária. A primeira tem o maior número de imigrantes; a segunda, de grandes explorações agrícolas, nomeadamente de frutos vermelhos e hortícolas. Os dados concretos da covid-19 das duas freguesias nunca foram divulgados, apenas indiretamente.

Antes de ser anunciado o levantamento da cerca sanitária pelo primeiro ministro, a 11 de maio, o presidente da Câmara Municipal de Odemira, José Alberto Guerreiro, tinha pedido o fim da medida. Justificava que não existiam casos de infeção em Longueira-Almograve e, em São Teotónio, havia "um índice de infeção de 550 casos por 100 mil habitantes", ou seja, cerca de 30 na totalidade.

Longueira-Almograve tem 1356 pessoas nos últimos censos. "São muitos mais, basta ver a quantidade de lixo ", diz Maria Glória Pacheco, o mesmo se passando em São Teotónio. Eram 5527 habitantes em 2011. Segundo Dário Guerreiro, os Censos 2021 ainda não estão concluídos e já contabilizam mais oito mil residentes.

ceuneves@dn.pt

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