Personagens LGBT nas telenovelas são convite à reflexão

Novela portuguesa que terminou recentemente abordava a transexualidade. Ativistas criticam a pouca representação de lésbicas

As histórias de amores impossíveis, de gémeos trocados à nascença, de guerras entre famílias e as lutas entre classes sociais tomaram conta das telenovelas durante muito tempo, mas nos últimos anos assistiu-se à introdução de temas que eram considerados fraturantes e que são agora abordados com naturalidade. Exemplo é a telenovela A Herdeira (TVI), em emissão atualmente, que apresenta um casal homossexual (os atores Pedro Granger e Gonçalo Diniz). Em Ouro Verde (TVI), que acabou dia 3, a atriz Inês Nunes interpretou David, rapaz que se encontrava em processo de mudança de sexo. Antes, em Sol de Inverno (SIC), Ângelo Rodrigues deu vida a um homossexual cujo namorado adotou uma criança, acabando por trazer para a ficção o tema da coadoção.

Estes são apenas dois exemplos de telenovelas portuguesas que abordaram temáticas que há alguns anos não eram retratadas na ficção nacional. Ao longo dos anos surgiram outras como a sida, a dependência do jogo e das drogas ou o tráfico humano. Dizem os autores que é uma forma de trazer a realidade para a televisão e de pôr os portugueses a pensar. Mas ainda há um longo caminho pela frente, alertam os ativistas.

"As telenovelas trabalham muito em cima da atualidade, abordando temas que atingem as nossas vidas de um modo geral. O que faz que questões relacionadas com sexualidade, identidade de género e afins sejam interessantes de explorar, até porque, apesar de serem cada vez mais comuns, ainda dividem parte da sociedade", diz ao DN Maria João Costa, autora de Ouro Verde. No caso da personagem David/Catarina, afirma que teve "uma ótima aceitação do público, que, graças à história que foi contada, compreendeu o seu drama e torceu pela sua felicidade".

Segundo a autora, trata-se de "um reflexo natural do que se passa na sociedade". "Porquê deixar de fora uma realidade que é cada vez mais presente no nosso dia-a-dia, quando, hoje, as pessoas já podem ser elas mesmas, sem necessidade de se esconderem atrás de um qualquer disfarce? Parece-me evidente que a ficção não pode ficar alheia a isto", afirma. Reconhecendo que "estas temáticas ainda geram algum desconforto junto de uma parte da população", Maria João Costa considera que "nunca é de mais aproveitar todas oportunidades para pôr os portugueses a pensar".

Ana Cristina Santos, investigadora em Estudos de Género no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, destaca que "introduzir personagens diversas em termos de género e orientação sexual e relacional é parte de um processo mais amplo de mudança cultural, de reconhecimento da diversidade e de valorização positiva das diferenças".

O início de um caminho

Paulo Corte-Real, ex-presidente da ILGA (Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual e Transgénero), lembra que "durante muito tempo houve silenciamento das pessoas lésbicas, gay, trans e bissexuais, que não tinham possibilidade de se afirmar no espaço público e não se viam representadas na ficção nem em trabalhos documentais". Mesmo na esfera privada, lamenta, as pessoas "continuam a omitir as relações que têm, a controlar manifestações públicas de afeto". Recentemente, prossegue, "tem havido o início de um processo de representação", tanto na televisão como no cinema.

Este é, segundo o ativista, apenas "o início de um percurso", que ajuda a mudar mentalidades. "Ao compreendermos melhor a realidade, emitimos mais facilmente juízos de valor. Temos vivido numa espécie de ficção da inexistência de todas estas pessoas. O confronto com a realidade ajuda a pensar duas vezes", afirma. Por outro lado, estas representações revelam-se importantes "para que as pessoas se possam até construir identitariamente". Uma opinião partilhada por Isabel Advirta, que foi a primeira mulher presidente da ILGA. "É muito importante que os jovens que estão a sair do armário liguem a televisão na TVI ou na SIC e vejam a normalização das relações, que não se sintam estranhos."

As gerações anteriores não tiveram essa possibilidade. Isabel recorda-se de "crescer num país onde não havia referências aos casais do mesmo sexo" e, quando existiam, eram em tom jocoso. "É bom que se reveja na ficção aquilo que é a realidade, porque isso vai trazê-la para mais perto das pessoas." Desta forma, explica, "pais, avós, familiares de jovens que estão a descobrir-se como LGBT, com a identificação com estas histórias, não vão ter um choque tão grande quando o filho, o neto, ou o sobrinho disser que é gay, porque foram incorporando a normalidade". A representação na TV ainda está, contudo, aquém da realidade. "Era preciso que uma em cada dez personagens de uma telenovela fossem gays, lésbicas ou bissexuais, mas ainda estamos muito longe de isso acontecer", diz Paulo Corte-Real.

Mulheres lésbicas surgem pouco

Apesar dos progressos conseguidos nos últimos anos, os dois ativistas lamentam, no entanto, que existam muito poucos exemplos de mulheres lésbicas na ficção. "É o reflexo da própria sociedade, na qual as lésbicas são remetidas para segundo plano", indica Isabel Advirta, destacando que "há muito a fazer ao nível LGBT, mas também de feminismo". Paulo Corte-Real diz que a expectativa é que haja uma representação cada vez maior, "mas marcando a diversidade em termos de géneros, idades, origens étnicas. Esse é um caminho que tem de ser feito". E com algum cuidado, já que, diz a investigadora Cristina Santos, "enquanto houver homofobia e transfobia, a representação ficcionada deve ser eticamente responsável, evitando-se imagens estereotipadas e estigmatizantes da sexualidade ou do género". Segundo a coordenadora do projeto europeu INTIMATE, "a ficção portuguesa tem registado uma evolução positiva, tendo já recebido reconhecimento por parte de associações que trabalham contra a violência sexual e de género".

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