"O Manel foi um milagre no ano de 2020"

Maria Lucena sonhou ser mãe, planeou a gravidez e estava à espera de dar à luz no final de maio de 2020. Mas em março o presente mudou e o futuro também. Foi a primeira grávida a ficar infetada com covid-19 em Lisboa e ser internada na Maternidade Alfredo da Costa. Tudo o que tinha imaginado sobre o parto e o início da maternidade não aconteceu. Sentiu medo, muito. Mas hoje agradece ao Manel, por ter lutado também.

O Manuel, Manel para os pais, tem hoje 9 meses. Ou melhor, 7. Nasceu às 29 semanas, no dia 27 de março, 15 dias depois de a mãe saber que estava positiva à covid-19. O pai tinha sido o primeiro a testar positivo, mas ambos se sentiam bem e quase sem sintomas. O vírus SARS-CoV-2 que tomou o mundo de forma inesperada, arrombou também a vida de Maria Lucena e do marido Francisco.

Ela foi a primeira grávida a ficar infetada com a doença, quando ainda quase não se falava de casos em Portugal. "Fiquei muito ansiosa. Foi logo no início da pandemia, ainda era o desconhecido, até para os médicos, ninguém sabia muito bem como lidar comigo e até que consequências poderia haver para o bebé. Os médicos diziam que, à partida, não teria consequências, mas não havia certezas. Senti medo, muito medo", conta hoje ao DN com toda a tranquilidade e como se nada lhe tivesse acontecido.

Diz ser assim: "Sou uma pessoa tranquila, calma. Passei muito a gravidez. Até àquela altura não tinha tido qualquer problema, trabalhei sempre sem parar". Depois, a partir do dia 10 de março tudo foi diferente. "O meu marido tinha ido uns dias de férias para a neve, na Suíça,, com um grupo de amigos no início de março. Quando regressou soube que um amigo dos amigos com quem tinham estado num bar estava positivo. Ele não tinha sintomas, mas ficou preocupado e ligou para a linha de SNS. Vieram logo a casa fazer o teste. No dia seguinte soubemos que estava positivo."


A vida de Maria e de Francisco, ambos de 35 anos, mudava aqui e de supetão. Ela foi para casa dos pais, sentia-se bem, mas no dia 13 fizeram-lhe o teste e o resultado também veio positivo. "Não tinha sintomas, dei conta que não tinha olfato nem paladar, mas foi apenas por dois ou três dias, o que acontece quando estou constipada. Na altura, nem se falava muito destes sintomas"..

Quando soube, ficou ansiosa, confessa, depois com medo, pelas razões que já invocou, mas tentou manter-se calma pelo bebé. Tudo piorou dias depois quando percebeu que estava a verter um líquido. "Liguei ao meu médico e ele disse-me logo para ir para o hospital, o bebé estava com 30 semanas, estava a ser acompanhada no privado, mas tive de ir para a Maternidade Alfredo da Costa [MAC], quando ainda havia medo, estava-se a lidar com um vírus desconhecido. Fizeram-me o toque e perceberam que a bolsa de águas tinha rebentado. Fiquei internada, disseram-me que era o melhor e que iam tentar que o Manel aguentasse mais uma ou duas semanas no útero."


Na altura, Maria Lucena admite que não sabia sequer que os bebés prematuros, com o número de semanas do Manel, não tinham sequer a maturação dos pulmões completa. Ele teve de levar três injeções para acelerarem essa maturação, mas no dia 25 de março, dois dias depois de ser internada, tiveram de lhe provocar o parto, o Manel teve de nascer de cesariana. "Eu entrei em trabalho de parto no dia 26, mas não estava a fazer a dilatação, no dia 27 fizeram-me análises e perceberam que estava a ficar com uma ligeira infeção e decidiram fazer a cesariana."

O momento tinha chegado, mas tão diferente do que tinha imaginado. Ao seu lado, não tinha Francisco, que ambos tinham decidido que iria estar presente no parto, nem qualquer outro familiar, a pandemia não o permitiu. "Estive sempre sozinha. Não foi fácil", assume, e aqui a voz deixa escapar-lhe a tristeza.

O Manel nasceu e ela não pôde sequer senti-lo no seu peito, algo que hoje qualquer mulher grávida imagina que irá sentir, que irá poder fazer. "Levaram-no para a neonatologia. Só o vi 15 dias depois de ter nascido", mas o receio de que ele pudesse chegar ao mundo positivo à covid-19 não se confirmou. "Fizeram-lhe dois testes e deu sempre negativo."

