Pandemia aumentou pedidos para casa-abrigo de raparigas no Porto

A procura por respostas sociais para raparigas de famílias desestruturadas aumentou no Porto com a pandemia, mas quanto às mulheres vítimas de violência social e crianças e jovens em casas-abrigo o número estabilizou ou reduziu.

Diversidade parece ser a palavra que define o cenário nas instituições do Porto contactadas pela Lusa para perceber o peso que os efeitos da pandemia tiveram na sua capacidade de resposta para mulheres, raparigas, rapazes e crianças.

Neste quadro, encontrar abrigo para raparigas foi a única preocupação que pesou, conforme testemunhou o presidente da Associação de Proteção à Infância Bispo D. António Barroso (API), Maurício Pinto.

"A partir de junho de 2021 começou a haver mais pressão para receber e houve algumas situações que tivemos de recusar por se tratar de questões mais problemáticas", disse o responsável da instituição fundada em 1903 e que, atualmente, acolhe "27 raparigas com idades entre os 11 e 23 anos".

O histórico dos pedidos de acolhimento recebidos nos últimos anos na API - "em 2019 foram 29, em 2020 foram 14 e em 2021 foram 47" - elucida sobre a necessidade de corresponder às solicitações, acrescentou Maurício Pinto.

"Antes do confinamento, tínhamos entre 20 e 21 meninas", recordou, precisando, quanto à caracterização das jovens acolhidas nos últimos anos, que já tiveram "meninas brasileiras, guineenses, marroquinas e angolanas" na API.

A "viagem" pelas instituições de acolhimento do Porto exibe um cenário oposto quando se chega à Casa de Cedofeita e à Casa do Vale, a primeira com crianças dos 0 aos 10 anos e a segunda com jovens dos 12 aos 25, explicou a sua coordenadora, Ana Moutinho.

"Não sentimos maior pressão, pelo contrário. No caso das crianças houve até uma diminuição do número de pedidos, enquanto no caso dos jovens as chegadas continuaram no ritmo normal", disse a responsável da Associação CrescerSer, que gere aquelas respostas sociais.

Questionada se a pandemia tinha, por outro lado, complicado o processo de saída, Ana Moutinho não deu nota de dificuldades: "não sentimos que algum projeto de vida de reunificação familiar tenha ficado comprometido com a pandemia. Quem tinha de sair saiu".

Também aqui, os números ajudam a perceber a realidade dos dois espaços, com a responsável a relatar que na "Casa de Cedofeita, apesar de a lotação ser de 10 meninos ou meninas, devido aos muitos encaminhamentos feitos em 2021, têm cinco crianças acolhidas e cinco vagas".

"Devo acrescentar que tem havido uma tendência decrescente de pedidos de acolhimentos para crianças, mas para os jovens há lista de espera", disse Ana Moutinho, que sobre a Casa do Vale disse haver "uma vaga que vai ser preenchida em breve, dois pedidos pendentes e em acolhimento 13 rapazes".

Mulheres chegam mais nervosas

O provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto, António Tavares testemunhou, também que "não houve um aumento da pressão" do Centro de Vagas da Segurança Social para a colocação de mulheres vítimas de violência doméstica na Casa-Abrigo Santo António.

Dando conta de que as que chegaram "surgiram muito mais nervosas, muito mais ansiosas, também por causa do ambiente de pandemia", foi o processo de autonomização que mostrou uma nova realidade, pese embora o provedor garantir que os "apoios das entidades que colaboram com a Santa Casa continuam ativos".

"Agora é mais difícil sair, porque as pessoas se acomodam e o próprio confinamento ajuda a esse acomodar. As pessoas estão menos atentas e ativas para o processo de autonomização, mas isso é algo que com o fim os confinamentos e do que temos estado a viver vai, inevitavelmente, voltar ao que era", refletiu António Tavares.

Atualmente, na casa-abrigo estão "sete pessoas, sendo que o período normal de acolhimento é de 180 dias", tendo o responsável, sobre o perfil das mulheres, informado que "a idade ronda os 40 anos, que foram vítimas de agressões físicas ou coação psicológica e que, em média, têm um ou dois filhos".

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