Número de jovens a fazer testes ao VIH dispara no verão

Sida. Os comportamentos de risco são mais frequentes nas férias e, por vezes, estão associados ao consumo de álcool e estupefacientes

Há cada vez mais jovens a fazer testes anónimos ao VIH/sida e é no verão que a procura dispara. As férias e as festas fazem aumentar os comportamentos de risco, o que leva a uma subida na ordem dos 20% do número de testes para deteção do vírus realizados em centros de rastreio de rua nos meses mais quentes.

Nos centros de base comunitária do Grupo de Ativistas em Tratamentos (Check Point Lx, In Mouraria, Move-se, entre outros) fazem-se, em média, mil testes de VIH por mês, um número que sobe para os 1200 durante os meses de verão. "No período de férias, as pessoas saem da rotina e fazem mais testes. Provavelmente, haverá um aumento das relações de risco. É uma explicação lógica", diz Luís Mendão, presidente do GAT.

Embora não tenha conseguido adiantar estatísticas, Gonçalo Lobo, presidente da Associação Abraço, também confirmou que se "nota um aumento no número de testes, não só no verão mas também nas semanas seguintes, devido ao período janela. Há pessoas que só fazem o teste seis semanas depois do comportamento de risco". Na opinião do responsável, a procura pelos testes de deteção do vírus aumenta devido a "fatores sociais e ambientais". "No verão, as pessoas estão mais divertidas, mais soltas. Vão a festivais, por exemplo, onde se consome álcool e estupefacientes. Há mais turistas que vêm com o intuito de ter sexo... Tudo isso aumenta os comportamentos de risco", indica o psicólogo.

Contactado pelo DN, Kamal Mansinho, presidente do Programa Nacional de Prevenção e Controlo da Infeção VIH/sida , explicou que não dispõe de "dados desagregados" que permitam confirmar se a tendência que se verifica nos centros de base comunitária se estende aos Centros de Aconselhamento e Deteção Precoce do VIH (CAD). Já António Diniz, que abandonou recentemente o cargo de diretor deste programa, disse que "em 2015 não se verificou um pico de atividade dos CAD no verão". No entanto, ressalvou, "a análise de um ano não permite tirar conclusões". Até porque "durante o tempo de férias há uma deslocalização das pessoas. Para as populações móveis, podem não ser as estruturas mais indicadas. O efeito pode refletir-se mais tarde".

São sobretudo os jovens aqueles que mais procuram os centros de deteção precoce de base comunitária. Segundo Luís Mendão, a maioria das pessoas que procuram os serviços do GAT para fazer testes têm entre 24 e 32 anos. "E notamos um aumento nos mais jovens, entre os 18 e os 23 anos." Para António Diniz, talvez seja um sinal de que "estão mais alertados e sensíveis para esta questão" e de que há uma "maior consciencialização para as formas de transmissão".

Gonçalo Lobo, presidente da Abraço, confirma que "a população juvenil adere cada vez mais", sendo "mais fácil trabalhar com a geração dos 18 aos 25 anos do que com as seguintes, que muitas vezes são mais retraídas. Há mais jovens a procurar fazer os testes do que adultos". Atualmente, só quem tem mais de 16 anos pode realizar os testes do VIH sem o consentimento dos pais, uma regra que o presidente da Abraço considera que devia ser revista. "Quanto mais precoce for a atuação, melhores resultados teremos. Podiam ser feitos antes dos 16 e, em caso de resultados reativos, os pais deviam ser informados, uma vez que, na adolescência, a adesão à terapêutica dificilmente é cumprida."

Em 2013, Francisco George, diretor-geral da Saúde, disse ao Público que seriam definidas novas regras para o consentimento informado que salvaguardassem "a possibilidade dos testes de VIH a menores", mas, até ao momento, nada mudou.

Mais contraceção de emergência

O consumo de contracetivos de emergência também dispara no verão. "As férias são espaços de potencial encontro e há relações inesperadas", explica Duarte Vilar, diretor executivo da Associação de Planeamento Familiar. E, por outro lado, há "alterações de rotinas", o que faz que a mulher se esqueça de tomar a pílula. "É uma época propícia a situações de risco, quer para falhas na contraceção quer para a transmissão de DST", reconheceu Duarte Vilar.

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