"O jantar tornou-se o momento de prazer acariciado pelo imaginário ao longo de dias frustrantes"

No Dia Nacional de Luta contra a Obesidade, o DN convidou o psiquiatra Júlio Machado Vaz a analisar o excesso de peso na sequência do confinamento imposto pela pandemia e de como os comportamentos podem provocar o descontrolo na balança.

A obesidade tornou-se uma consequência da pandemia? E hoje recebe na sua consulta mais pessoas com excesso de peso do que antes da covid-19?

A obesidade e o excesso de peso não esperaram pela pandemia para se tornarem graves problemas de saúde pública. Basta consultar o relatório da OMS sobre a situação europeia em geral, e portuguesa em particular. No nosso caso, contribui para cerca de 9% da mortalidade e 7% do total de anos vividos com incapacidade. Durante a pandemia -- que não terminou --, recebi pessoas que tinham aumentado de peso, em alguns casos com reflexos nos níveis glicémicos, justificando o diagnóstico de diabetes tipo II. Na maior parte dos casos, o mecanismo psicológico é o da "recompensa merecida" -- o jantar tornou-se o momento de prazer acariciado pelo imaginário ao longo de dias frustrantes. Daí aos excessos calóricos, através do álcool e de certos alimentos, foi um pequeno passo.

De que forma o excesso de peso se tornou uma doença do século XXI?

O excesso de peso, incluindo a obesidade, tornou-se um problema cada vez mais grave em sociedades sedentárias e com péssimos hábitos alimentares, propagandeados com eficácia por quem com eles lucra. Os números não mentem: quase 60% dos adultos europeus e uma em cada três crianças sofrem de uma condição que, em termos de risco, se veio juntar à hipertensão arterial e ao tabaco, por exemplo. Os avisos dos meus colegas sobre os números da diabetes não são meros caprichos de especialistas, traduzem uma realidade crescente.

Como a obesidade e a psiquiatria e psicologia caminham juntas? A "fome emocional" será uma das principais razões para que a balança dispare?

Em termos psicológicos, a realidade não é homogénea, bastará lembrar que em muitos casos de depressão e/ou ansiedade a perda de peso é notória. Mas sim, prato e copo transformam-se com enorme facilidade em "ansiolíticos e antidepressivos" artesanais. Nalguns casos, as pessoas chegam a verbalizar que servem para (tentar) preencher sensações de vazio, daí que nada tenha a objetar à expressão "fome emocional". Mas ela jamais será saciada à mesa.

Qual seria a política pública, qual a decisão ao nível do Ministério da Saúde, que poderia melhor contribuir para a redução da obesidade em Portugal?

Em Portugal existe um Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável, e já ficarei satisfeito se o poder político assegurar as condições para que seja cumprido nas suas múltiplas facetas, que vão de medidas fiscais à regulação do marketing alimentar. Preocupa-me, sobretudo, a realidade dos mais jovens, que precisam de entender as medidas como um investimento na sua saúde a médio e longo prazo. Falei da diabetes, mas não podemos esquecer o cancro e as doenças cardiovasculares.

Que conselho pode dar ao leitor para cuidar da sua saúde nestas áreas de que falamos?

Gosto pouco de dar conselhos, ainda menos de negar às pessoas pequenos prazeres, e muitos de nós cultivam o da mesa e do convívio proporcionado por uma refeição a sério, e não de fritos comidos ao balcão num intervalo da vida frenética. Nenhum colega meu da área da nutrição pede a abstinência, mas sim uma dieta equilibrada, tornar o exagero alimentar a exceção e não a regra e praticar exercício físico moderado de forma regular. Façamo-lo. Pela nossa saúde. Agora e num futuro que desejamos a perder de vista, mas com qualidade. Se há variáveis que não controlamos, não há boa razão para desleixarmos as comportamentais. Tal possibilidade de controlo e escolha é um privilégio num mundo em que existem 276 milhões de pessoas em insegurança alimentar, como anunciou o secretário-geral das Nações Unidas, engenheiro António Guterres.

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