"As enfermeiras que estiveram sempre comigo. Elas tinham de mudar de quatro em quatro horas por causa dos fatos de proteção. Foram impecáveis, se não fossem elas ainda teria sido mais difícil."


Maria Lucena ficou bem depois do parto e teve alta quase de seguida. "Sentia-me ótima, achava que já não estava positiva, mas ainda estava. Fiquei com o vírus mais de um mês e só me deixaram ver o Manel quando negativei". Ela foi para casa, o Manel ficou na neonatologia da MAC, onde diz que "foi muito bem tratado". Valeu isso, tal como "as enfermeiras que estiveram sempre comigo. Elas tinham de mudar de quatro em quatro horas por causa dos fatos de proteção. Foram impecáveis, se não fossem elas ainda teria sido mais difícil", afirma. Mais difícil pela situação, pela pandemia, por não poder ter visitas e por ter sido no início. "Havia muitas dúvidas. Hoje penso que já é diferente, embora ache que não seja bom estar grávida e ter um bebé no meio de uma pandemia."

Maria conta ainda que não foi só o marido que ficou infetado no grupo que foi com ele a Espanha. "Ficaram todos. Soubemos pelas notícias que na zona onde estiveram houve um surto enorme, mas o Francisco esteve sempre bem, quase sem sintomas." Ele também não pôde ver logo o filho e os avós só o viram quando foi para casa a 29 de abril, um mês e dois dias depois de ter nascido. "Os meus pais e os meus sogros vieram recebê-lo à porta do prédio quando ele saiu da maternidade. Foi aí que o viram, e depois iam lá a casa uma vez por semana, mas ao longe e com máscara. Não podíamos correr riscos, ele é um bebé prematuro."


Maria e Francisco não puderam sequer recorrer à ajuda dos pais ou dos amigos para se ambientarem à rotina de serem pais. "Estivemos sempre sozinhos, como se estivéssemos num casulo. Só saíamos quando era imprescindível. O Manel saiu ao fim de uma semana de estar em casa para ir ao pediatra, depois voltou a sair ao fim de dois meses, quando já tinha completado três, mas assim que o pediatra disse que ele podia começar a sair, passei a dar umas voltas com ele."

Nessa altura, não havia ansiedade, Maria era mãe e como ela própria diz, "sou uma pessoa calma e tranquila". Hoje o riso salta-lhe quando pronuncia o nome do primeiro filho: "O Manel foi um milagre do ano ano de 2020." Quando lhe perguntamos a quem agradeceria neste ano de 2020, diz sem hesitação: "Ao Manel", por ele ter lutado também. "Ele está ótimo, nem parece um bebé prematuro. Tentamos fazer uma vida normalíssima dentro das restrições e com todos os cuidados. O Manel está em casa, eu já comecei a trabalhar e tivemos de contratar uma senhora para ficar com ele."

O primeiro Natal do Manel também não foi como antes tinham imaginado. "A família não pode estar toda junta, foi muito diferente do que costumava ser." Mas 2020 terminou e para 2021, Maria e o marido só desejam que "o Manel esteja bem de saúde". "Tenho esperança nas vacinas, mas não sei se vão fazer com que tudo se resolva tão rapidamente como gostaríamos, mas espero que esta pandemia tenha servido para as pessoas perceberem que temos de pensar cada vez mais no todo e não individualmente."

. "Tenho esperança nas vacinas, mas não sei se vão fazer que tudo se resolva tão rapidamente como gostaríamos."


O Manel, de olho azul e sempre sorridente, foi a compensação de um ano de pandemia, mas, nem tudo o que passou desmotivam Maria a ter outros filhos: "Para já, não. Ainda não descomprimi totalmente do que vivi, que foi muito intenso. Mas quero ter outros filhos, acredito que tudo isto me aconteceu pela situação no mundo e acredito que numa próxima gravidez tudo será normal e mais tranquilo."

Maria Lucena foi uma das grávidas que contraíram covid-19, o número de quantas mais passaram por esta situação no país não se sabe ao certo. A Direção-Geral da Saúde não tem estes dados discriminados, mas sabe-se que só um bebé de mães infetadas nasceu também com a doença. A ciência continua ainda estudar os efeitos da doença nas grávidas e nos bebés.

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