"Recorrem aos Narcóticos Anónimos quando estão no fundo do poço: prisão, hospital ou morte"

Grupos em recuperação do consumo de substâncias que alterem o estado de espírito reúnem-se em Lisboa. Voltam dois anos depois de estarem impedidos pela pandemia. Testemunhos de quem sofreu com a adição, doença da qual nunca podem sentir-se curados.

Os percursos, idades, géneros e vivências são diferentes, mas têm em comum terem ficado agarrados às drogas. E com a sensação não poder enfrentar a realidade sem consumirem substâncias que alterem o estado de espírito, desde logo o álcool. Alguns conseguem pedir ajuda para recuperar, nomeadamente nos Narcóticos Anónimos (NA). "Normalmente, só recorrem a nós quando estão no fundo do poço, a prisão, o hospital ou a morte", sublinha António, um adicto em recuperação e que pertence à organização da XIV Convenção dos NA de Lisboa.

Chamam à convenção a "festa de recuperação", celebram uma vida sem substâncias químicas. Seja há 30/40 anos ou há dias. É organizada por adictos em cura e o anonimato é fundamental. "É o alicerce de todas as nossas reuniões", explica a Ana (nome fictício), 50 anos, licenciada em Ciências Sociais. Os filhos não conhecem esta página negra, apenas os pais e o irmão, também adito. "É um estigma, se dissesse no meu trabalho que era uma adita em recuperação, tudo mudaria", frisa.

Também faz parte da organização da XIV Convenção, que decorre entre esta sexta-feira e domingo no Fórum Lisboa. A primeira reunião da estrutura foi em 1985 e marcou o início do movimento no país, importado dos EUA, onde começou, em 1953. Alargou-se a 144 nações, entre as quais Portugal, onde são realizadas 140 reuniões semanais.

Encontros fechados, com um coordenador, seguem os 12 passos e quem quer partilha a sua situação. O primeiro passo: "Admitimos que éramos impotentes perante a nossa adição, que nossas vidas tinham se tornado incontroláveis." É, também, fundamental que se faça abstinência de todas as drogas, incluindo o álcool. Além das reuniões fechadas, há abertas.

A recuperação é um processo de autoajuda e não há melhor ajuda que a de um adicto para outro. Há uma identificação. Nos NA conseguimos ferramentas para lidar com os sentimentos e sermos pessoas produtivas.

A última convenção foi em 2019. Com a pandemia também acabaram as reuniões presenciais e foram para a Internet. Voltaram para casa, muitos para os mesmos problemas que os apoquentavam. Com a reabertura do país, regressaram às salas e em força. "A frequência das reuniões está a aumentar, pode ser porque as pessoas estão desejosas de sair ; pode ser porque tiveram este tempo em casa e perceberam o que lhes estava a acontecer", justifica a Luísa ( o primeiro nome), coordenadora da margem sul.

"A recuperação é um processo de autoajuda e não há melhor ajuda que de um adicto para outro. Há uma identificação. Nos NA conseguimos ferramentas para lidar com os sentimentos e sermos pessoas produtivas", explica Ana. Cada pessoa em recuperação tem um padrinho, a quem pode sempre recorrer para desabafar.

"Um programa do presente"

Ana tinha 23 anos e seis de consumos de drogas pesadas quando tentou sair do caminho de toxicodependência. Não sabe qual foi o momento detonador deste processo, apenas que foi levada por uma amiga em recuperação. "Mas continuei a consumir durante um ano, até que um dia decidi parar", diz.

A "droga de escolha" foi a heroína, mas o verdadeiro percurso começou aos 13 anos, quando se iniciou na bebida e nas ganzas. Conta que nos finais dos anos 80 havia "muito pó" no país, tinha ela 17 anos. Aliás, um "adicto sabe sempre onde encontrar as substâncias". Começou a injetar-se, até aos 23.

Fez muitas coisas erradas, mas não se fixa nesse passado. "Este é um programa do presente, não se pode mudar o passado nem prever o futuro, vivemos o presente o melhor que podemos. Fiz muitas coisas que hoje não faria para consumir drogas. Pagava com o meu trabalho, com o dinheiro que roubava a muita gente, também me davam".

Tem dois filhos. Sabe como entrou no mundo das drogas, acredita que fumar haxixe e apanhar bebedeiras podem ser o início da dependência. Mas também sabe que não pode estar sempre ao lado deles a controlar: "Pode ser normal experimentar mas não deixo de lhes dizer que a escalada para a adição é possível, que tudo o que é aditivo não é real, mais tarde ou mais cedo, vai cair sobre nós. Não se pode ser o que não se é e as drogas entram para ser o que não somos".

Carolina tem 18 anos, está há ano e meio em recuperação, são ainda poucas as reuniões presenciais a que foi. É a primeira vez que vai participar numa convenção.

Distúrbios alimentares

As drogas de eleição de Carolina eram o álcool e ecstasy. O seu percurso de consumos cruza-se com o de distúrbios alimentares: anorexia e bulimia. Aos 11 anos começou a focar-se no peso, sempre a pensar na comida, a fazer exercício em excesso". "Quando descobri as drogas, libertei-me daquele pesadelo. Também bebia, os miúdos começam a beber, vão a um jantar e apanham uma bebedeira, é normal".

Acredita que o ambiente escolar também não ajudou. "Era muito restritivo, as pessoas julgavam muito pela imagem, pela roupa cara, pelo peso". E ela sentia-se diferente. Mais tarde mudou de escola.

Começou "a fumar umas ganzas". Aumentavam-lhe o apetite, estava sempre a comer, engordou 30 Kg. Passou a vomitar porque não conseguia parar de comer. "Houve um dia em que bebi muito álcool, não tive fome. Fiz a minha escolha: "Não vou parar de beber." Tinha 15 anos.

O álcool atraiu "companhias estranhas", começou a usar MDM (droga sintética também conhecida por ecstasy). "Não era apenas um problema de comida, a minha cabeça estava numa confusão. Quando comecei a consumir estava em êxtase, comparava a minha vida com a anterior e esta parecia melhor. E também me tirava peso. Através de uma amiga, usei cocaína, foi um choque quando percebi que estava a ficar agarrada". Deixou de consumir drogas pesadas. Fumava haxixe e bebia álcool, "sem ser em doses extraordinárias".

A recuperação é um processo de autoajuda e não há melhor ajuda que a de um adicto para outro. Há uma identificação. Nos NA conseguimos ferramentas para lidar com os sentimentos e sermos pessoas produtivas".

Descambou, bebedeiras quase diárias, voltou ao MDMA. Mutilava-se, tentou o suicídio, provocou muita confusão nas redes sociais. Até que os pais descobriram, através de uma conta encapotada nas redes, onde ela contava tudo o que fazia e consumia. Fizeram-lhe um ultimato, procurou os NA.

À pergunta, como é que os pais podem evitar estas situações, Carolina responde: "Não conseguem evitar, se a pessoa quer fazer uma coisa arranja maneira de o fazer. Os pais devem estar presentes e fazer com que os filhos estejam confortáveis para falarem com eles. A adolescência é um período conturbado, se sentem que não podem falar disso começam a usar drogas."

Perda que não soube lidar

Luísa tem 58 anos e está há 10 em recuperação. Começou aos 12 a fumar cigarros e a beber álcool, foi com essa idade que apanhou a primeira bebedeira. Experimentou charros mas não gostou, "eram muito paradinhos", passou aos speeds (anfetaminas), ao LSD, cocaína, só não tocava na heroína. Até um dia. "Quando toquei, aos 29, não sai de lá. Tinha o acesso facilitado, a tendência para a adição, o meu avô morreu adicto. Desde os 6 anos que sentia algo que não era normal. Tirei um curso de contabilidade e foi essa a minha profissão, comecei a trabalhar aos 23 .Tinha dinheiro e também roubava, usava as drogas que queria. Era camaleónica, tinha a vida que queria", recorda.

