Quando Trump contra Clinton se torna um assunto de família

Não consegui ficar em silêncio por mais tempo. "As eleições estão a ficar uma loucura", escrevi-lhe numa mensagem. "Tenho de perguntar. Tu apoias o Trump?" A resposta veio rapidamente: "Querido irmão, tu e eu não vamos discutir política"." Uma resposta assustadora, sem dúvida. A resposta foi um coração vermelho.

No início do ano passado, atravessei a Florida para visitar a minha irmã. Ela não sabia que eu ia. Na verdade, ela não sabia que eu existia.

A mãe que me adotou quando eu era bebé e me criou em Baltimore tinha morrido há alguns anos. Aí descobri que a minha mãe biológica também tinha morrido. Ela tinha vivido na Florida, como se estivesse à minha espera quando me mudei para West Palm Beach após a faculdade, há duas décadas. Mas eu só soube disso depois de ela morrer. Nunca nos conhecemos.

Depois descobri, com uma mistura de pesquisa e de sorte, que a minha mãe biológica tinha tido uma filha cinco anos depois de eu ter nascido, o que significava que tinha uma irmã biológica que também vivia na Florida, a apenas três horas de distância. Não podia deixá--la escapar, também.

Enquanto conduzia pela Florida interior com as suas canas-de-açúcar e palmeiras dispersas, sentia-me tão nervoso que até tinha náuseas. Sabia que estava mais perto do que nunca de um potencial encontro, mas também que estava mais perto do que nunca de uma potencial rejeição.

Estava nervoso, também, devido a um vago pressentimento. Com um pouco de pesquisa online tinha percebido que tínhamos as nossas diferenças. Ela era uma republicana filiada. Eu sou democrata. (O Facebook rotula-me mesmo como muito liberal.) Ela teve um filho quando era adolescente, e eu só casei e tive filhos aos 30 e poucos anos.

Com as pernas bambas, percorri o caminho de entrada da casa dela e bati à porta. Ninguém respondeu, e eu deixei uma carta com uma fotografia minha e da minha família.

Na noite seguinte, o meu telemóvel tocou. Ela soava desconfiada, mas o seu tom depressa passou a cordial.

Poucos dias depois encontrámo-nos num parque, a meio caminho entre as nossas casas. A sua afetuosidade surpreendeu-me. Ela deu-me um "olho da sorte" grego, uma bugiganga de vidro simbolizando os nossos laços de sangue. Durante toda a vida tinha absorvido as etnicidades, irlandesa e polaca, dos meus pais adotivos. Agora, eu tinha uma etnicidade própria.

Olhei para aquele olho estranho na minha mão. "Então, isto deseja o mal às pessoas?"

"Não", respondeu ela. "Ele vê o mal e afasta-o."

Ela havia feito sanduíches gregas para o almoço e preparado um álbum para mim, cheio de fotografias da nossa mãe. Agora eu sabia de onde vinha o cabelo encaracolado do meu filho mais velho. Ela até me escreveu um poema.

Cada um de nós tinha um irmão cuja vida tinha corrido mal: ela, uma irmã, eu, um irmão. E ambos tínhamos uma maneira direta de falar que algumas pessoas podiam considerar abrupta, uma característica que vi como uma peça do quebra-cabeça genético que tinha encontrado o seu lugar.

Mas em relação a outras coisas fundamentais nós divergíamos. Ela não tinha tirado um curso superior; tinha um porco de estimação chamado Link. Para mim, um tipo da cidade, a ideia de ter um porco como animal de estimação pareceu-me caricaturalmente rural.

A nossa conversa tocou ao de leve na política, e ela referiu-se a Barack Obama como o "nosso presidente muçulmano". O comentário atingiu-me como um soco no estômago. Eu disse-lhe, da forma menos combativa possível, que ele não o era. Ela não cedeu. Deixámos cair o assunto.

Pedimos a alguém que nos tirasse uma fotografia: eu, com o meu cabelo curto e escuro e os meus óculos de totó, ela com os seus caracóis indomáveis e os seus óculos escuros. Na fotografia, o sorriso dela é aberto e radioso, a imagem da sua felicidade. Eu estou de boca fechada e um sorriso inescrutável. Mais tarde, ela deixaria transparecer que aquele meu sorriso a dececionou.

Mas, ao longo das semanas seguintes, o nosso novo vínculo fraterno apagou as nossas diferenças. Mandávamos mensagens um ao outro como adolescentes viciados. Ela fez comida grega caseira para a minha família quando a fomos visitar. Quando ela disse que eu era o seu "novo e brilhante irmão", quase desmaiei.

Então, um dia, ela mandou-me uma mensagem com uma imagem chocante de um autocolante de propaganda: "Uma 9 mm ganha sempre ao 112."

Eu pisquei para a minha tela. "A propósito, tu és uma defensora das armas?", perguntei. "Já agora posso ficar a saber, lol."

Ela respondeu que tinha licença de porte de arma e, em seguida, perguntou se eu alguma vez tinha ido "a uma carreira de tiro".

Fiquei a ponderar no assunto. "Elas às vezes são necessárias, em certos contextos", respondi. "Mas, no contexto de eu ter uma na mão, acho que é um mau contexto para uma arma, lol."

"A sério que não é nada do outro mundo!", disse ela.

