Passou um ano e continuamos sem dizer a palavra "amor"

"Desde a minha confissão de amor sem resposta, ele sentia-se acabrunhado e culpado, disse-me. Dentro de poucos meses, deixaria Washington para fazer o doutoramento em economia. Embora não o tenha dito, percebi que estar apaixonado por mim não se coadunava, em termos práticos, com os seus planos de carreira imediatos"

Foi numa sexta-feira à noite em março passado, a última noite de três dias de férias em Nova Orleães com a minha melhor amiga. Numa rua entre Jackson Square e a Catedral de São Luís, ela e eu sentámo-nos em cadeiras dobráveis, coladas aos assentos. À nossa frente, uma estranha que tinha prometido revelar o meu futuro por cinquenta dólares (48 euros).

Disse-me que por esse preço eu poderia ter a experiência completa: leitura das mãos, cartas de tarot e cristais de adivinhação. Só que eu não estava interessada na experiência completa. Só queria a resposta a uma pergunta, usando o método mais barato disponível.

Assim, pedi a leitura das mãos. Na verdade, regateei de forma a conseguir a leitura das mãos e das cartas de tarot por trinta dólares (29 euros). Quando ela pegou nas minhas mãos, o meu batimento cardíaco disparou e as palmas das mãos começaram a transpirar.

Momentos antes, a minha amiga tinha-me perguntado se acreditava em previsões psíquicas. Eu considerava-me uma cética esperançosa, mas era uma principiante nos mundos da clarividência, da adivinhação e de qualquer meio que prometesse revelações do futuro. Contudo, enquanto passeava pelas ruas de Nova Orleães e escutava as lendas do vudu, percebi que não havia um lugar melhor para perder a minha inocência na adivinhação.

Mas ficaria bem com o futuro que ela visse para mim? Estava convencida de que não ficaria.

Com um casaco cor-de-rosa e um sorriso esquivo, a vidente olhava fixamente para as linhas entrecruzadas das palmas das minhas mãos. Lendo-as como a um mapa, ela percorria as linhas com as unhas compridas e pintadas. Enquanto o fazia, eu tentava manter um espírito aberto e não me distrair com o seu verniz rosa vivo e lascado ou com os poucos dentes que mostrava ao falar. Ela começou com o assunto sobre o qual eu mais queria ouvir: a minha vida amorosa.

"Já foi magoada antes", disse ela.

Frase de introdução típica. Claro que eu tinha sido magoada antes. Não seria isso verdade para toda a gente? Troquei um olhar cúmplice com a minha companheira de viagem e assenti com a cabeça.

A vidente perguntou o nome da pessoa que me magoou. A seguir pediu-me para me lembrar de outro relacionamento fracassado. Depois de eu ter nomeado dois homens que tinha tentado esquecer, ela pediu-me para confirmar a presença de uma nova pessoa na minha vida.

Acenei com a cabeça novamente, sem saber se devia fugir, suster a respiração ou ficar imóvel na cadeira. Queria que lhe dissesse o nome dele. Eu disse-lho.

"Ele ama-a, mas ele tem uma maneira peculiar de o demonstrar."

Lá estava. Sem sequer perguntar, tinha uma resposta para a pergunta que me torturava há semanas.

O meu namorado e eu aproximávamo-nos do aniversário do nosso primeiro encontro. Conhecemo-nos através do Hinge, uma aplicação de encontros baseada nas redes sociais. Ele tinha sido a segunda pessoa da aplicação que eu tinha concordado em conhecer na vida real.

O nosso primeiro encontro teve lugar numa noite de segunda-feira, e durou quase três horas. Em vez de escolhermos uma garrafa, pedimos demasiados copos de vinho tinto, falámos sobre o nosso gosto mútuo por Os Homens do Presidente e concordámos que correr a maratona é uma forma de masoquismo. Quando o encontro chegou ao fim separámo-nos com um abraço e um pedido dele para eu lhe mandar uma mensagem quando chegasse a casa.

Eu fi-lo e mandei-lhe nova mensagem ainda não tinham passado 24 horas, dizendo-lhe que esperava que tivesse gostado do concerto que ele tinha dito que planeava ir assistir naquela noite. Passou um dia até o meu telefone se iluminar com o seu nome. Ele tinha adorado o espetáculo e queria um segundo encontro.

Doze meses passados ainda estávamos juntos, vendo-nos com uma frequência de três ou quatro vezes por semana, e eu estava a começar a sentir algo de diferente em nós. Eu nunca tinha estado apaixonada, mas alguma coisa me dizia que era isso que eu sentia.

E, no entanto, apesar de tudo isso, nenhum de nós havia ainda pronunciado a palavra amor. Se eu me sentia assim, não faria sentido que ele também se sentisse? Eu queria saber se lhe deveria dizer que o amava ou esperar que ele o fizesse. Não disse nada e ele também não.

