O inimigo invisível e sem rosto das redes sociais

Com a ajuda de figuras públicas, a psicóloga Teresa Paula Marques lança livro e aponta técnicas de combate ao cyberbullying.

Em 2020 o cyberbullying representou 40% das queixas de bullying detetadas pela Polícia de Segurança Pública. Esta forma de assédio moral organizado contra uma determinada pessoa de forma virtual e que pode assumir diferentes formatos - agressão verbal, ameaça, injúria, difamação ou perseguição - e afeta principalmente as crianças e os mais jovens.

A pandemia veio tornar estas faixas etárias mais vulneráveis e expostas a este assédio sendo que a tendência é para que o fenómeno continue a crescer. É então neste contexto, e como alerta, que a psicóloga Teresa Paula Marques lança a obra Odiolândia com o intuito de chamar a atenção para o discurso de ódio nas redes sociais.

Licenciada e mestre em Psicologia clínica escreve não só na perspetiva de psicóloga e investigadora mas também na de vítima o que acaba por ser, também, uma forma de se aproximar dos leitores. A autora revela que foi atirada repentinamente para a "Odiolândia" ao ter sido alvo de ódio, notícias falsas e boatos maldosos no mundo virtual durante meses.
Assim, utilizando a sua experiência pessoal como inspiração, a psicóloga afirma ao DN que o principal objetivo do livro é "sensibilizar o público para a questão do ódio que cresce nas redes sociais" e ajudar a prevenir e a combatê-lo nos dias de hoje.

"O aumento do número de horas de utilização de tecnologias fez com que as pessoas encontrassem nas redes sociais um meio para expandirem todas as emoções negativas provocadas pelo isolamento/confinamento", relembra Teresa Paula Marques. E, estando este fenómeno a crescer cada vez mais na nossa sociedade, o livro é dirigido a pessoas de todas as faixas etárias. A obra destina-se tanto aos mais jovens como aos pais e educadores "já que inclui recomendações no sentido de prevenir que os filhos sejam alvo de ódio em ambiente online mas também meios de o enfrentar", sublinha.

E, sendo também as figuras públicas alvo de discurso de ódio, a psicóloga convidou mais de 20 personalidades para partilharem o seu testemunho. Herman José, Manuel Luís Goucha, Cláudio Ramos, entre outros, aceitaram falar sobre as suas experiências e as suas estratégias para enfrentar os haters. Assim, os relatos de caras conhecidas que já foram - ou continua a ser - alvo de ódio são uma tentativa de dar voz a todas as vítimas e uma forma de as ajudar a (sobre)viver a esta situação.

Num livro em que a autora aborda a atualidade, a psicologia e a parentalidade, a principal ideia a reter pelo leitor é que tudo o que se passa nas redes sociais tem um impacto real na vida de alguém. "Por detrás do ecrã existe uma pessoa igual a nós, com os mesmos sentimentos e emoções, que vai sofrer ao ler as mensagens ofensivas que lhe são dirigidas. Importa pensar duas vezes antes de publicar este tipo de conteúdos e reforçar a capacidade de empatia, porque só assim seremos capazes de nos colocarmos no lugar dos outros", menciona a psicóloga.

Como o cyberbullying acarreta um grande peso no processo de desenvolvimento das crianças e dos jovens, é importante alertar para a necessidade de intervir nestas situações. Nas palavras de Teresa Paula Marques é imperativo ensinar às crianças as consequências dos seus atos nas redes sociais para que "futuramente não se transformem em haters".

Assim, a obra remete o leitor não só para a relevância de proteger as vítimas e quais as estratégias que poderão ajudar a ultrapassar o "inimigo invisível e muitas vezes sem rosto" do outro lado do ecrã, mas também o que fazer no caso de alguém seu conhecido ser o agressor: "E se a vítima for o seu filho? E se o seu filho for o agressor?", pode ler-se na capa desta obra da Manuscrito Editora.

Teresa Paula Marques revela assim que "ficaria bastante feliz se soubesse que tinha contribuído para que algum utilizador das redes pensasse duas vezes antes de escrever um comentário agressivo ou insultuoso."

Frequentemente convidada para comentar temas da atualidade, a autora adianta ainda que a obra aborda não só a problemática do ódio nas redes sociais, mas também as notícias falsas e os boatos online, tendo um capítulo dedicado a uma leitura do fenómeno do ódio à luz da psicologia, um capítulo dedicado à sua prevenção e outro onde são descritos casos que foram punidos criminalmente.

A psicóloga, que já tem vários artigos científicos publicados na área da ciberpsicologia - e tendo também essa sido a temática da sua tese de doutoramento -, afirma que "já tinha alguma base teórica para a compreensão do fenómeno" quando foi alvo de ódio, o que motivou a elaboração deste livro num duplo papel - de técnica e de vítima. F. R. M.

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