Pandemia acentuou desigualdades na saúde, educação e no trabalho, confirma estudo

O relatório "Portugal, Balanço Social 2020" da Nova SBE analisou dados referentes a 2019 e os efeitos socioeconómicos da primeira vaga de covid-19. Entre janeiro e setembro, registou-se um aumento de 11 mil novos beneficiários do RSI.

Os mais pobres foram os mais prejudicados pelos efeitos da covid-19 em todas as frentes, conclui o relatório "Portugal, Balanço Social 2020 - Um retrato do país e dos efeitos da pandemia", preparado pelos investigadores do Nova SBE Economics for Policy Knowledge Center Susana Peralta, Bruno P. Carvalho e Mariana Esteves.

O documento divulgado esta quarta-feira,, fruto de parceria entre a universidade e a Fundação la Caixa/BPI, mostra que apesar das taxas de pobreza e de pobreza extrema terem vindo a cair na última década, a crise sanitária veio aumentar o fosso das desigualdades em áreas como a saúde, educação ou o trabalho.

"A análise [à atual crise] é imperfeita e incompleta, mas permite-nos ter alguma visão dos impactos que a pandemia tem em termos sociais", diz Susana Peralta.

O estudo - que compilou e analisou dados socioeconómicos referentes a 2019, mas também a situação durante a primeira vaga de covid - aponta que os menos desfavorecidos consideram ter um risco de infeção mais elevado, dado que viram o acesso aos serviços de saúde dificultado. Os investigadores referem ainda um inquérito que "sugere que a pandemia afetou particularmente a saúde mental dos mais pobres, dos menos escolarizados e dos desempregados".

Além de terem sido quem perdeu mais rendimento, os números mostram que "apenas 8% dos respondentes com escolaridade até ao 3º ciclo ficaram em teletrabalho, face a 56% dos que tinham concluído o Ensino Superior". Entre os inscritos nos centros de emprego - que registaram um aumento de 106 mil pessoas em setembro de 2020, em comparação com o mesmo período de 2019 -, os mais afetados foram os jovens até aos 25 anos e com escolaridade até ao 12º ano. As mulheres mantêm-se como a maioria entre os desempregados.

Questionada pelos jornalistas sobre a possibilidade de surgir uma nova "geração à rasca", como na anterior crise, Susana Peralta acredita que "tudo vai depender das políticas públicas". "É evidente que há políticas que podem minimizar este aspeto [da desigualdade], mas continuarmos de braços cruzados não", defende. A investigadora sugere ainda que se aposte na recuperação de aprendizagem para as crianças e que se ajude os jovens com medidas de saúde mental.

Por outro lado, o nível de endividamento das famílias aumentou durante os meses do primeiro confinamento, tendo diminuído nos meses seguintes "graças às garantias do Estado e à moratória pública dos créditos bancários". Ainda assim, refere o relatório, foi registado um crescimento de 11 mil beneficiários do Rendimento Social de Inserção (RSI) entre janeiro e setembro de 2020.

Os reflexos das desigualdades alastram-se ao campo da educação. Os investigadores sublinham a "enorme mudança" na vida dos alunos com o fecho das escolas há um ano, afirmando que nem a telescola terá chegado a todos os estudantes da mesma forma. "O aumento [de 60%] de espetadores não é homogéneo entre classes sociais, sendo mais expressivo entre os mais ricos (classes A e B)", lê-se no documento.

A dificuldade de participação no ensino digital tornou "os alunos de famílias mais pobres potencialmente mais vulneráveis", sendo que no ano letivo 2017/2018 apenas 62% dos alunos com apoio social tinham acesso a um computador e 52% à Internet.

Para Bruno Carvalho, "é importante salientar que o contexto familiar das crianças é diferente e isso provavelmente afeta os incentivos que têm para acompanhar, ou não, o ensino à distância". A economista Susana Peralta complementa que é possível verificar de que forma os rendimentos e o nível de educação dos adultos tutores afeta o rendimento escolar das crianças. "Crianças beneficiárias da ação social têm o dobro das negativas das outras", explica.

Pobreza: Portugal acima da média

Com exceção do período da crise financeira, o relatório realça a redução da prevalência da pobreza e privação material ao longo da última década. Os dados apresentados mostram que, em 2019, as taxas de risco de pobreza e de pobreza extrema (antes de transferências sociais) eram de 17,2% e 10,4%, respetivamente. No mesmo ano, o limiar de pobreza no país estava fixado em 6014 euros por ano e 12,5% da população portuguesa encontrava-se em situação de pobreza persistente.

"As famílias pobres são as que enfrentam maiores dificuldades no acesso ao mercado de trabalho, à educação superior e à saúde (24,1% dos pobres consideram a sua saúde como má ou muito má) e as que vivem em piores condições habitacionais (26% em privação habitacional severa) e que menos participam em atividades político/sociais (60%)", explica a equipa responsável pela análise.

De acordo com os investigadores, Portugal continua acima da média da União Europeia no que respeita aos indicadores de pobreza ou exclusão social (21,6%), risco de pobreza (17,2%) e privação material (5,6%).

atualizada às 15.15

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