O acidente que me tirou do isolamento e me deu intimidade

É de amor que se fala nesta coluna, a mais lida do The New York Times. Histórias verdadeiras, contadas pelos leitores. Leia-as no DN aos domingos

Chega um momento em que o nosso filho fica demasiado adolescente para o abraçarmos. Para mim, esse momento chegou quando Joe, o meu filho de 14 anos, foi para um acampamento de teatro por um mês. Ele estava tão ansioso por lá chegar que me pediu para o deixar na entrada. Mas há papéis que precisam de ser assinados quando se confia um filho a estranhos. No entanto, eu estava à espera de um abraço de adeus.

Depois de depositar as malas no seu beliche como uma xerpa nepalesa, aproximei-me para o abraçar. Em vez disso, ele conduziu-me até ao meu carro, onde se baixou e me deu um beijinho na cabeça, acompanhado por um gesto de despedida carinhoso, mas definitivo.

Em criança, Joe era carinhosamente chamado de "invasor espacial" por querer abraçar e tocar toda a gente, especialmente a mim. Como mãe solteira, amamentei-o até aos 2 anos. Então, ele tornou-se um apêndice de 33 quilos agarrado à minha anca e, finalmente, uma criança sonâmbula que encontrava o caminho para o meu quarto quase todas as noites durante anos. Entre os momentos de desejada proximidade sentia-me muitas vezes sufocada quando precisava de um pouco de espaço para mim.

Depois trocámos de lugar e era Joe quem precisava de espaço.

Eu aceitei isso como uma parte normal do crescimento dele. Mas não era apenas o facto de já não ter manifestações de afeto vindas do meu filho; há anos que também não tinha um amante que me tocasse. Ter este mês para mim, com Joe no acampamento, era a oportunidade perfeita para remediar isso, mas não havia concorrentes. Eu estava cansada das tentativas fúteis de encontros online, e o meu tempo livre era demasiado precioso para ser desperdiçado.

Lembrei-me dos conselhos que a terapeuta de uma amiga lhe deu quando ela se encontrava na minha posição: ligue a um ex-namorado. Naquela altura achei que era um conselho terrível. Mas na minha necessidade desesperada de me sentir ligada a alguém, enviei um e-mail provocador a um ex que morava nas proximidades, e ele respondeu.

No entanto, mais tarde, enquanto adormecia sozinha continuava a sentir-me invisível, intocada. Ele pode ter tocado no meu corpo, mas não tinha tocado em mim. Lembrei-me de um médico indiano que uma vez tive, que disse: "As pessoas neste país adoecem porque vivem sozinhas. Elas não se tocam o suficiente."

Eu vivia então em Nova Iorque, onde pelo menos as minhas pernas e os meus braços tocavam nos de outros passageiros no metro. Duvidava de que o médico aprovasse a minha vida em Los Angeles, onde passamos tanto tempo sozinhos nos nossos carros, isolados de todos. Mas eu não tive outra opção até ao dia em que bati no carro de outra pessoa.

Poucas semanas depois de Joe ter regressado do acampamento estava a fazer uma inversão de marcha para o ir buscar quando, de repente, a porta do condutor de um veículo que se aproximava apareceu na minha frente, e eu fiquei olhos nos olhos com a jovem mulher loira que estava ao volante.

A minha adrenalina disparou. Felizmente, não bati na porta, caso em que a poderia ter esmagado e, em vez disso, fui bater na roda dianteira do carro dela.

Saí do carro, deixando-o no meio da rua.

"Está tudo bem consigo?", perguntei.

"Você acabou de me bater", disse ela, como se não acreditasse no que tinha acontecido.

"Eu não a vi," respondi. E a verdade é que não a tinha visto mesmo. Teria sido a luminosidade da tarde ou eu estava tão desligada de tudo e de todos que não olhei segunda vez para os carros que se aproximavam? Eu não a vi; era essa a única certeza que tinha.

Ficámos as duas abaladas e com o pescoço dorido. E não estávamos certas sobre o que fazer a seguir. Mas, como a culpa era minha, tomei as rédeas da situação. Mudámos os nossos carros para lugar seguro. Liguei para a minha companhia de seguros e disse-lhes para entrarem em contacto com a dela. Tirei fotografias de ambos os veículos e assegurei-me de que tínhamos os dados uma da outra.

O meu telefone tocou. Era uma mensagem de Joe, a perguntar porque é que eu estava atrasada. Apercebi-me de quanto sentia a falta dele. Tinha estado ansiosa durante o dia todo pela viagem de dez minutos de carro até casa. Respondi-lhe, explicando o que tinha acontecido e pedindo-lhe para vir ter comigo a pé. Ele respondeu: "Prefiro ir para casa", seguido de uma segunda mensagem, "Por favor". Sentindo-me desapontada, pedi a uma vizinha para o ir buscar.

Quando levantei os olhos do telemóvel vi a mulher de pé na berma, a chorar.