Sonhava em viver sozinha aos 25 anos, faltava um mês para os 26 quando alugou uma casa. Apaixonou-se por um rapaz que só fumava charros, "mas houve uma crise" no abastecimento e passaram à heroína, ela tinha 28 anos. Desempregou-se, um ano depois estava a injetar-se. Consumiam de manhã à noite, também traficavam. Acabou a relação e foi para casa dos pais, tinha 32 anos, até que decidiu ir aos NA.

"Quando conheci a Ana estava quase a morrer, o cabelo caía, tinha HIV, não tinha força, iam buscar-me a casa para as reuniões". Dois anos depois voltou a apaixonar-se, deixou de aparecer nas reuniões. "Estava bem e achava que podia controlar sozinha, que era diferente dos outros porque só me tinha agarrado aos 29 anos". Fumava charros e bebia". Hoje sabe que foi uma recaída.

O companheiro morreu de cancro, "Uma perda com a qual não soube lidar". Tinha 43 anos, voltou às drogas, primeiro só à noite, depois ao longo do dia. Não traficava mas havia créditos, a mãe foi pagando. Voltou a ficar agarrada, a estar no fundo do poço, regressou aos NA. Soma dez anos sem recaídas.

Aparentemente sem razões

António, 48 anos, oriundo de uma família com rendimentos, está ligado às artes. Está há 13 anos em abstinência total. Nem fuma cigarros, o vício de grande parte dos adictos em recuperação. Faz parte de uma família numerosa, um percurso muito familiar, frequentou "grandes escolas e colégios", sem problemas de aprendizagem. Aparentemente, não encontra causas para o consumo de drogas. "Mas, olhando em retrospetiva, tenho consciência que a minha doença de adição foi manifestada muito cedo, tinha 6/8 anos, fazia muitas birras, não aceitava ser contrariado, mentia sem necessidade".

Os amigos eram mais velhos, começou a beber aos 12/13 anos e com os charros aos 14/15. "Gostava de forma como me sentia alterado, eufórico, passei a fumar e a beber mais diariamente", explica. Eram os anos 80 do século passado, "em que o consumo de drogas era grande. Tomei contacto com a heroína e era como se tivesse entrado numa nova realidade. Tinha encontrado a solução para os problemas". Mau comportamento, conflitos, também com a família. Tinha 16 anos.

Comprava a heroína com as mesadas, roubava em casa ou na rua, artigos que vendia na Feira da Ladra, traficava, uma escalada muito rápida para o abismo. "As coisas estavam mais ou menos equilibradas enquanto a droga era fumada, a partir do momento em que comecei a injetar-me, aos 17, foi como se me tivesse atirado para um precipício, precisava de consumir cada vez mais para obter a sensação inicial".

A família descobriu, os pais fizeram-lhe um ultimato. Ir para uma clínica de desintoxicação no estrangeiro ou sair de casa e ficar por sua conta. Entrou com 18 na clínica, saiu nove meses depois, foi às reuniões dos NA. Esteve quatro anos em recuperação, licenciou-se em História da Arte, seguiu com a vida. Estava confiante, foi perdendo o contacto com as reuniões, achou que já não precisava. Depois, pensou que podia beber, mais tarde fumar haxixe, passou à cocaína e às pastilhas, rapidamente voltava a heroína. Esteve em processo de recaída entre os 22 e 35 anos.

"Foi quando fiz mais estragos e que tive as consequências mais severas, não só para mim como para a minha família, tive problemas com a justiça, situações dramáticas. Ainda hoje tem um peso emocional, penso onde poderia estar se não tivesse tido este percurso, mas também tenho a consciência que esse é o meu percurso e só sou responsável pelo que faço hoje", recorda António.

Tem um filho, um rapaz de 17 anos. "A coisa mais linda que tenho na vida. Veio viver comigo quando entrou no secundário, tenho mais disponibilidade para o acompanhar. Consigo proporcionar-lhe uma vida estável". Perguntamos: "Como é que se consegue que não tenha o mesmo percurso? É pelo exemplo. O meu filho sabe que o pai teve problemas e, agora, faz desporto, não bebe, não fuma, não toma qualquer substância que altere o seu estado comportamental e que utiliza uma ferramenta na comunidade para ultrapassar o passado".

ceuneves@dn.pt

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