Patrulheiros. De guardas de jardins a guardas de crianças na estrada

Projeto na Amadora foi criado depois de três acidentes mortais junto a uma escola. Desde então não houve mais acidentes graves

Custódio dos Santos e Francisco Tavares são colegas e praticamente vizinhos de trabalho. Os dois são patrulheiros de duas escolas na Damaia (Amadora), separadas por poucos metros: a Padre Himalaia e a Pedro D"Orey da Cunha. Ambos trabalharam na construção civil, ambos estão reformados e aceitaram um novo desafio: Custódio há cinco anos, Francisco há seis. Está nas suas mãos e nos olhos atentos à estrada a segurança das crianças que vão para a escola. Ontem juntaram-se a mais 47 patrulheiros - ajudam as crianças a atravessar as passadeiras junto às escolas e tomam contam dos jardins - num encontro com a presidente da Câmara da Amadora para assinalar mais um ano de trabalho.

O projeto nasceu depois de três acidentes mortais junto a uma escola da Amadora em 1999. A autarquia queria acabar com atropelamentos e garante que o conseguiu desde que criou a parceria com a associação de reformados e pensionistas da freguesia da Mina, a Assorpim. "Nunca mais tivemos acidentes. Os patrulheiros têm um papel muito importante. São disciplinadores, obrigam os carros a reduzir a velocidade, as pessoas sentem-se mais protegidas. São muito importantes na área escolar", diz Carla Tavares, presidente da câmara. Patrulheiros para as escolas são 29, para os jardins 20 e dois para a horta comunitária do concelho.

Custódio, 64 anos, chateia-se com a falta de respeito dos condutores e depressa lhe vem à memória um grande susto que apanhou quando fazia guarda à porta de outra escola da Damaia. "É uma zona de 50 km/hora e o condutor ia a uns 100. Fiz sinal, mas o que valeu foi que o carro foi abaixo... Era a mãe, o bebé que ia na barriga e a filha de oito anos que levava pela mão", recorda. O condutor seguiu viagem após um aceno como quem pede desculpa. Pouco, considera Custódio, para quem deve ter mais responsabilidade quando tem um volante entre mãos.

Soube do projeto através de um amigo, que já era patrulheiro, e inscreveu-se na associação para fazer o mesmo. Lembra-se mal do primeiro dia, a não ser que tinha dúvidas e pouca prática. Agora pais e miúdos já o conhecem e garante: "Estou a adorar. Quero ficar até que me deixem." O mesmo diz Francisco, 68 anos, que vai de casa, na Buraca, a pé para o seu trabalho. "Por minha vontade continuo. Em casa estava aborrecido, ia para o sofá ver televisão. Assim estou entretido, as horas passam mais depressa e gosto de lá estar. Já conheço os miúdos quase todos."

Francisco diz que este trabalho é mais difícil que a construção civil. Embora não tenha netos - "bem podia, tenho um rapagão de 41 anos " - olha pelos dos outros como se fossem os seus. "É mais responsabilidade. As passadeiras têm de ser respeitadas, se há pessoas estranhas. Temos de ter a certeza que ficam todos bem. Faço o meu melhor." Em média são quatro horas por dia: início das aulas, almoço e quando terminam.

60 mil euros por ano

Francisco e Custódio recebem 206 euros. Os valores são pagos de acordo com as horas e os dias que trabalham. E foram os pagamentos que levantaram muitas dúvidas no encontro com a presidente da Câmara. Muitos queixaram-se de não estar a receber como no ano passado. Carla Tavares explica as razões: "Percebemos que havia uma irregularidade no pagamento. Este é um trabalho voluntário, uma prestação de serviços e em julho e agosto não existem aulas, por isso não há prestação de serviço."

Os custos da autarquia com o projeto rondam os 60 mil euros anuais. "Estamos a trabalhar com os agrupamentos de escolas para que possam enviar à câmara as listas de presença o mais cedo possível para fazermos os pagamentos a dia 8 de cada mês", acrescenta a responsável, que explica que ao projeto podem aceder reformados e desempregados com baixos rendimentos, também com o objetivo de ajudar quem tem menos.

"Amanhã há mais"

Vasco Oliveira estava desempregado - era segurança - quando o presidente da junta lhe perguntou se queria trabalho. Não pensou duas vezes. No Parque Central da Amadora já todos o conhecem e por isso, conversa nunca falta. Tal como não lhe falta disposição para andar... muitos quilómetros por dia às voltas no jardim para ter a certeza que está tudo bem. "Ainda não fiz a conta, mas devem ser uns 15 a 20 quilómetros por dia. Pesava 102 quilos, agora tenho 75. Faz muito bem andar a pé", brinca.

Ainda se lembra bem do primeiro dia de patrulheiro. "Oh se lembro! Foi muito custoso. Era inexperiente nesta área e ouvi muitas bocas. Ainda hoje há faltas de respeito. os adolescentes são mal educados, mas temos de nos aguentar. Dar a volta, falar devagar e com calma. Às vezes não temos outro remédio se não ignorar", conta Vasco, que tem 50 anos e recebe 350 euros mensais.

Há cinco anos que é patrulheiro, mas nem estes desafios o afastam do principal jardim da cidade. "Gosto de tomar conta das crianças e dos idosos, do jardim. Aqui temos de ser psicólogos, vigilantes, guardas e bombeiros. Sinto que dou segurança. Já sou avô de duas crianças - não vêm para aqui -, estes não são meus mas é como se fossem", afirma, lembrando a vez que chamou a polícia quando percebeu que uma pessoa olhava demasiado para as crianças que brincavam no parque. São elas que lhe chamam Sr. Guarda e que deixam cair umas lágrimas sempre que o veem aproximar-se com a chave para fechar o parque infantil. "Algumas choram mesmo a sério. Digo-lhes amanhã há mais e elas ficam todas contentes."

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