"Precisamos de ser mais criativos e produtivos"

"Dificilmente o país anda para a frente se continuarmos a não produzir. Gosto muito desta fase positiva, mas tenho dúvidas se se mantém", diz Joel Silva, gestor de projetos que ajudou a população de Pedrógão Grande

Quando deflagrou o fogo em Pedrógão Grande, há dois meses, Joel Silva ia a caminho do Norte do distrito de Leiria, como tantas vezes. Sem perceber completamente porquê, deu meia volta no IC8 e voltou atrás. Nessa tarde soube que o território que conhece bem estava a ser consumido pelas chamas. E depois, com o cair da noite, as notícias foram piorando: morreu gente, queimaram-se casas. Na manhã seguinte já punha mãos à obra, à sua maneira: mobilizou um grupo de amigos para começar a reconstrução das casas, numa corrente de voluntariado que encontraria repercussões impensáveis.

Ainda fumegavam as árvores e as placas das terras eram castanho-queimado quando começou esse trabalho, com arquitetos, engenheiros, técnicos de toda a ordem, mais um punhado de empresários a quem pediu apoio. E, nisto, o grupo tem a responsabilidade de acompanhar a reconstrução de três casas, nos concelhos de Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos e Pedrógão Grande. A lição do fogo no interior do país já era conhecida de Joel, natural da aldeia de Vila Cã (Pombal), cidadão do mundo na maior parte dos seus 44 anos.

Sempre teve ideias, desde que se conhece, muitas das quais já colocou em prática, embora nem todas bem-sucedidas. Custa-lhe, por exemplo, não conseguir implementar a Gratitude, uma espécie de plataforma de troca de produtos que ainda testou na sua cidade. Mas há outras que tem, à escala nacional. "Contrariar o que existe - degradação do nosso património. Temos visto o que está a acontecer com as florestas, plantou-se de qualquer maneira e feitio, sem ser pensado nem preparado. Perdemos imenso dinheiro nas florestas e na agricultura, porque não conseguimos cuidar do património que temos nem rentabilizá-lo. Quando tentámos transformá-lo fizemo-lo mal", sublinha Joel, que já foi muita coisa na vida mas atualmente cruza o marketing com o web design. Para mais, tem de si uma definição certeira: "Sou um espécie de canivete suíço, faço de tudo um pouco. Desde 2004 tento transformar ideias em negócios." E é preciso ser resiliente para não desanimar. "Em 2001 criei uma empresa e em 2017 estou a acabar de pagar um sufoco. E eu tinha um plano de negócio que era bom, mas faltou-me uma área de conhecimento que eu não tinha."

Pega no seu próprio exemplo para ilustrar o que acontece no país. E recorda os apoios facultados pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional, que incentiva há anos a criação do próprio negócio a quem fica desempregado, entregando à cabeça todo o valor do subsídio de desemprego. "O instituto de emprego e as entidades que atribuem fundos muitas vezes não estão disponíveis para ajudar as pessoas a fazer um bom plano de negócios. Seria interessante perceber quantos desses negócios vingaram, conclui Joel Silva. "Para conseguirmos pegar no futuro temos de o olhar de uma forma muito mais adulta e prática. Não podemos continuar a semear trigo no Alentejo, sabendo nós que aquele solo não é o melhor, por exemplo. Não podemos continuar a plantar eucaliptos sabendo que o risco de perdermos a floresta toda é forte. Por isso, o futuro passará sempre por ser bem avaliado e por tentar perceber se precisamos de produzir mais. O que não tem que ver com produtividade, porque podemos trabalhar muitas horas e não ser produtivos. Precisamos é de ser mais criativos", conclui.

Joel sabe bem que "há coisas que não conseguimos rentabilizar". Lembra-se, por exemplo, de um amigo inglês que fez quilómetros numa aldeia da região à procura de um pássaro. Gastava o dinheiro que fosse preciso, munido do melhor equipamento, para captar a ave, que só existirá naquela região. É desses recursos e desse potencial que fala.Joel Silva olha para a sociedade com algum desalento, embora seja um otimista militante. "Não somos capazes de reparar um carro, quando ele tem uma reparação de 600 euros, achamos que não vale a pena e compramos outro. E nenhum carro é produzido em Portugal. Se déssemos os 600 euros ao mecânico lá da terra, que depois nos viria comprar alhos, tudo funcionava melhor. Assim agarramos nuns milhares e compramos aos alemães". Nesta altura, a conversa chega à Europa, à integração de Portugal na UE.

Joel está convicto de que "50% dos fundos que vieram para Portugal foram aproveitados de forma indevida. E não se tornou o investimento verdadeiramente útil. Perdeu-se imenso dinheiro, na verdade. Ainda assim houve bons exemplos, só que em número reduzido. Foram oportunidades perdidas em jipes, por exemplo". Da Europa regressamos ao passado recente de Portugal, ao tempo em que a troika tomou conta das contas do país. Estaremos melhor, hoje? "Quero acreditar que sim. Mas disse ainda há dias ao primeiro-ministro António Costa, na visita que fez ao interior ardido, que a capacidade daquela zona se regenerar era muito difícil porque eles próprios (os locais) não se conseguiam organizar. Perdem imenso tempo em contra-informação, e por vezes preferem dizer mal de tudo, e que nada está a ser feito, do que fazer aquilo que lhes é pedido: por exemplo, arranjar três orçamentos para reconstruir as casas." Em suma, "dificilmente o país anda para a frente se continuarmos a não produzir. Gosto muito desta fase positiva, mas tenho dúvidas se se mantém".

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