O segredo do sucesso dos irmãos

É de amor que se fala nesta coluna, a mais lida do The New York Times. Histórias verdadeiras, contadas pelos leitores. Leia-as no DN aos domingos

Há alguns anos fui com o meu irmão mais novo ao casamento de um amigo de infância, que teve lugar num dos últimos andares de um elegante hotel de São Francisco. Estávamos de pé junto às janelas que iam do chão ao teto, na brincadeira um com o outro, quando a irmã do noivo se aproximou.

"Vocês são tão chegados", disse ela. "Deve ser bom. Digam-me, o que posso fazer para que as minhas filhas sejam tão chegadas como vocês são?" O tom era ligeiro, mas o seu olhar era atento.

"Queres saber?", perguntou Eric. "Eu vou dizer-te: deves separar-te do teu marido e fazer que o divórcio seja feio. Isso vai unir os teus filhos."

Eu ri-me.

"Oh," disse ela, hesitante.

"Eu não disse que seria fácil", acrescentou o meu irmão.

Eu ri-me novamente.

As luzes de São Francisco espraiavam-se abaixo de nós e as águas escuras da baía agitavam-se ao fundo. Eu lembro-me da hesitação na voz da nossa amiga, do meio sorriso no seu rosto. Eric falou com ela, mas as suas palavras eram para mim, como se me estivesse a dizer: Esta é a nossa história. Nós podemos assumi-la e brincar com ela.

Era sarcástico e negro, mas também libertador, e isso fez-me amá-lo ainda mais.

"O quê? Não", disse Eric recentemente quando lhe recordei a cena. "Isso é desagradável. Eu não disse isso."

"Disseste, sim! Eu lembro-me perfeitamente."

"Eu não diria uma coisa dessas." Mas acabou por encolher os ombros. "Bem, não é mentira", disse ele. E mudámos de assunto, como costumamos fazer.

Quando os nossos pais se separaram, eu tinha 9 anos, o meu irmão mais velho, David, tinha 12 e Eric tinha 6. Os nossos pais, que antes continham as suas discussões atrás de portas fechadas, deixaram de ter energia ou vontade de o fazer. Eles amavam-nos profundamente, mas havia batalhas a serem conquistadas - emocionais, financeiras, de reputação. Ninguém se comportou bem.

O meu pai mudou-se primeiro para um apartamento próximo e, em seguida, para uma casa, enquanto nós ficámos com a nossa mãe na casa de família nas colinas de Los Angeles. O nosso acordo era típico dos anos 1980: passávamos um fim de semana de 15 em 15 dias com o nosso pai e jantávamos com ele à quarta-feira à noite.

Enquanto tentávamos ajustar-nos à nossa nova realidade - andando para a frente e para trás entre lares, tentando evitar as discussões sobre dinheiro e a rispidez com que eles agora falavam um com o outro - os meus irmãos eram a minha única constante e o meu conforto.

Com pouca consciência de que o estávamos a fazer, criámos uma família dentro de uma família. Os meus irmãos eram os meus aliados. Cada um tinha o seu papel. David tornou-se o nosso negociador, aquele que lidava com os pais e as exigências de uma agenda sempre tensa. Ele era o corajoso que comunicava as notícias menos agradáveis.

Eric tornou-se o diabrete. Nós ensinámos-lhe a cumprimentar uma mulher mais nova com quem o nosso pai estava a sair dizendo-lhe "Olá, mana." Uma vez, quando tinha 8 ou 9 anos, implorou um relógio com calculadora da Casio que o meu pai não queria comprar-lhe. Tenho a certeza de que o meu pai tinha boas razões para dizer não. Mas do que mais me lembro é do choro de Eric e da minha certeza absoluta de que ele precisava de proteção e de que era a mim que me competia protegê-lo.

"Porque é que não podes ser mais simpático em relação a isto?", gritei ao meu pai, logo eu, que odiava discutir acima de tudo. "Porque é que tens de ser tão mau?"

Os meus irmãos e eu brigávamos constantemente. Lutávamos fisicamente. Eu tenho uma cicatriz na mão direita de uma briga em casa dos meus avós quando David, furioso, me atirou contra um armário. Ficávamos muitas vezes entregues a nós mesmos com pouca supervisão de adultos; uma vez, David e eu convencemos Eric a meter-se dentro do secador de roupa. Outra vez fechámos o sofá-cama com ele lá dentro só para ver o que aconteceria. (Ele ficou bem!)

Os meus irmãos tinham um enorme prazer em provocar-me devido ao meu gosto por séries como Uma Casa na Pradaria e General Hospital, a estar sempre a ler e à minha paixão por Steve Sax, segundo base dos Dodgers.

Mas éramos grandes companheiros. Quando David tirou a carta de condução aos 16 anos, a sua nova liberdade estendeu-se a nós. Agora era ele que nos levava de uma casa para a outra, permitindo-nos evitar aquelas constrangedoras entregas parentais.

Ainda me lembro da espiral de medo que senti quando deixámos David pela primeira vez no dormitório da faculdade, a menos de 160 quilómetros de distância. Quem organizaria o jantar de quarta-feira à noite com o pai? O que faríamos sem ele por perto?

