"Precisamos de políticos mais sérios, porque isso desmotiva-nos"

Ernesto Rebelo é o voluntário mais antigo do Banco Alimentar Contra a Fome

Há 22 anos quando se reformou, Ernesto Rebelo começou a ter medo do sofá e sentiu necessidade de começar a pensar numa alternativa. "Estive uns 15 dias em casa e comecei a pensar que aquilo ia ser a minha vida, que iam ser umas férias muito prolongadas e quem está habituado a uma vida ativa e com rotinas é muito complicado", recorda o mais antigo (em idade e tempo de serviço) voluntário do Banco Alimentar contra a Fome. De repente, "ou a ler o jornal ou a ver televisão" lá apareceu o Banco Alimentar e a solução que Ernesto procurava.

"Vim sondar se seria a melhor maneira de preencher o meu tempo de ociosidade e a verdade é que vim e fiquei. Naquela altura o banco era uma coisa ainda pequena, não era necessário vir todos os dias. Vinha só de vez em quando, mas depois começou a crescer e comecei a vir todos os dias. Digamos que 80% dos dias de trabalho eu venho", descreve o voluntário de 81 anos. Tinha 59 quando se reformou em 1995 e desde então já trabalhou quase tantos no banco alimentar como na agência bancária onde fez a carreira profissional, depois de vir de Angola.

Foi em África, aliás, que Ernesto sentiu na pele um bocadinho do que devem sentir hoje os milhares de refugiados que chegam às costas da Europa. "Antes da fuga para Portugal também me senti um bocadinho refugiado, tive de andar a mudar de casa onde havia menos confrontos, fugi para casa do meu irmão e depois para Lisboa." Por isso, não tem dúvidas de que a escolha certa é acolher os refugiados, embora admita que "quem chega devia ser controlado, mas se calhar são precisos mais meios para que a polícia de fronteiras consiga saber quem cá está".

E fechar fronteiras ou acabar por sair da União Europeia não é solução, defende o bancário reformado: "A união faz a força, não ganhávamos nada em ficar fora."

Depois destas duas décadas ao serviço do Banco Alimentar, na sede em Alcântara, Ernesto não tem dúvidas de que os portugueses são solidários, mas gostava que conhecessem melhor o banco alimentar. "Muitas pessoas pensam que o banco alimentar é só em novembro e em maio, que é quando são as campanhas de recolha. Não, o banco alimentar está todos os dias a trabalhar, menos ao sábado e ao domingo. Angariamos mais de nove mil toneladas de alimentos com as quais apoiamos 81 mil pessoas, através de 385 instituições", descreve.

Além de gostar que os portugueses fossem mais solidários, Ernesto queria ver os políticos serem mais sérios. "Ou, pelo menos, que fossem mais credíveis, porque isto não está bem, desmotiva-nos. Vemos o que são as eleições, em que 50% das pessoas não vão votar e isso é mau para o país. Um governo que está a governar apenas com os votos de 50% das pessoas não se pode sentir totalmente orgulhoso."

Ernesto acredita que políticos credíveis iriam conseguir "olhar para a questão da segurança e da saúde" de forma mais eficaz. "Vou para casa e já não saio, não me sinto seguro à noite. Há dias eram 21.00, estava no Chiado, e achei o ambiente muito sombrio, medroso, para mim que não estou habituado a estar na rua a essa hora."

No seu dia-a-dia, Ernesto sai de casa às 08.00 e só chega pelas 17.00 ou 18.00. "Precisamente o horário que fazia no banco" e ao longo do dia seleciona os produtos que o Banco tem disponível e que cada instituição precisa. "Temos uma folha que diz as quantidades e vamos pesando e metendo na box, depois eles vêm buscar. Sabemos se é para distribuir em cabazes ou fazer refeições." No fim, "saio sempre muito feliz, porque preenchi um dia com algo que alguém vai beneficiar".

Quando sai vai diretamente para casa e daí já não sai até ao dia seguinte. Até brinca que ninguém o conhece no Monte Abraão, onde vive. "Já disse muitas vezes à minha mulher: tenho de começar a faltar alguns dias, para me começar a preparar para viver no Monte Abraão com esta gente aqui. Se não qualquer dia ninguém me conhece."

A mulher de Ernesto - Judite - "ainda é pior" do que o marido. "Ela sai de manhã, vai à missa, depois dá a comunhão em casa às pessoas que não podem sair e ainda visita pessoas indicadas pela paróquia que estão sozinhas em casa e às vezes ainda chega depois de mim a casa."

É assim que o casal decidiu passar a reforma: "Tudo o que for assim, que faça parte do bem das pessoas estamos sempre de acordo", resume Ernesto Rebelo. O voluntário confessa que tem "medo do sofá". "Se não fosse o Banco Alimentar já não estava vivo. O despertar de manhã e ter uma opção para o dia é muito importante. O sofá é uma coisa que me faz confusão. Além de me julgar depois uma pessoa já inválida. Enquanto tiver dez reis de força venho sempre."

E até garante que tem mais "genica e agilidade que muita gente mais nova que vejo aqui, modéstia à parte". De facto, quem vê Ernesto de um lado para o outro no armazém do Banco Alimentar, em Alcântara, a afastar e carregar caixotes não diria que está prestes a completar 82 anos.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG