"País deveria ter soberania alimentar e não depender das diretivas europeias"

Graça Ribeiro é horticultora

A casa de Graça Ribeiro, 58 anos, cheira a batatas, feijão, cebola, alhos, tomates, ervas aromáticas. Podia-se resumir, dizendo apenas que a casa cheira a produtos do campo. Mas, num tempo em que os alimentos deixaram de ter cheiro, convém reforçar a mensagem, individualizando os odores. Na associação "Colher para Semear", Graça Ribeiro tenta preservar a origem dos vegetais e frutas que tanto apreciamos. Sementes. Com certeza que já ouviu falar, já comprou e até já pode ter plantado, mas o mais certo é que isso tudo não tenha sido feito com as chamadas "variedades tradicionais", mas sim com as "modernas, sem as mesmas qualidades, mas mais rentáveis do ponto de vista comercial".

Num mundo regido pelo "valor", as sementes, enquanto não entrarem na cotação de uma bolsa de valores qualquer, não estarão na primeira linha de preocupações. Mas, como referiu Graça Ribeiro, as sementes têm um "enorme valor". "A curto, médio e longo prazo, porque as variedades tradicionais estão em vias de extinção", acrescentou, explicando que uma das missões da "Colher para Semear" é, precisamente, a preservação dessas variedades tradicionais.

Sempre focada na alimentação, Graça Ribeiro defende que Portugal deveria usufruir de uma "soberania alimentar total", isto é "importar muito menos alimentos, produzir mais, sendo que deveria haver incentivos a essa produção". Ou seja, que o país viesse a ter real controlo sobre a produção e a distribuição dos nossos alimentos. "Como tão bem define Esther Vivas, escritora e ativista política, Soberania Alimentar significa tomar o controle sobre os nossos hábitos alimentares e não delegar. Ou por outras palavras, significa ser soberanos, poder decidir, quanto à nossa alimentação", acrescentou.

Clima e solo são duas razões apontadas pela horticultora para considerar que Portugal tem condições para se tornar auto sustentável em matéria de produção alimentar e não ficar dependente das diretivas comunitárias. "Como é que um País com estas condições recebeu, durante anos, dinheiro para não produzir?", interroga-se, recordando, com humor, que no passado os Açores quase de afogaram "em manteiga", porque não podiam vender.

Porém, enquanto não chegamos a essa fase, Graça Ribeiro esperava que os anos da "troika" fizessem, pelo menos, os portugueses pensar um pouco no seu modo de vida. "As pessoas já estão a gastar outra vez mais do que têm", refere na conversa com o DN, considerando que, naqueles anos, os portugueses poderiam ter redirecionado as suas atenções e motivações para o campo, para aquilo que chama de "agricultura de proximidade". "Está mais do que provado que a agricultura de proximidade existe e alimenta muita gente", explica, dizendo que esta poderia ter sido uma forma de as pessoas, por um lado, atenuarem os cortes no rendimento e, por outro, projetar para o futuro um novo modo de vida. "Há aqui um problema, porém. É que quando há tentativas de implantar este modelo de agricultura de proximidade, aparece logo uma ASAE a tentar impedir", conta. Pois, hoje em dia tudo tem que estar normalizado e etiquetado. Mas, neste pós-troika, o clima social também serenou, as pessoas deixaram de estar tão atentas ao País. "É normal. Foram recuperando alguns rendimentos, portanto é legítimo", refere Graça Ribeiro, concordando, contudo, que falta "alguma agitação" ou um "escrutínio permanente" dos poderes públicos. "Mas, para isso é que temas importantes, como este, da alimentação, da qualidade dos alimentos, seja debatido nas televisões". Não é, bem verdade. Por isso, a horticultora concluiu: "Hoje, as pessoas vivem na ilusão da informação, de que sabem tudo com um toque no ecrã do telemóvel. Só que em questões importantes como saúde, educação são mantidas na ignorância."

Apesar de tudo, a Graça Ribeiro mostra-se satisfeita por uma aparente vontade dos portugueses se preocuparem com a alimentação. Seja a reboque dos inúmeros programas de culinária ou de um modo de vida mais desportivo, dito fit. Só que, no meio disto tudo, surgem as disfunções: "Por que é que temos que comer melão em janeiro ou fevereiro e não na época própria? Isto para já não falar dos morangos...", sorri, ao mesmo tempo que critica a inundação de produtos fora de época feita pelas grandes superfícies comerciais. "Temos mas é que aproveitar o que de bom nos foi deixado". Simples.

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