Petição e manif tentam salvar bares que são memória do Cais do Sodré

Tokyo, Jamaica e Europa em risco de fechar a 14 de abril. Prédio será hotel, mas ainda há hipótese de uma das discotecas ficar

A notícia apanhou de surpresa os amantes da noite lisboeta, sejam eles novos ou da "velha guarda": o Jamaica, o Tokyo e o Europa, três dos bares-discotecas mais míticos do Cais do Sodré, correm o risco de fechar portas já no próximo dia 14 de abril, depois de, em outubro do ano passado, o senhorio ter denunciado os seus contratos de arrendamento, alegando que vão ser realizadas obras de reabilitação profundas, para converter o edifício num hotel. A indignação não se fez esperar e nas redes sociais surgiu logo uma petição. "Reabilitação Urbana sim, à custa de Espaços Históricos NÃO", pediram cerca de duas mil pessoas até ao final do dia de ontem e até já há uma manifestação marcada por aqueles que não querem perder "as suas segundas casas".

O prédio, com frontaria para a Rua Nova do Carvalho - a muito concorrida rua cor-de-rosa -, a Rua de São Paulo e a Rua do Alecrim, deverá ser, segundo os sócios dos estabelecimentos, convertido num espaço hoteleiro, prevendo o projeto, de acordo com o representante dos proprietários do imóvel, Diogo Tavares de Carvalho, "um espaço no mesmo local, com área idêntica à atual, destinada a uma das discotecas". Tudo indica que se trate do Jamaica. "Essa hipótese está em cima da mesa, mas é preciso saber em que condições", sublinha ao DN Fernando Pereira, sócio-gerente do Jamaica e um dos proprietários do Tokyo, sem deixar de ressalvar que, agora, o objetivo é demonstrar que os três estabelecimentos podem manter-se onde estão.

Difícil é imaginar o Cais do Sodré com apenas um dos três espaços em funcionamento. "O Jamaica tem seguidores completamente diferentes dos do Tokyo e do Europa", compara Fernando Pereira, filho de um dos fundadores do espaço, cujo contrato de arrendamento remonta a 1967. "Já passaram três gerações pelo Jamaica: foram os nossos pais, somos nós e agora já são os nossos filhos. É transversal a todas as gerações. É um património imaterial da cidade de Lisboa", argumenta.

Exemplo disso é o facto de o atual DJ do espaço, Bruno Dias, ser filho de Mário Dias, radialista da TSF e que, enquanto DJ, revolucionou o Jamaica a partir de 1975. Hoje, com o Cais do Sodré transformado em local da moda, o bar-discoteca continua a ser frequentado por figuras mais ou menos conhecidas. "Está tudo a um metro uns dos outros, ninguém sabem quem são", recorda Fernando Pereira, sem perder a esperança de que estas não sejam as últimas semanas de vida dos três bares.

Já para a jornalista Leonor Pinhão, que começou a frequentar o Jamaica com o seu grupo de amigos em 1977, contribuindo para que ele se transformasse num bar de universitários, jornalistas e boémios, o eventual fecho deste ícone da noite lisboeta acaba por ser "natural".

"Tudo tem um fim", diz. "Fiquei mais chocada nos anos 1980, quando o Jamaica se tornou mais comercial. Para mim, emocionalmente, o Jamaica que ajudámos a fundar acabou nessa altura", afirma. "O Cais do Sodré pareceu-me, nas últimas vezes que lá fui, um sítio de entretenimento de centro comercial. Nós fomos para lá porque era um sítio de risco, e o Mário Dias, que era o DJ, punha boa música."

No final dos anos 1970, lembra Leonor Pinhão, "Lisboa era uma cidade muito provinciana, onde só havia casas de fado e bares de betos. E nós, que gostávamos de sair à noite e de dançar, começámos a ir para lá porque aquele era considerado um sítio de perdição". O bar, então, mudou radicalmente. "Deixou de ter os clientes da prostituição e o Mário Dias ficou encantado porque trocávamos muitas sugestões de música, tornámo-nos amigos", conta a jornalista. "Fizemos uma revolução na noite e nos costumes lisboetas de que me orgulho imenso", assume. E remata: "A geração mais nova terá de procurar novos sítios que não sejam formatados."

