"Quando a minha filha mais nova nasceu eu voava numa volta ao mundo e estava na Nova Zelândia. Um sofrimento"

Brunch com o piloto da euroAtlantic Airways a bordo de Boeing a caminho de Timor-Leste.

Do cockpit, apesar do lusco-fusco, avistam-se já algumas ilhas indonésias vizinhas de Timor-Leste e não tardará muito, mal nasça o dia, estaremos a aterrar em Díli. "Com esta é a quinta vez que voo até Timor durante a pandemia. Estive cá ainda antes, a primeira vez de todas, em 2008, quando fiz quatro voos para transportar tropas internacionais para Baucau, e depois voltei em 2012 para trazer o contingente da GNR, dessa vez para Díli. Com a pandemia, vim primeiro em abril do ano passado, numa missão especial já com o mundo à mercê da covid-19", conta o comandante Mário Alvim, aos comandos do Boeing 767-300ER da euroAtlantic Airways que em 22 horas, incluindo uma escala para reabastecimento no Dubai, liga Lisboa à capital timorense.

E de imediato me relembro da entrevista que lhe fiz quando regressou dessa ida a Timor em abril de 2020 para repatriar uns 200 portugueses que receosos da covid-19 desesperavam por regressar a casa. A emoção na época foi tremenda, também para os próprios timorenses, que sentiram que apesar de tudo não estavam isolados do mundo. O título dessa entrevista foi "Quando em Timor viram um avião português foi um alívio, um aconchego".

Uma viagem tão longa de avião (são cerca de 15 mil quilómetros entre Portugal e Timor-Leste) exige uma complexa logística e várias tripulações, por causa das horas de descanso. A Mário compete o troço final, e a sua experiência é decisiva tendo em conta as reduzidas dimensões do aeroporto de Díli. E foi na tal escala no Dubai, um dos sete Emirados Árabes Unidos, que se juntou à pequena delegação que acompanha João Soares numa visita de reencontro com os timorenses. Enquanto presidente da câmara de Lisboa, João Soares financiou a reconstrução do antigo Liceu de Díli, destruído durante a retirada das tropas indonésias, depois do referendo de 1999 organizado pela ONU que devolveu a antiga colónia portuguesa aos timorenses. Agora, além de rever velhos amigos, como o Nobel da Paz Ramos Horta, também vem defender o apoio à continuidade das ligações aéreas diretas pela euroAtlantic, que considera benéficas para a relação luso-timorense.

Antes da nossa conversa no cockpit, o comandante cumprimentou João Soares, que não conhecia pessoalmente, e fez questão de relembrar uma condecoração da Ordem de Mérito que o pai de um, o antigo presidente Mário Soares, tinha dado à mãe do outro, a professora Maria da Conceição Alvim de Faria, criadora da primeira Escola Portuguesa em Angola. "Para a minha mãe, que agora tem 82 anos, foi um reconhecimento muito importante e eu não podia deixar, de certa forma, de agradecer", diz Mário, de 55 anos, enquanto bebe um café, afinal esta rubrica do DN chama-se Brunch com. Também eu bebo um cafezinho, que me ajuda a despertar.

A infância de Mário foi, de facto, passada em Angola, onde o pai, a cumprir serviço militar como comando, conheceu uma jovem professora e a paixão resultou em casamento. "Somos sete irmãos", sublinha, com orgulho, o veterano piloto da euroAtlantic. A família, com raízes no Norte (pai do Porto, mãe de Braga), acrescenta, continuou alguns anos a viver em Luanda mesmo depois da independência em 1975, e daí o projeto da Escola Portuguesa de Luanda. "Fiz o antigo sétimo ano em Angola e só depois vim para Portugal para fazer o curso de piloto. Depois voltei a África para ser Bush Pilot", conta.

Curiosamente, o outro comandante no cockpit, José Afonso, de 54 anos, também nasceu em África, no caso em Moçambique, e tal como a família de Mário, também a dele ainda viveu algum tempo no país depois da independência, vindo depois para Braga, apesar das raízes serem de Montalegre. Antigo militar, esteve ao serviço da Força Aérea Portuguesa em Timor nos tempos complicados em redor da reproclamação da independência (houve uma primeira em 1975, antes da invasão indonésia). Mas não a pilotar aviões, para surpresa minha: "Vim em 2000 para pilotar os Alouettes, os helicópteros da Força Aérea naquela época". Claro, explica-me, que não veio de Portugal a voar, pois as aeronaves vieram num Antonov ao serviço das Nações Unidas. Tendo trocado os helicópteros pelos aviões quando passou a civil, já esteve de novo em Timor bem recentemente (este é o quarto voo) e destaca como Díli se reconstruiu e nada já se parece com a cidade em ruínas que viu há duas décadas. "Tenho fotos aéreas da destruição. Impressionam", diz. Hoje as relações entre Timor-Leste e a Indonésia são classificadas pelos dois lados como excelentes, mas a atribulada descolonização portuguesa em 1974/1975, somada ao contexto de Guerra Fria em que os Estados Unidos não admitiam o surgimento de um novo país marxista logo no ano do desfecho negativo no Vietname, originou a invasão com luz verde dos americanos e duas décadas e meia de ocupação violenta.