"O que faço agora?", perguntou ela, com a voz a tremer. "Não tenho a certeza se posso conduzir o meu carro."

Não tinha palavras para expressar a minha tristeza, por isso abracei-a. Aquele momento de intimidade foi inesperado e involuntário, apenas um reflexo humano, como ajudar um filho quando ele cai. Mas, de alguma forma, aquele simples gesto permitiu-nos enfrentar o que tínhamos pela frente.

Liguei para a oficina local. O proprietário, um amável homem mais velho que eu já conhecia, respondeu. Depois de perguntar se estávamos todos bem, ele concordou em esperar por nós apesar de ser quase hora de fechar.

Tranquei o meu carro, entrei no dela e, juntas, dirigimo-nos para a oficina. Quando chegámos, o proprietário explicou-nos as reparações que seriam necessárias e, alguns minutos mais tarde, o namorado dela veio buscá-la.

Ele saiu do seu descapotável e envolveu-a com os seus braços fortes. Eu vi-a derreter-se no abraço dele. Quando ela estava sentada em segurança no lugar do passageiro, eles partiram, deixando-me sozinha na oficina com o proprietário.

Baixei a cabeça e corri para a casa de banho, onde me fui abaixo com grandes e profundos soluços. O meu papel de me mostrar forte e eficiente tinha terminado, e eu tinha ficado comigo mesma, com a minha vergonha, a minha tristeza. Como é que eu conseguia estar tão desligada? Como é que não a vi aproximar-se?

Saí e o proprietário viu as minhas lágrimas. Ele tinha uma expressão hesitante no rosto. Estendeu os braços e abraçou-me, esperando até perceber que eu não me importava. Quando eu não me afastei, ele relaxou e disse: "Eu sei, é sempre quando tudo acaba. É assim que acontece." Ele segurou-me nos seus braços por muito tempo.

A colisão partiu o meu para-choques e a roda do carro dela, mas também quebrou os limites com que andamos todos os dias. Ela puxou-nos para fora das nossas caixas de metal e empurrou-nos para as vidas e os braços uns dos outros, onde apreciamos a bondade e o sentido de comunidade, onde nos tocamos uns aos outros de forma profunda e pessoal. E, embora desejasse que não tivesse acontecido, eu fiquei mudada porque aconteceu.

Quando cheguei a casa, esta estava vazia. Um pouco mais tarde, ouvi a porta abrir-se e Joe a entrar. Ele olhou para mim cuidadosamente e eu vi o alívio a tomar conta dele.

"Estou feliz por estares bem", disse ele, parecendo culpado. "Eu sei que devia ter lá ido, mas estava com medo do que poderia ver."

"Está tudo bem", respondi. "Eu entendo." Ele estendeu os braços para um breve abraço antes de me contar como tinha sido o seu dia e a sua audição para uma ópera. Depois entrou no quarto e fechou a porta. Ouvindo o clique, eu percebi que, mesmo que o nosso relacionamento tivesse mudado, a nossa ligação mantinha-se.

Fui para o meu próprio quarto e friccionei o pescoço dorido com pomada. Pensei na jovem em quem eu tinha batido e tive esperança de que o seu namorado lhe tenha massajado as costas antes de se deitar na cama ao lado dela. Lembrei-me de todas as noites de nostalgia que eu tinha passado, noites em que pateticamente calculava que até os meus amigos com parceiros que se queixavam de ter relações sexuais apenas uma vez por mês, mesmo assim ainda conseguiam tê-las 12 vezes por ano.

Embora eu queira esse tipo de intimidade física como toda a gente, aquilo de que eu mais precisava era do toque, não do sexo. O toque solidifica qualquer coisa - uma apresentação, uma saudação, um sentimento, a empatia. No dia seguinte, continuei a perguntar a mim mesma se havia alguma maneira de experimentar esse tipo de proximidade sem chocar com alguém.

E há. Desde o acidente, dei comigo a ter muitos mais momentos de contacto. Às vezes, o toque é físico, outras vezes não é. Pode ser um simples sorriso trocado com um estranho na minha corrida matinal ou o olhar nos olhos da pessoa da caixa do supermercado enquanto ela mete as minhas compras nos sacos. Pode ser fazer festas ao nosso cão. E, em certos dias, é até o meu próprio filho adolescente a descansar a cabeça no meu ombro depois de um dia difícil.

Eu não sou invisível ou intocada. Na verdade, as pessoas parecem reparar em mim mais do que nunca, ou talvez seja eu quem está a levantar mais os olhos, bem consciente do risco de não ver alguém que está mesmo à minha frente.

E embora eu nunca o pudesse ter previsto, um efeito secundário de tudo isto foi que a minha necessidade persistente de um amante diminuiu. O tipo de ligação que eu aprendi a cultivar desde o acidente não é algo para me aguentar até que chegue a verdadeira. É esta a verdadeira ligação.

Michelle Fiordaliso, escritora e treinadora executiva na FastPay em Los Angeles, está a trabalhar num livro de memórias.

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