Quando entrámos na idade adulta e nos mudámos para diferentes partes do país, já não precisávamos tanto uns dos outros, mas percebemos uma coisa: queríamos passar tempo juntos. Fizemos uma viagem sem os nossos pais, fomos fazer rafting no sul do Oregon. Imaginámos como seria bom vivermos todos na mesma cidade.

Quando passei por um período difícil aos 20 e poucos anos, o meu irmão mais novo, recém-formado, veio e dormiu no chão do meu pequeno apartamento, não porque eu lhe tenha pedido, mas porque ele sentiu que eu não queria ficar sozinha.

Agora estamos em plena meia--idade e temos as nossas próprias famílias. Os nossos pais ultrapassaram a fase da amargura, ambos casaram novamente há anos e são agora felizes. Para nós, no entanto, o tempo do divórcio deles continua a ser um ponto de referência poderoso, uma experiência compartilhada que propicia uma fonte de humor amargo.

Nós os três vivemos agora a milhares de quilómetros do local onde crescemos, mas apenas a alguns quilómetros uns dos outros, tal como dizíamos que gostaríamos quando éramos mais novos. Alugamos juntos casas de férias. Durante uns tempos, Eric e eu trabalhámos na mesma revista, os nossos gabinetes ficavam paredes-meias. É a equipa Umansky, como nos chama o meu marido.

Essa proximidade dá-me um consolo do qual eu gostaria de não ter tido tanta necessidade recentemente. Cinco anos atrás, aos 69 anos, a nossa mãe soube que tinha um cancro raro e agressivo, e naquele período brutal, esmagador, nós três dependemos uns dos outros, revezando-nos nas visitas, compartilhando a pouca informação que possuíamos.

Ela morreu em janeiro passado e, desde então, nós três recitámos o Kadish, a oração judaica que se diz tradicionalmente por 11 meses após a morte de um dos pais. Fomos muitas vezes juntos à celebração. No fim íamos tomar café e conversar e esquecíamos as nossas responsabilidades, dizendo a brincar que a nossa mãe aprovaria.

Claro que ela aprovaria. Quando uma pessoa de luto recita o Kadish permanece de pé enquanto todos os demais na congregação se mantêm sentados. Nos meses a seguir à morte dela, enquanto eu me levantava para dizer a curta oração, os feriados que ela amava passaram, o meu aniversário e o dela também, e ela continuava ausente. Eu olhava para fora da janela da sinagoga e via os ramos das árvores que estavam nus quando ela morreu no inverno passado, depois ficaram cheios de folhas e resplandecentes durante meses, e agora estão esqueléticos novamente.

Esta passagem do tempo parece ao mesmo tempo inconcebível e dolorosamente normal. Sinto uma falta incomensurável da minha mãe e durante o Kadish perdia-me nos meus pensamentos, no meu próprio luto privado. Mas eu ficava de pé com os meus irmãos. Ouvia as suas vozes cantando também.

Uma vez, entrei na sinagoga e uma mulher que é uma frequentadora regular sussurrou-me: "Os seus irmãos ainda não chegaram." E o meu coração alegrou-se um pouco com a ideia de até pessoas que mal me conhecem me verem como parte desta unidade.

Alguns meses atrás, eu estava numa festa infantil e uma mãe lamentava-se por as suas filhas não se darem bem. "É uma falha dos pais", disse ela.

Pensei em fazer a mesma piada do divórcio que o meu irmão contara, mas não o fiz. Gostaria de ter dito aquilo em que realmente acreditava, que essas coisas não podem ser forçadas. O melhor que se pode fazer é dar um passo atrás e deixar a alquimia funcionar.

Poucos anos depois do divórcio, David e eu estávamos no nosso quintal, onde ele e um amigo estavam a consertar um pequeno veleiro de uma só pessoa que tinham comprado, pintando-o de vermelho. A nossa cozinha era virada para o quintal, com uma grande janela sobre o lava-louça, e quando David foi lavar as mãos, eu conseguia vê-lo muito bem.

Ele ligou o triturador de lixo do lava-louça, eu ouvi o barulho, e então - nunca vou conseguir esquecer - ele começou a gritar, levantando as mãos vermelhas e a pingar.

Eu gritei. As mãos dele, apanhadas pelo triturador, mutiladas! O terror: a recordação ainda consegue deixar-me gelada.

Então ele abriu a porta de rede com uma facilidade desarmante e apareceu no quintal a rir.

"Foi uma partida, é só tinta", disse ele, aproximando-se. "Vês? Estou bem, estou ótimo."

"Odeio-te", disse-lhe eu a chorar, afastando-me dele com o coração apertado e dividido em partes iguais de medo e de fúria. "Odeio-te mesmo a sério."

Eu tenho duas filhas agora, com uma diferença de três anos entre elas, tal como eu e os meus irmãos. As minhas filhas não são nada parecidas connosco. Raramente brincam juntas. Elas não são as melhores amigas uma da outra. Mas em momentos de verdadeiro desespero já as vi aproximarem-se uma da outra. E sinto-me grata por isso. Quanto ao resto temos de esperar para ver.

Ellen Umansky vive em Brooklyn e é autora do romance The Fortunate Ones, a ser publicado neste mês.

Exclusivo DN/The New York Times

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