Mário conhece bem a história de Timor-Leste, afinal como a generalidade dos portugueses sempre esteve solidário com a causa encarnada por Xanana Gusmão, Ramos Horta, o bispo Ximenes Belo, Mari Alkatiri (que também acabou por receber João Soares e ouvir a sua defesa da ligação aérea) e tantos outros e por isso diz sentir sempre uma emoção especial ao aterrar em Díli. "Nunca me esqueço daquela viagem no início da pandemia em que quase não se voava. E como foi importante para tanta gente virmos aqui. Foi uma operação de repatriamento da qual me orgulho muito", sublinha o comandante, para depois me explicar que sendo este 767-300ER o maior avião comercial que aterra em Dili, no aeroporto Nicolau Lobato (líder do efémero processo independentista em 1975), há que ter em conta, além das reduzidas dimensões da pista e da área onde o aparelho tem de dar a volta, também a resistência do piso, e por isso, no regresso, com o avião quase cheio, evita-se atestar o tanque de combustível, fazendo-se depois um reabastecimento em Kuala Lumpur. Também a equipa envolvida é reforçada para esta ida e volta a Timor: seis pilotos, 16 elementos do pessoal de cabina e dois técnicos de manutenção. Ao todo, uma tripulação de 24 pessoas.

Estes números podem impressionar um leigo, mas para um piloto habituado a ir aos aeroportos mais difíceis do mundo, como Cabul e Catmandu, são sobretudo sinónimo de segurança máxima/risco mínimo. Companhia portuguesa, a euroAtlantic assegura algumas rotas regulares, como as ligações entre Portugal e a Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, mas sobretudo os seus aviões fazem desde transportes de tropas de várias nacionalidades até ao transporte de peregrinos muçulmanos para Meca. "Mais de 700 aeroportos e 168 Países", realça o comandante Alvim. "E sempre com a bandeira de Portugal", acrescenta. Por isso, o tom emotivo com que lamenta que, por exemplo, os professores portugueses em Timor-Leste usem outras companhias aéreas estrangeiras, com ligações que podem implicar três aviões diferentes e longas horas de esperas nos aeroportos. O pretexto do preço mais barato da concorrência é invocado, mas Mário contra-argumenta: "O voo da euroAtlantic não implica mudança de avião, demora menos de um dia, e além de permitir levar em classe económica até duas malas com 23 quilos, estas não correm risco de ficar pelo caminho". O objetivo da delegação da euroAtlantic é alertar as autoridades timorenses para a importância da ligação e também alertar as portuguesas. Mário, que integrou o grupo que seria recebido pelo primeiro-ministro Taur Matan Ruak, não deixa de questionar "os subsídios de milhões à TAP e toda a conversa da companhia de bandeira e esquecem-se de que também nós somos uma companhia portuguesa ".

Fundada em 1993 por Tomás Metello com participação do Grupo Pestana, a euroAtlantic (assumiu este nome em 2000) tem hoje acionistas estrangeiros, mas a gestão continua portuguesa, com o CEO a ser Eugénio Fernandes, com longa história na empresa. Também Mário, que além de piloto é hoje administrador da euroAtlantic Airways, é aquilo que se pode chamar um histórico da companhia aérea. E ainda se recorda de quando compraram o primeiro avião, um Lockheed.

Casado, Mário tem três filhas. Sabe bem a vida que tem e os sacrifícios que exige à família. Não poupa elogios à dedicação da sua mulher, por compreender as exigências da profissão, as ausências e os riscos. Também ele sente muitas vezes falta daqueles que lhe são os mais queridos (ou queridas) de todos (todas). "Quando a minha filha mais nova, que tem hoje 18 anos, nasceu eu estava nos antípodas. Na Nova Zelândia. Responsabilidades laborais. Mais longe não podia estar dela. Imagine como isso custa. Um sofrimento", conta. Está na hora da aproximação à pista. E de eu sair da cockpit, onde são tantos os botões e as luzes que sorrio quando Mário me assegura que até é fácil pilotar. O aterrar e descolar ao princípio do dia é para evitar as altas temperaturas de Díli, pois "quanto menos calor melhor a performance do avião". Diz-me ainda o comandante Alvim para reparar nos muitos timorenses que hão-de estar junto ao aeroporto para ver o avião português. O maior que ali aterra. "Gostam do espetáculo, e também virão ver a descolagem".

leonidio.ferreira@dn.pt

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