Quase três quartos dos trabalhadores jovens não vão além do secundário

O número de pessoas com mestrado a trabalhar em empresas mais do que quadruplicou numa década. Os doutorados mais que duplicaram e os licenciados subiram 52%.

A geração mais qualificada de sempre, como é habitualmente descrita, continua a chegar ao mercado de trabalho, sobretudo, com habilitações que não vão além do ensino secundário. Segundo os últimos quadros de pessoal disponibilizados pelo Ministério do Trabalho, relativos a 2020, quase três quartos dos jovens trabalhadores por conta de outrem no setor privado não frequentaram o ensino superior.

Os dados, de um retrato feito em outubro já depois do primeiro grande impacto da pandemia, surgem beneficiados, ainda assim, pela expressiva quebra de emprego que houve entre os trabalhadores mais novos - e, acima de tudo, entre aqueles que têm as mais baixas qualificações. Esse fator explica em grande parte a melhoria de habilitações ocorrida nos jovens face a 2019, apesar de ter havido subidas entre jovens trabalhadores com mestrados ou cursos técnicos.

A percentagem de jovens entre os 18 e os 34 anos que em 2020 integrava o mercado de trabalho sem ter frequentado qualquer nível do ensino superior era de 72,8%, segundo cálculos do DN/Dinheiro Vivo a partir dos números divulgados pelo Ministério do Trabalho. Compara com uma percentagem de 74,3% em 2019, regredindo assim 1,5 pontos percentuais.

Esta evolução ocorrida no ano da pandemia, e grandemente justificada pela perda de postos de trabalho, representa sensivelmente um quarto de todo o progresso nas qualificações dos jovens empregados ocorrido ao longo da última década. Em 2010, a percentagem destes trabalhadores sem habilitações superiores estava em 79,2%, tendo recuado 6,4 pontos percentuais desde então.
Saída do mercado de trabalho

A percentagem dos mais qualificados, que frequentaram no mínimo um curso técnico de nível superior, subiu neste período de 21% para 26,7%, melhorando 5,7 pontos percentuais. Já em 2019 o peso dos mais qualificados no emprego jovem era de 25,2%. Há ainda um número significativo de trabalhadores mais novos - 0,5% do total em 2019 e 2020 - cujo nível de habilitações é desconhecido nos dados produzidos com a informação do relatório único que é entregue todos os anos pelas empresas.

Em outubro de 2020, havia 927 670 trabalhadores entre os 18 e os 34 anos de idade, um universo que a pandemia reduziu em 4,2%, com menos 40 773 jovens empregados. Mais de metade da redução é explicada com o afastamento do mercado de trabalho daqueles que tinham apenas o 9.º ano do ensino básico. Eram menos 22 204, ou menos 9%, do que em 2019.

O segundo grupo com maior redução foi o dos jovens com o ensino secundário, contando menos 16 304 trabalhadores, ou menos 4%, seguido daqueles que tinham apenas concluído o segundo ciclo do ensino básico, com menos 4890 jovens trabalhadores, ou menos 11%, comparando com um ano antes.

As descidas foram praticamente transversais aos diferentes níveis de habilitações dos trabalhadores mais novos, mas com algumas exceções. Face a 2019, aumentaram os jovens trabalhadores com mestrado, sendo mais 3039, ou mais 6%, e também os jovens com cursos técnicos superiores, que eram mais 283, ou 37%.

Mas, também cresceram as qualificações mais baixas. Os trabalhadores entre 18 e 34 anos que não concluíram o primeiro ciclo do ensino básico aumentaram 6,5%, sendo mais 114 que um ano antes. Cresceu também em 0,8% o grupo de trabalhadores mais novos que terminou mas não foi além deste nível de ensino, sendo mais 146.

Menos de 10 mil doutores

Por outro lado, o ano de arranque da pandemia encolheu ainda ligeiramente o pessoal jovem empregado com bacharelato, licenciatura ou doutoramento. Os trabalhadores com bacharelato nestas idades diminuíram 1,6% (menos 164), e aqueles com licenciatura recuaram 0,3% (menos 454). Os doutorados jovens também caíram 1,3%, sendo menos 25.

Naquele que continua a ser um país com menos de dez mil doutorados aos serviços das empresas, são relativamente poucos aqueles que obtêm esta habilitação e a aplicam enquanto trabalhadores por conta de outrem antes dos 34 anos. Eram apenas 1872, em 2020, após a descida verificada.

O grupo mais numeroso dos doutorados nacionais tem entre 35 e 44 anos, tendo somado mais 9% de trabalhadores em 2020, passando aos 4253. A segunda geração de doutorados mais numerosa é aquela que se situava entre os 45 e os 54 anos, com 2234 profissionais.

Ao todo, em 2020, as empresas a operar em Portugal contavam com 9539 trabalhadores habilitados com um doutoramento. Apesar de reduzido, o número representa mais do dobro do universo de doutorados que existia uma década antes. Em 2010, eram apenas 4311.

Este é o segundo grupo de habilitações que mais aumentou no conjunto do emprego privado de todas as idades. O primeiro é o dos trabalhadores com mestrado, que em dez anos mais do que quadruplicou, chegando ao número de 83 510. Já os licenciados aumentaram 52%, sendo 170 060 nos quadros de pessoal de 2020.

Maria Caetano é jornalista do Dinheiro Vivo

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