"Prevenir a morte súbita deve ser uma prioridade"

João Morais torna-se a partir de hoje no primeiro presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia que não vive nos grandes centros urbanos. O médico cardiologista dirige o serviço do Centro Hospitalar de Leiria.

É a primeira vez que um médico fora de Lisboa-Porto-Coimbra assume a presidência da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. É um orgulho? Ou uma responsabilidade acrescida?

A SPC é talvez a mais importante sociedade de investigação científica em Portugal. Ser presidente é uma coisa que até hoje só 30 pessoas foram [a SPC tem 70 anos], por isso é obviamente um orgulho. O facto de ser de fora dos grandes centros tem que ver com a pessoa: ao longo dos últimos 30 anos fiz parte de cinco direções da SPC, fui presidente de um congresso, trabalhei sempre próximo. Por isso era mais ou menos expectável que um dia viesse a ser presidente. O facto de não estar nos grandes centros não foi motivo para que os pares não me considerassem adequado.

Isso quer dizer que os serviços de Cardiologia do Centro Hospitalar de Leiria estão ao nível dos restantes?

Estão, mas não é por aí. Há coisas na vida - e na vida científica - em que ninguém é ninguém isoladamente. Ninguém faz uma carreira científica a viver sozinho na serra da Estrela num bungalow. A comunidade que temos não é isolada. E o crescimento de Leiria, do serviço de cardiologia, que ocupa um lugar de destaque no panorama nacional, certamente que me ajudou a chegar a este lugar.

Que projetos tem para os próximos dois anos?

Uma sociedade científica nasce muito para dentro, como se sabe. Mas nos últimos anos a SPC tem vindo a afirmar-se com um papel importante na sociedade, e deixou de olhar apenas para si. E esse é um dos maiores desafios que tenho pela frente: ser capaz de dar corpo a isso e fazer crescer mais a sociedade. Pois só assim consegue chegar à tutela e ao governo. Porque nós temos o conhecimento, registos e informação, e sabemos muito mais da medicina cardiovascular dos portugueses do que qualquer ministro ou secretário de Estado.

Qual é o maior aperto no coração dos cardiologistas, atualmente?

A cardiologia portuguesa é uma das especialidades mais fortes, de grande relevo, das que tem maior crescimento. Aquilo que sentimos é que, fruto dos momentos que vivemos nos últimos quatro ou cinco anos - e dos quais ainda não recuperámos -, temos algumas dificuldades em ser capazes de dar o melhor a todos. Temos assimetrias regionais ainda importantes, estamos ainda longe de alguns objetivos europeus em algumas áreas. Temos vindo a crescer, mas queremos aproximar-nos mais depressa dos lugares da frente da Europa.

Em que áreas, concretamente?

Uma delas é a prevenção da morte súbita. É uma "entidade" que parece estranha, porque hoje é possível ressuscitar pessoas que morrem subitamente...mas é possível - e isso ainda é mais importante - prevenir esses acidentes. Nós hoje temos maneiras de identificar na população os doentes que estão em risco. E é possível tratá-los, utilizar dispositivos que reduzem o risco. É verdade que é difícil, custa dinheiro, e é uma das áreas em que estamos longe da média europeia.

Mas em compensação crescemos no combate ao enfarte de miocárdio...

O que se passou nos últimos dez anos foi brutal. E é graças a isso que a curva é descendente nas doenças cardiovasculares, o que se deve ao facto de termos uma cardiologia muito organizada.

Mesmo com as assimetrias que ainda existem?

Claro que sim. Mas porque os serviços de cardiologia auto-organizaram-se para tratar cada vez melhor os doentes com enfarte de miocárdio. Mas temos uma outra área, a que costumamos chamar a epidemia do século XXI, que é o tratamento da chamada insuficiência cardíaca, que afeta muitos portugueses e tem muito que ver com o aumento da esperança de vida. Ou seja, nós não morremos de enfarte, vamos viver mais anos e desenvolver a insuficiência. Metade dos portugueses adultos são hipertensos e vão desenvolver insuficiência cardíaca ao longo da vida. Mesmo aqueles que são bem tratados. Assim como uma percentagem importante dos diabéticos.

E esses doentes propensos à morte súbita são facilmente identificáveis?

Razoavelmente. É ir atrás deles e organizar o país. Porque em cada doente que morre em idade jovem, de morte súbita, quase de certeza há mais gente daquela família que vai morrer. É chamar a família toda, esteja onde estiver. Mas isso representa um trabalho imenso: se eu for às escolas e fizer um eletrocardiograma aos jovens que jogam futebol, eu vou encontrar algumas dezenas de candidatos a morrer subitamente. E isso custa um ou dois euros...

Então porque é que não fazemos isso em Portugal?

Porque não estamos organizados para isso. E porque a seguir tenho de dizer à minha administração que vou ter de fazer um estudo genético para 30 pessoas, daquelas há duas ou três em risco, e tenho de ter desfibriladores (cada um custa 12 mil euros), tenho de os seguir em consultas todos os meses e espalhar isso pelo país todo. Isso significa que alguém tem de dar o primeiro passo e organizar isso. É um custo eficaz.

Nestes dois anos que tem pela frente conta dar um contributo nesse campo?

Espero que sim. Eu não tenho de ter soluções, mas se for capaz de "criar uma agenda" da cardiologia, e apresentá-la ao senhor ministro, é bom.

Que prioridades deve ter a saúde cardiovascular em Portugal?

Comer bem e fazer exercício físico é importante, mas não chega.

Os portugueses tratam bem do seu coração?

Hoje tratam melhor. Temos de reconhecer que hoje há um reconhecimento - muito superior ao que era há 20 anos - de que as doenças cardiovasculares são parcialmente evitáveis.

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