Prémios FLAD para investigação em autismo e bactérias

Projetos premiados foram propostos por investigadores de Coimbra e do Porto. Estudos vão decorrer durante os próximos quatro

O médico e neurocientista Miguel Castelo-Branco, da Universidade de Coimbra, está apostado em verificar se um determinado mecanismo cerebral é uma das peças--chave em autismo e numa doença chamada neurofibromatose. Se for, como suspeita, então há uma possível solução para melhorar a vida destas pessoas, e ele pretende testá-la. João Morais-Cabral, investigador do I3S, da Universidade do Porto, vive mergulhado nos misteriosos processos moleculares das bactérias e está tentar perceber se um deles poderá ser um futuro alvo para novos antibióticos. Com estes projetos, os dois cientistas venceram a segunda edição do prémio FLAD Life Science 2020.

Os prémios, no valor total de 800 mil euros, divididos em partes iguais para cada uma das investigações, são entregues hoje, às 14.30, na sede da fundação, em Lisboa, com a presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Criado em 2014 pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), o prémio financia projetos com a duração máxima de quatro anos na área das ciências vida e da medicina (ver caixa). Findo esse prazo, tanto Miguel Castelo-Branco como João Morais-Cabral esperam chegar a resultados que confirmem - ou não - as suas hipóteses. De uma coisa, no entanto, estão certos: no fim terão novidades para contar, uma vez que o prémio lhes permite avançar com o trabalho.

"Foi uma excelente notícia", afirma Miguel Castelo-Branco, que dirige o Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde (ICNAS), da Universidade de Coimbra, que é também uma das principais unidades de referência no país na imagiologia aplicada à medicina e à investigação. "O prémio dá mais visibilidade a estas doenças e é um reforço financeiro importante, porque não há muitas fontes de financiamento para estas áreas", explica.

João Morais-Cabral, que lidera um grupo de bioquímica estrutural no I3S, tem idêntica opinião. "É muito importante para continuar a investigação", diz. "A crise afeta tudo, também a ciência, e por isso estes prémios são essenciais."

No seu caso, a verba da FLAD vai servir, entre outras coisas, para que um elemento da equipa passe uma temporada no instituto dos Estados Unidos que é parceiro no projeto, no Baylor College of Medicine, em Houston, no Texas. "Vai permitir-nos enviar um estudante de doutoramento para trabalhar no grupo de Zhou Ming, que estuda sistemas semelhantes aos nossos e que dispõe de técnicas que nós não temos", explica João Morais-Cabral.

A busca de uma solução

Apesar da complexidade do tema que tem entre mãos, Miguel Castelo-Branco tem "metas ambiciosas" para o seu estudo. "Uma das ideias é identificar melhores soluções de diagnóstico para o autismo e penso que no final teremos melhores diagnósticos para vários subtipos de autismo", explica. Outro objetivo essencial é encontrar novas soluções terapêuticas ou, pelo menos, abrir caminho para elas.

"Não estamos a falar de curar as causas destas doenças, que no caso do autismo ainda são muito misteriosas, mas de identificar novas estratégicas terapêuticas que possam eliminar os sintomas e melhorar significativamente a vida dos doentes", sublinha.

Para lá chegar, o projeto propõe-se cumprir três tarefas. Uma delas é o estudo detalhado, em modelo animal, dos mecanismos de excitação e inibição da atividade neuronal e da relação que existe entre eles em situação dita normal e no autismo ou na neurofibromatose. Esta última é uma doença de origem genética que causa atrasos no desenvolvimento e problemas de aprendizagem e memória.

Esta parte será desenvolvida nos Estados Unidos pelo grupo do investigador de origem portuguesa Alcino Silva, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, que descobriu com outro português, o neurocientista Rui Costa, a origem genética da neurofibromatose.

"Nós começámos a trabalhar nesta área há dez anos com as nossas técnicas de imagiologia, e quando publicámos os primeiros resultados, o Alcino Silva interessou-se, e temos falado desde então", conta Miguel Castelo-Branco. "Este projeto permite agora a nossa primeira colaboração", sublinha.

A hipótese que o estudo vai testar é a de que nestas doenças há um desequilíbrio entre os mecanismos de excitação e inibição da atividade neuronal. Além da investigação em modelo animal, a equipa do ICNAS vai usar as suas técnicas avançadas de imagiologia (ressonância magnética, tomografia por emissão de positrões e outras) para estudar o problema em humanos.

"Vamos envolver cerca de cem pessoas, entre doentes e grupos de controlo", explica o líder do ICNAS. Além da parte da imagiologia, a equipa vai ainda testar a hipótese de a lovastatina, um fármaco já aprovado para uso humano e indicado para várias doenças, poder influir no equilíbrio entre os dois mecanismos neuronais. "Não se trata de um ensaio clínico", nota Miguel Castelo-Branco. "A ideia é só demonstrar essa possibilidade, através de duas ou três aplicações."

Já o projeto liderado por João Morais-Cabral visa o estudo, no seu detalhe molecular, do mecanismo que nas bactérias regula os níveis de potássio no seu interior.

Visão para novos antibióticos

"Todos os seres na Terra têm mais potássio do que sódio dentro das suas células, e no meio externo que banha as células, acontece exatamente o contrário, e isto é essencial à sua sobrevivência", explica o cientista do Porto. "Sabemos que nos seres humanos o mecanismo que regula este equilíbrio é diferente daquele que faz o mesmo nas bactérias, e isso permite pensar que, se pudermos agir, com um fármaco por exemplo, sobre este processo nas bactérias, isso não interfere com o mecanismo humano", sublinha o investigador. É esse caminho que o investigador se propõe explorar, e o primeiríssimo passo é perceber ao pormenor como se processa aquela relação potássio-sódio nas bactérias.

Se o estudo confirmar que a hipótese está certa, então essa poderá ser uma via para desenvolver novas terapêuticas antibacterianas. Com os antibióticos a perderem terreno para um batalhão crescente de bactérias que lhes são resistentes, seria uma ótima novidade. Dentro de quatro anos se saberá.

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