Os 'Picas do Mindelo' até levam as crianças

São jovens e até levam filhos menores para assistir a corridas ilegais em Mindelo. O perigo espreita mas não os afugenta

Quando se chega, à meia-noite de uma sexta-feira, junto da zona industrial de Mindelo, na EN13, concelho de Vila do Conde, dá-se logo conta de que existe ali próximo um ajuntamento de pessoas. Essa perceção nasce do número de automóveis estacionados nas bermas da estrada. Numa rua que dá acesso à zona industrial há muitos jovens a caminhar a pé, nos dois sentidos, carros que saem e entram. Logo se percebe que o centro das atenções é ali - o local onde condutores e público se agrupam para mais uma noite de aceleras, ao estilo, em dimensão bem mais reduzida, da série de filmes Velocidade Furiosa. São os Picas de Mindelo, que às sextas, e também aos sábados, de madrugada formam uma multidão que assiste às corridas ilegais.

São em maioria jovens aqueles que caminham para a artéria sem saída onde as acrobacias são levadas à prática, entre os pavilhões industriais encerrados durante a noite. Nota-se que muitos dos entusiastas desta forma de street racing são mulheres, embora o número de homens seja superior. Na rua dos aceleras, há grupos de pessoas dispersas ao longo de mais de 400 metros. São duas ou três centenas, com muito público flutuante, saem uns chegam outros. O mesmo se passa com os bólides. Aparecem na rua e fazem os arranques a alta velocidade, os chamados picanços com dois carros lado a lado até à meta no fundo da rua, ou atrevem-se apenas a fazer piões, com os assistentes a poucos metros.

O perigo não assusta. "Isto é uma rua sem saída, que a esta hora da madrugada não tem trânsito. Só vem para cá quem quer, ninguém vem ao engano", diz um jovem, 20 e poucos anos, que também já levou o seu carro e mostrou a potência e a sua habilidade de condução. Mas naquela noite estava apenas com amigos a assistir.

"Dar gás e fazer apostas"

Há apostas? "Então não... Eu não me meto nisso mas muitos que vêm dar gás fazem apostas", responde. Os Picas de Mindelo até têm páginas nas redes sociais, por onde convocam os adeptos, e chegaram a atingir uma dimensão que já levou a GNR a atuar. Várias operações foram efetuadas no local. É fácil à polícia fechar a zona - é uma rua sem saída. Mas nada mete medo. "Depois de a GNR aparecer, isto morreu um pouco. Hoje não está a dar grande pica. Mas tudo depende, de repente aparece alguém a animar", diz um rapaz do mesmo grupo de jovens.

A cidade da foz do rio Ave tem tradição no automobilismo e nos aceleras, com o circuito citadino a ser parte do calendário nacional de velocidade durante décadas até acabar em 1993. Os mais velhos, já acima dos 30 anos, ainda se lembram das noites de aceleras nas vésperas das corridas e das cargas policiais que por vezes ocorriam em madrugadas de grande agitação. "Até há alguns anos era na zona industrial da Maia que se fazia. Era espetacular, com montes de carros e milhares de pessoas. Agora é aqui, mas o local é muito mais pequeno."

Por incrível que pareça, na primeira linha do público, já no asfalto e fora do passeio, está um bebé ao colo de uma mulher. Do outro lado da rua, mais afastada do risco, outra criança dorme nos braços da mãe. "Quem os tiver tem de os trazer", responde um dos jovens. Para confirmar que não é um episódio casual chega um casal com um carrinho de bebé. Ninguém parece preocupado com a possibilidade de um despiste. No início do mês, dois jovens ficaram feridos após um condutor não ter controlado a viatura.

Os carros, que roncam furiosamente em certos casos, são do mais variado possível. Em 40 minutos um Porsche moderno, a custar dezenas de milhares de euros, passa várias vezes. Parece não encontrar rival. Na mesma altura, circulam por ali veículos como Renault Clio, BMW, Audi, Peugeot, até comerciais ou um Opel Corsa já degradado e a espalhar imenso fumo. O cheiro a borracha queimada é intenso e marcas no asfalto são muitas. Dentro dos veículos, pelo que é possível observar, há condutores muito jovens (nem todos o serão) e quase sempre vão acompanhados. Há quem ande por ali com quatro ou cinco pessoas no carro. E é isto durante horas. "Nem sempre vale a pena vir aqui. Mas há pessoal toda a noite."

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