Portugal entra em nova onda ao chegar quase aos 25 mil casos diários

De uma semana para a outra, casos aumentam quase 50%. Portugal pode ser o primeiro da Europa a registar uma nova onda, que "já está bem definida", diz Carlos Antunes da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Autoridades da saúde e políticas já deveriam estar a explicar à população o que se está a passar e a tomar medidas. Internamentos e óbitos já estão a aumentar entre os idosos.

Mais uma vez, o vírus SARS CoV-2 vem mostrar que tudo pode mudar de uma uma semana para outra, basta uma nova linhagem de uma das variantes já existentes ou um nova variante mesmo. Portugal é disso um exemplo. O número de casos aumentou em quase 50% em apenas uma semana, aquela em que o país voltou a passar a barreira dos 20 mil e os 24 mil casos, quando na semana passada, as projeções com base nos dados de casos reais, avaliados pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, apontavam para que se atinge apenas os 15 ou 16 mil casos como média diária.

O professor Carlos Antunes, que desde o início da pandemia integra a equipa que faz a modelação da evolução da pandemia, confirma: "Quase sem darmos por isso, volta a acontecer um aumento exponencial de casos. Já estamos com um crescimento de velocidade cruzeiro, mais casos em todas as regiões e faixas etárias, mais óbitos e já se começa a denotar um aumento nos internamentos em algumas regiões".

Portanto, do ponto de vista matemático pode dizer-se que estamos perante "uma nova vaga, que, matematicamente, está perfeitamente definida, e que do ponto de vista epidemiológico está associada a vários fatores, um deles é o aparecimento de uma nova linhagem da Ómicron, a BA.5, que está a prevalecer em relação à BA.2, outro à maior mobilidade e contacto social com menor proteção".

O analista de dados diz mesmo que "um crescimento assim ainda não foi detetado em outros países da Europa", e que "Portugal pode ser o primeiro, embora já esteja a acontecer na África da Sul e nos EUA". O professor admite nunca ter pensado que tanta gente pudesse abdicar do uso de máscara tão rapidamente, que a medida deveria ter deixado de ser obrigatória para ser recomendada, mas com uma mensagem forte de que esta deveria continuar a ser usada em espaços fechados com muita gente e que o crescimento de casos está dependente da auto-avaliação do risco.

Podemos estar a caminhar para uma vaga idêntica à de Janeiro

O professor considera ser importante que a informação sobre o estado da situação volte a ser dada à população de forma clara e diariamente, "a população perdeu a noção do risco e é preciso que a informação lhe chegue", defendendo mesmo que as autoridades políticas e de saúde já deveriam estar a fazer conferências para explicar o que se está a acontecer, embora reconheça que esta atitude tem a ver com a ponderação do risco que estão a fazer.

Há uma semana, Carlos Antunes dizia ao DN que, mesmo que houvesse um aumento de casos, a situação em termos de gravidade estava tranquila, agora diz não se saber o que pode acontecer. "Vamos ver se a proteção vacinal e a imunidade natural vão ser suficientes para parar esta onda ou se vamos ter mesmo a necessidade de aplicar medidas e dar um passo atrás, já se percebeu que há alguma resistência política, e que os testes gratuitos não vão voltar, vai continua a ser a Linha SNS 24 a encaminhar o doente, nem a obrigação do uso de máscara, mas Portugal deveria reequacionar isso imediatamente, sob pena de atuar tardiamente".

Os casos dispararam e a informação está a ficar desatualizada de dia para dia. No início da semana, o R(t), índice de transmissibilidade a nível nacional segundo o INSA estava em 1.14, na terça-feira o Instituto Superior Técnico veio dizer que já estava em 1.17 e, hoje, quinta-feira, a nossa avaliação já dá 1.19. Pode parecer contraditório, mas não é. O tempo de análise é que é diferente". A tendência de crescimento já se está a fazer sentir nos internamentos em enfermarias nalgumas regiões e nos óbitos nas faixas etárias acima dos 65 anos, embora mais na faixa acima dos 80 anos.

Conforme destaca Carlos Antunes, "os óbitos já estão a dar sinal de aumento. Na semana passada, em relação à semana anterior, a mortalidade por milhão de habitantes a 14 dias ainda estava a descer. "Estava nos 24 óbitos e a média da mortalidade estava nos 19 mortos, agora já está a subir outra vez. A mortalidade por milhão de habitantes a 14 dias está em 27.5 óbitos e a mortalidade diária em em 24 óbitos. O mesmo se está a passar com os internamentos em enfermarias, acima dos 65 anos, em que o aumento já é bem visível na região Norte".

Nesta quinta-feira, a comissária europeia para a Saúde alertou os Estados-membros para estarem preparados para terem de votar atrás nas restrições, caso fosse necessário, mas o ECDC, por exemplo abandonou a obrigatoriedade das máscaras nos aeroportos e nos aviões. Portanto, e perante estes sinais exteriores, "pode haver alguma teimosia política em não voltar atrás", justifica.

Mas, a verdade, é que a taxa de positividade na testagem é de 42%, uma taxa nunca antes atingida. "Em cada dez que fazem teste, oito estão positivos", explica, acrescentando que a tendência registada agora em número de casos e de positividade em testes revela um aumento superior ao do Carnaval.

"Provavelmente, estamos a caminhar para uma vaga semelhante à de janeiro, em termos de casos e de óbitos, em que chegámos às 50 e 60 mortes diárias". E porquê? Porque "todas as etárias estão a subir, os mais novos, entre os 10 e os 29 anos, estão com a maior dinâmica, devido aos contactos sociais, mas um dos problemas graves no nosso país é que não conseguimos separar os que podem ser infetados sem consequências dos mais vulneráveis. O aumento de casos a parir dos 65 está com maior ritmo e a partir dos 80 anos também. E isto indicia que vamos ter um aumento de óbitos e de internamentos a partir de agora".

Por tudo isto, o Carlos Antunes defende que "já se deveria estar a tomar medidas, apelando, mesmo individualmente, ao regresso do uso de máscara em espaços fechados sem ventilação e com muita gente para proteger os mais idosos e vulneráveis.

De acordo com a análise da equipa da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Portugal voltou a passar a barreira dos 20 mil casos, na segunda-feira foram 20 486, terça 24 572 e quarta 24 866, e a chegar quase aos 30 óbitos diários, 29, 27 e 25, respetivamente. As projeções apontam para que a partir da próxima semana, "o país possa estar já numa tendência como a que registámos em janeiro, quer em número de casos diários quer em óbitos".

Por isso, diz, "é preciso que a população tenha perfeita consciência desta situação, porque agora estamos dependentes da autoavaliação do risco", declarando que "é a academia que está a vir dar conta da situação" . Nesta altura, o país já ultrapassou os quatro milhões de casos e os 22 mil óbitos, está com 4 044 134 de infetados desde o início da pandemia e com 22 550 óbitos, quando no final de 2021 havia 1 389 646 e 18 955 óbitos.

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