É sobretudo junto da Câmara Municipal de Lisboa que os proprietários do Jamaica, do Tokyo e do Europa estão a tentar travar a ordem para, até 14 de abril, abandonarem o piso térreo do prédio que ocupam há décadas no Cais do Sodré. Na quinta-feira, afirmam em comunicado Fernando Pereira e Pedro Vieira, este último responsável pelo Europa, foi enviada uma carta ao presidente do município, Fernando Medina, a solicitar que a autarquia rejeite atestar que a empreitada em causa "constitui, nos termos da lei, uma obra de demolição ou uma obra de remodelação ou restauro profundos para efeitos de aplicação do disposto na alínea b) do artigo 1101.º do Código Civil [que define os fundamentos que podem ser invocados para o senhorio denunciar um contrato], por não se encontrar verificado o pressuposto da necessidade dos locados em análise".

O mesmo é salientado na petição dirigida a diversos vereadores lançada ontem de manhã e que conseguiu dois milhares de seguidores em poucas horas. Tudo para, apesar das obras, conseguirem permanecer onde estão.

"Nós estamos a favor da reabilitação do edifício", reitera ao DN Fernando Pereira, lembrando que há "mais de 20 anos" que os sócios-gerentes dos três bares-discotecas pedem que o prédio seja recuperado, com o consequente aumento de renda. A reivindicação ganhou particular importância há cerca de cinco anos, quando os três estabelecimentos tiveram de fechar temporariamente portas devido ao risco de derrocada do imóvel. Depois de quase cinco meses de obras, a cargo dos proprietários do Tokyo, do Jamaica e do Europa, voltaram a abrir ao público, exigindo atualmente ser indemnizados pelo senhorio pelo tempo que estiveram encerrados. Os processos estão em fase de alegações finais e, garantem, é à sua desistência que está condicionada a possibilidade de o Jamaica regressar a casa após a empreitada. Os restantes desapareceriam definitivamente "sem fazer barulho". Os valores exigidos são superiores a 200 mil euros.

Diogo Tavares de Carvalho apresenta uma versão diferente. "Nenhum dos arrendatários foi obrigado a fazer obras. Os proprietários nunca foram interpelados para realizarem quaisquer obras. Os trabalhos realizados no Jamaica destinaram-se à modernização das suas instalações. Não há nenhuma condição para permanência, no entanto, determina o bom senso que se vier a ser alcançado um acordo para uma das discotecas aí continuar, não faz sentido excluir do mesmo o contencioso existente", sustenta, numa resposta enviada por e-mail ao DN, o representante dos proprietários do imóvel, que invoca o sigilo profissional para não revelar pormenores sobre o comprador e o destino do prédio da rua cor-de-rosa.

Entre os pontos de divergência estarão, segundo Fernando Pereira, o facto de ter de ser o próprio estabelecimento a fazer, uma vez reabilitado o edifício, todas as obras de adaptação do bar-discoteca, de o contrato que está em cima da mesa ser de cinco anos - um prazo "apertadíssimo para realizar" todos os trabalhos necessários - e de o valor da renda a pagar ser calculado partindo do princípio de que se trata de 120 metros quadrados de área a ser utilizada pelo público e não 60 metros quadrados, como acontece. Ainda assim, foi o facto de, ao longo dos últimos cinco meses, terem estado a decorrer negociações, que o levou a só agora divulgar a possibilidade de os três estabelecimentos virem a fechar portas. As indemnizações, correspondentes a um ano de renda, não ultrapassarão os cinco mil euros.

(Notícia retificada: corrige o nome do DJ do Jamaica para Bruno Dias)

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