Cansada de esperar, tinha esperança de que a vidente me desse o esclarecimento de que precisava.

Ao dizer claramente que o meu namorado me amava, ela tinha-o feito. E talvez a sua "maneira peculiar de o demonstrar" significasse que ele era incapaz de pronunciar essas palavras por si mesmo.

Seja como for, eu tinha conseguido o que queria e estava pronta para ir embora, mas a vidente continuou, baralhando as cartas de tarot e dizendo que eu viveria até aos 96. Em seguida, as suas palavras perderam-se no meio de uma cacofonia de ruídos da rua e dos sinos da catedral a tocarem as horas. Achei que era a nossa deixa para sairmos dali.

Três semanas depois, de volta a casa em Washington, eu ainda não tinha contado nada ao meu namorado sobre a experiência. Brinquei com ele sobre o preço que tinha pago pelo olhar para o futuro, mas tinha resistido a mencionar a afirmação da vidente. Enquanto isso, as palavras dela assombravam-me, instando-me à ação, até que uma noite no apartamento dele me senti pronta para dar voz aos meus sentimentos.

Parada em frente ao micro-ondas estudei todos os botões, perguntando-me se se poderia confiar na função pipocas. O meu namorado abria uma garrafa de vinho e eu, ao ouvir a rolha saltar, voltei-me para o homem com quem namorava há mais de um ano. Senti a emoção tomar conta de mim e iluminar o meu rosto de felicidade. Sorrimos os dois. Os grãos de milho a rebentarem fizeram-me lembrar os sinos da Catedral de São Luís e senti-me transportada de novo para Nova Orleães. Bebemos o vinho mas não conseguimos terminar as pipocas.

Na cama dele, abraçámo-nos e eu olhei-o nos olhos. "Posso dizer-te uma coisa?", perguntei num sussurro.

"Claro", respondeu ele, imitando o meu tom abafado.

Fiz uma pausa e respirei fundo. "Eu amo-te." Já estava. Eu tinha pronunciado as palavras.

A princípio, ele não disse nada. Uma pausa agonizante. Então, finalmente, murmurou: "Obrigado."

Fiquei à espera de o ouvir repetir as minhas palavras, mas ele não o fez, e toda a alegria e otimismo que havia em mim desapareceu.

Ao falarmos sobre o assunto ele não conseguia ecoar o meu sentimento nem dar-me uma razão para isso. Pensei nas palavras da vidente: "Ele ama-a, mas tem uma maneira peculiar de o demonstrar". Aquilo não era peculiar; era doloroso. Talvez ele tivesse medo de confessar o seu amor por causa do que isso poderia significar para nós e para o futuro. Se assim fosse, eu conseguia perceber. Tinha esperado semanas antes de falar, porque também me assustava.

No meio das minhas lágrimas, eu descartava rapidamente o que ele estava a dizer - e a não dizer - porque não queria acreditar nele. Não tinha mais fé na leitura das mãos ou na adivinhação, mas só conseguia pensar nas palavras da mulher com falta de dentes. Se eu conseguia acreditar numa estranha de Nova Orleães, por que não na resposta de um homem com quem estava há já 13 meses?

É difícil dizer o que tem mais ingredientes: um cocktail Granada de Mão de Nova Orleães, ou um caso de coração partido. Esse dia não foi o nosso fim, mas foi o início do nosso fim.

Algumas semanas mais tarde, sem que ele tivesse ainda pronunciado a palavra "amor", nós acabámos. Não conseguimos relevar a sua incapacidade de retribuir os meus sentimentos. Desde a minha confissão de amor sem resposta, ele sentia-se acabrunhado e culpado, disse-me. Dentro de poucos meses, ele deixaria Washington para fazer o doutoramento em economia. Embora não o tenha dito, percebi que estar apaixonado por mim não se coadunava, em termos práticos, com os seus planos de carreira imediatos.

Passei as semanas que se seguiram à nossa rutura sentindo-me triste e deprimida, perguntando-me o que poderia ter feito para o fazer amar-me. Pensava muitas vezes na vidente e em como tinha sido ingénua em depositar nela a minha confiança. Mas voltava sempre a uma única verdade: ela podia estar errada sobre os sentimentos do meu namorado, mas tinha-me dado a coragem para fazer uma coisa de que eu tinha tido muito medo.

Ao dizer ao meu namorado que o amava, a pior coisa que podia ter acontecido aconteceu: perdi-o. No entanto, ao fazê-lo, reconheci a minha capacidade e os meus limites em questões de amor.

Ele será sempre o primeiro homem que amei, e por isso estou grata. Eu não podia forçá-lo a amar-me, e não podia ficar se ele não sentisse o mesmo por mim.

Às vezes a vida tem uma maneira engraçada de nos revelar o que é melhor. Mas como as palavras da vidente acabaram por me ensinar, a forma como amamos não deve ser uma dessas coisas peculiares.

Bethany Imondi é organizadora de eventos educacionais em Washington

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