Eu não suporto armas. Não acho que seja inteligente ter uma arma em casa para autodefesa, e não só porque os meus rapazes têm 5 e 2 anos, respetivamente. Eu não entendo porque é que alguém haveria de querer disparar uma arma para se divertir. Para mim, elas são o símbolo da brutalidade.

A nossa enxurrada de mensagens ficou reduzida apenas a fotografias de jantares românticos e a selfies ocasionais com os nossos filhos e cônjuges. Ela continuou a treinar-me para sorrir mais abertamente. Eu disse que iria esforçar-me mais. Como a temporada das primárias para as eleições presidenciais estava a ficar cada vez mais feia, evitávamos a política.

Há seis meses ela disse-me que tinham comprado uma casa prefabricada num terreno de três hectares, numa pequena cidade no norte da Florida, uma parte do estado ainda mais conservadora do que aquela onde tinham vivido até então.

Ela sempre tinha querido mais terra, e eu estava feliz por ela. Mas também vi aquilo como um aumento da nossa separação, uma rejeição do estilo de vida da amálgama urbana que eu sempre tinha adotado. Ao mesmo tempo, desejava vê-la mais vezes, e agora ela estaria duas horas mais longe. A notícia partiu-me o coração.

Comecei a brincar, numa tentativa mal disfarçada de levá-la a reconsiderar, dizendo que aquilo lá seria tão calmo que ela iria "ser capaz de ouvir um pum de um rato a dez quilómetros de distância".

Mas ela mudou-se na mesma.

E como as notícias eram dominadas pelos comícios em que a retórica do ódio e da irritação dominavam, comecei a ficar preocupado de novo: será que a minha irmã apoia isto?

Não consegui ficar em silêncio por mais tempo. "As eleições estão a ficar uma loucura", escrevi-lhe numa mensagem. "Tenho de perguntar. Tu apoias o Trump?"

A resposta veio rapidamente: "Querido irmão, tu e eu não vamos discutir política."

"Uma resposta assustadora, sem dúvida."

A resposta foi um coração vermelho.

"Bem, seja o que for que faças, espero que estejas muito, muito atenta."

"Idem", respondeu ela. Outro coração vermelho.

Eu disse-lhe que, se nós discutíssemos o assunto, talvez pudéssemos acabar a saber mais um sobre o outro. Por agora teria de presumir que ela apoiava Trump.

Ela disse-me para não presumir nada, mas não deu mais detalhes. "Durante o último ano foste ficando cada vez mais importante para mim", escreveu. "Não vou estragar isso. Bjs." Outro coração vermelho.

Não me atrevi a voltar a puxar o assunto da política. Mas não conseguia deixar de pensar sobre ele. Receava que uma ligação que eu tinha desejado a minha vida inteira, a minha única ligação com as minhas raízes maternas, estivesse agora refém da política.

Será que eu iria realmente permitir que estereótipos moldados por debates políticos radicalizados sabotassem a minha relação com a minha própria irmã, que me alimenta como uma mãe-coruja e me protege com um "olho da sorte" grego? O que interessa a sua visão do mundo quando a sua visão de mim só demonstrou conter generosidade e carinho?

Ficámos em silêncio durante cinco dias. Então ela enviou-me uma imagem de um gato com óculos.

"Lol, esse gato sou eu!", respondi.

No fim desse mês conduzi através de estradas rurais, passando por tapetes de impetuosas flores silvestres vermelhas e uma loja com uma bandeira da Confederação hasteada, até que, finalmente, percorri uma estrada de terra e cheguei à sua casa isolada.

Fui recebido, como sempre, com um abraço apertado. Entreguei-lhe as minhas flores habituais. Ela mostrou-me uma pequena horta que tinha começado com a filha e levou-me até à nova e espaçosa cerca do seu porco. Enquanto o acariciava, ele mordeu o meu pé. Foi inofensivo, mas eu assustei-me e dei um salto para trás, o que nos fez rir aos dois.

Ela fez-me uma visita guiada pelo resto da arborizada propriedade. Vistas da estrada, as árvores pareciam densas. Mas, uma vez entre elas, fiquei surpreendido ao descobrir que havia muito espaço para caminhar. Achei o silêncio tranquilizante e não opressivo.

"Percebo porque é que adoras este sítio", disse-lhe eu.

Eu sempre tinha querido um irmão que fosse uma alma gémea. Em vez disso, encontrei uma irmã que tem visões opostas às minhas e cuja observação sobre o "presidente muçulmano" me persegue até hoje. Mas também tenho uma irmã que não tem sido outra coisa senão gentil e generosa comigo ao longo dos quase dois anos em que nos conhecemos, e eu amo-a.

Nem sempre se consegue resolver as divergências com a família. Apenas podemos sentir-nos gratos pelo bem e tentar não o perder.

O filho dela, de 20 anos, chegou naquela noite. Ele é mais parecido comigo do que qualquer outra pessoa que eu já conheci, incluindo os meus próprios filhos. Pediu-me que vestisse as mesmas cores que ele para maximizar as nossas semelhanças quando tirássemos uma fotografia.

Quando a minha irmã levantou a máquina fotográfica, eu fiz um sorriso aberto e cheio de dentes. Eu esperava que fosse suficientemente radioso desta vez, para combinar com o dela.

Tom Collins é escritor e vive em West Palm Beach, Florida, escreve num blogue, mypretentiousballoon.com, e está a trabalhar num livro de ensaios sobre adoções, reencontros e outros acontecimentos na meia-idade.

Exclusivo DN/The New York Times

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