Professores com centenas de alunos. "Como se avaliam 500 jovens?"

Docentes falam em "ensino em linha de montagem", onde os estudantes são os mais prejudicados. Muitas turmas e poucas horas de aulas fazem com que haja professores que nem sabem o nome de todos os alunos.

Mais de oito níveis, duas disciplinas (TIC e Cidadania), 24 turmas, cerca de 500 alunos. Foi esta a realidade vivida no ano letivo passado pela professora Isabel Moura. A situação repete-se um pouco por todo o país, principalmente com os docentes que lecionam Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC). "A maior dificuldade foi não ter conseguido conhecer os meus alunos. As relações interpessoais estabelecidas não foram as desejáveis num processo de ensino aprendizagem, que se pretende focado no aluno. Apenas nos víamos uma vez por semana durante 45 minutos, para termos uma aula prática que, além de em termos de trabalho realizado pouco rendia, quando chegávamos à aula seguinte já ninguém se lembrava daquilo que tinha sido realizado na semana anterior", explica ao DN. Isabel Moura diz tratar-se de uma situação "desumana".

"Por muito que se dedique e goste da sua profissão nunca vê as suas tarefas chegadas ao fim. Por outro lado, os alunos merecem aprender com qualidade e ter um professor disponível, atento e que os conheça. Educar sem afetos e sem tempo não é educar, é passar informação", sublinha. Segundo a professora, as alturas de avaliações (correção de testes e reuniões de conselhos de turma de final de período) são "as mais difíceis". "É uma loucura. Como se avaliam cerca de 500 miúdos, com cinco ou seis aulas dadas e quase sem elementos de avaliação? As dúvidas são imensas e a sensação de poder estar a ser injusta é muito má. O número de horas gastas para avaliar tantos alunos e em tantas disciplinas é desgastante. Estar presente em tantos conselhos de turma de avaliação é extenuante. São os dias todos destinados às reuniões (entre 3 a 5 dias), de manhã à noite sempre a trabalhar e sem sequer conseguir preparar cada reunião como cada turma merece", relembra. A solução, conta, passa primeiro pela "vontade de resolver o problema" e uma "mudança da legislação".

"Os professores deviam ter no máximo seis ou sete turmas e não mais do que quatro níveis (disciplinas/anos) diferentes para lecionar, deviam acabar com a divisão entre tempos letivos e não letivos. Os tempos (agora chamados de não letivos) para preparar aulas, realizar avaliações, realizar reuniões, fazer trabalho colaborativo, realizar todo o trabalho burocrático, devia ser proporcional ao número de turmas e ao número de níveis, pois um professor com mais turmas precisa de mais tempo para fazer todas as outras tarefas", refere.

Isabel Moura acredita ainda que seria possível "reduzir o número de turmas "se se concentrassem dois tempos no 5.º ano ou no 6.º em vez de um tempo em cada ano". "No 3º ciclo dois tempos no 7º ano e dois tempos no 9º, pois justifica-se mais carga horária a TIC tendo em conta a iliteracia digital ainda existente", conclui.

Acumulam funções com apoio informático
às escolas

Ao DN, um professor de TIC da Grande Lisboa que não quer identificar-se relembrou "os outros papéis assumidos pelos professores". "Tenho cerca de 26 turmas (toda a escola) desde o 5.º ao 9.º ano. Tenho de lecionar em cinco níveis diferentes, aos quais são acrescidos cargos, como uma direção de turma e Apoio TIC (o chamado desenrasca das escolas), e o apoio aos colegas que apresentam as mais diversas dificuldades a nível informático (o técnico de serviço) e agora a nova equipa de Projeto de Ação ao Desenvolvimento Digital da Escola", esclarece.

O docente, com 600 alunos, fala num "ensino tipo linha de montagem, despersonalizado e mesmo desumanizado". "Trabalho com inúmeras tabelas de Excel para recolher evidências para tentar ser o mais justo possível na avaliação de cada um dos meus alunos. A quantidade de horas que perco em casa, não dando atenção à minha própria família, para conseguir gerir tudo é enorme. O desgaste físico e psicológico é muito grande, em especial este último", confessa.

O professor confessa saber o nome de "apenas cinco a dez por cento" dos seus alunos, normalmente "aqueles que causam mais distúrbios em sala de aula". "É humanamente impossível conhecer os alunos", afirma. O professor recomenda a aposta num "aumento de carga horária", o que "resolveria parte do problema para os professores e para os alunos". "A disciplina de TIC é tão essencial atualmente como um Português ou uma Matemática. Se há uns anos existia um alto índice de analfabetismo, agora existem os chamados "analfabetos digitais", que apesar de terem ao seu dispor todas as ferramentas tecnológicas não as sabem utilizar corretamente e rentabilizar. Por isso, um dos caminhos seria aumentar a carga horária da disciplina e evitar atribuir mais de três níveis de ensino ao mesmo docente", conclui.

A opinião é partilhada por Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, para quem a disciplina de TIC deveria ser mais valorizada, aumentando a carga horária da mesma. "Tendo em conta aquilo que o Governo quer fazer nos próximos anos, a carga horária deve ser pensada. Um tempo de TIC não dá para nada. É quase ligar e desligar o PC. É uma disciplina estruturante e importante e esse aumento devia começar no 1º ciclo. Estando nós numa era digital, numa transição digital, essa disciplina deve necessariamente ser reforçada. É preciso mais carga horária para que os alunos possam aprender", explica. Se essa alteração fosse efetivada, diz, "permitiria diminuir o número de turmas atribuídas a cada professor, acabando com o problema de ter centenas de alunos por cada docente de TIC". "Esta situação causa muito desgaste a esses professores. Não conseguem decorar os nomes com centenas de alunos e a transmissão de conhecimento é curta, assim como o elo professor-aluno que se perde", conclui.

Sindicato quer respostas

André Pestana, coordenador nacional do Sindicato de Todos os Professores (S.T.O.P), afirma ter denunciado o problema, numa reunião com o Ministro da Educação, a 4 de junho de 2018. Segundo o responsável, seguiu-se a criação de uma petição "com mais de 4400 assinaturas", "entregue no parlamento a 19 de julho de 2020". "O S.T.O.P tem alertado para este problema porque, como é evidente, apesar do elevado esforço e profissionalismo, com tão elevado número de alunos no mesmo ano letivo é praticamente impossível ao docente estabelecer relações interpessoais com discentes que promovam todo o processo ensino-aprendizagem", refere.

André Pestana afirma que "estes professores são privados de uma relação mais humana e personalizada com cada um dos seus alunos e vivem sobrecarregados de trabalho nomeadamente na preparação e correção de instrumentos de avaliação, no número de reuniões e compromissos associados a tão elevado número de turmas/alunos", prejudicando "não apenas os professores, mas sobretudo os alunos e a qualidade das suas aprendizagens". A pandemia, continua, "agravou ainda mais a situação". André Pestana questiona se "é realista recuperar efetivamente aprendizagens para todos se continuamos com professores com muitas centenas de alunos no mesmo ano letivo ou muitos milhares de professores esgotados/desmotivados nomeadamente por trabalho burocrático?". Segundo André Pestana, "apesar das denúncias e apelos, o S.T.O.P" "continua à espera de uma resposta de uma resposta para os muitos professores que têm mais de 500 alunos no mesmo ano letivo".

dnot@dn.pt

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