Rede de tráfico humano passava por Portugal e cobrava 15 mil euros/pessoa

Informação recolhida junto de albaneses detidos nos aeroportos nacionais foi partilhada na Europol e resultou no desmantelamento de dois grupos criminosos no Kosovo.

As informações conseguidas pelos inspetores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) junto de alguns dos 522 cidadãos albaneses detidos nos aeroportos nacionais nos últimos anos, e partilhadas no seio da Europol - serviço europeu que junta as polícias europeias para partilha e tratamento de informação -, possibilitaram às autoridades do Kosovo desmantelar esta semana duas redes criminosas que se dedicavam ao tráfico humano e à falsificação de documentos. Estes grupos utilizavam Portugal como plataforma para tentar fazer chegar à Irlanda, Reino Unido, Canadá e EUA imigrantes oriundos da Albânia.

Nesta operação, divulgada em comunicado pelo SEF, foram detidas nove pessoas, cumpridos 12 mandados de busca e localizados vários espaços onde funcionavam oficinas de fabrico de documentação falsa, tendo sido apreendido todo esse equipamento.

Segundo as informações disponibilizadas, nesses locais foram encontradas centenas de documentos como passaportes, cartões de identificação e cartas de condução de vários países europeus. Documentação essa que depois era utilizada pelas pessoas que pagavam às redes ilegais de forma a que estas os ajudassem a chegar ao destino pretendido - dos quatro já referidos, Irlanda e Reino Unido eram os mais pretendidos.

Portugal surge envolvido nesta operação devido à recolha de informação que foi sendo efetuada pelos inspetores do SEF nos aeroportos nacionais, por onde estes imigrantes com documentação falsa tentavam transitar para alcançar o destino final pelo qual pagaram às redes criminosas. "Desde 2010 que temos registado ocorrências deste tipo [utilização de documentos ilegais por parte de albaneses], mas a partir de 2012 e, especialmente, entre 2014 e 2020 houve mais registos", explicou ao DN fonte oficial do SEF.

Os principais aeroportos onde foram detetados passageiros em situação ilegal foram os de "Lisboa e Faro, com algumas situações também no Porto, mas também houve casos nas Lajes e Ponta Delgada". Segundo a mesma fonte, entre 2012 e 2020 foram abertos 476 processos-crime relacionados com cidadãos albaneses, envolvendo 522 pessoas. A maior parte desses cidadãos foram julgados em processo sumários e sujeitos a pena de multa e a expulsão do território nacional.

Pagam até 15 mil euros

De acordo com as informações recolhidas pelo DN, os imigrantes apresentaram às autoridades nacionais documentos falsos que os identificavam como cidadãos de Itália, Grécia, França, Roménia, Eslovénia ou Bulgária, numa primeira fase. A partir de 2020 também surgiram documentos da República Checa, Polónia, Eslováquia, Bélgica e Áustria. Tinham sempre bilhete de identidade ou passaporte - incluindo marca de água - e carta de condução. Esta última serviria para "dar maior credibilidade ao passageiro, que assim tinha um outro documento que o identificava".

Estas redes de tráfico humano estão sediadas na Albânia, Reino Unido e Irlanda e usavam Portugal como país de trânsito para os imigrantes que procuravam uma vida melhor e que, por norma, viajavam sem família. Porém, ao chegar ao destino, e se não conseguirem trabalho, muitos podem "entrar na criminalidade, até porque alguns já tinham antecedentes criminais", frisa fonte do SEF.

"O SEF está atento às ligações que vêm dos países identificados [Albânia, Kosovo, Ucrânia, Geórgia, Roménia]", adianta a mesma fonte, que explica ainda que quem tenta estas viagens pode pagar "entre 12 a 15 mil euros", como valores de referência. "Mas depende sempre do tipo de serviço que contrata. Se só compra o documento de identificação não chega a esses valores; se incluir a passagem, alojamento e auxílio na viagem, então pode atingir esses números".

As detenções permitiram ao SEF "recolher informações que levaram à identificação das rotas [utilizadas por estes grupos criminosos] e dos indivíduos" que faziam parte das redes. A 29 de outubro de 2020, permitiu que fosse desmantelado um laboratório de falsificação de documentos, e a 18 de dezembro as autoridades albanesas detiveram dois indivíduos que tinham na sua posse inúmeros passaportes, cartas de condução e bilhetes de identidade falsos. Já as autoridades dos EUA detiveram na ilha holandesa de Saint-Martin (Caribe) uma pessoa já referenciada pelo SEF como facilitador nas viagens".

cferro@dn.pt

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