"Porque é que um cartoon em Portugal choca outra parte do mundo?"

Há muito caminho a percorrer em direção à paridade de sexos: na cultura, na ciência, no ensino, nos media e nas empresas. É a conclusão do Fórum sobre esta temática, que terminou em Angers, França

Fórum Igualdade, pela Igualdade de Género na Europa, que ontem terminou em Angers, França, é a primeira parte de um conjunto de eventos realizados por Portugal e França no âmbito da Temporada Cruzada 2022. A segunda parte decorrerá em outubro, e a presidente da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG), Sandra Ribeiro, promete que será apresentado uma espécie de caderno de encargos para acelerar o processo para a paridade que, em alguns casos, regrediu. A pandemia só complicou.

A associação de desenhadores Cartooning for Peace (Cartoons pela Paz) associou-se ao evento com uma exposição na via pública, Cartooning for Women, e com artistas a acompanhar um dos painéis: "Como lutar contra as violências e o assédio? O exemplo dos media e do audiovisual". Cristina Sampaio (Portugal) e Derene (Anne Derenne, França) desenharam o quotidiano das mulheres de acordo com a experiência dos participantes.
As duas cartoonistas fazem parte da exposição que estará patente em dois locais da cidade francesa até 31 de março, nas entradas do Jardim das Plantas e do Museu Pincé. Denunciam a desigualdade entre a mulher e o homem, dando continuidade às preocupações de cerca de 40 participantes no Fórum. Integra-se na Temporada Portugal-França 2022, organizada pelo Instituto Camões e Instituto Francês e que, neste tema em particular, teve a colaboração da CIG.

Trata-se de desenhos publicados na imprensa de todo o mundo (em particular da Europa), numa retrospetiva dos direitos das mulheres depois do #MeToo. "Apoia, com humor, pertinência e força do desenho, as lutas feministas e suas questões determinantes", sublinham os organizadores. Muitos desses cartoons fazem parte do livro "En avant tous!", da coleção Cartooning for Peace, organização com sede em França.
"As nossas exposições são sempre sobre um capítulo dos direitos do Homem, como a repartição da riqueza, igualdade entre homens e mulheres, ambiente, racismo", explica o presidente do coletivo, Kak, cujos desenhos estão nas páginas do L'Opinion. Sucedeu o ano passado a Plantu, que deixou as páginas do Le Monde e que, com Kofi Annan, fundou a Cartooning For Peace em 2006.

"A associação surgiu depois da publicação por todo a Europa da caricatura do profeta do Islão, Maomé, que gerou uma grande tensão internacional. Plantu organizou uma conferência no âmbito das Nações Unidas para falar do encontro entre povos, tolerância, diferença entre culturas. O que é que faz com que um desenho que é normal em França ou em Portugal possa chocar outra parte do mundo? Percebeu-se que o problema da intolerância entre culturas era antigo e era preciso trabalhar este tema. Plantu criou essa organização com três objetivos: promoção do desenho na imprensa; fazer a pedagogia entre as crianças e jovens adolescentes (vamos às escolas); acompanhar e apoiar os cartoonistas em perigo em todo o mundo", diz Kak.

A guerra na Ucrânia é mais um perigo, não só neste país como na Rússia. "Há cartoonistas na Ucrânia que questionam se devem manter-se no país e se a Rússia tomar o poder não terão a mesma liberdade de expressão. Também recebemos esta semana a informação de dois desenhadores russos obrigados a fugir porque correm perigo por causa do seu trabalho", conta. Acrescenta que em todo o mundo há cartoonistas em perigo, particularmente no Brasil, Nicarágua, Venezuela, China, Índia... a lista é longa. E na Europa há problemas, como na Hungria.

No fundo, é a situação que envolve a imprensa em geral. "Nos países em que os cartoonistas correm perigo, a imprensa corre perigo, o que é particular nos cartoons são duas coisas: o desenho é mais fácil de compreender do que um artigo, logo, é mais viral; e o cartoon utiliza o humor e o riso é catártico, quando se ri tem-se menos medo".

ceuneves@dn.pt

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